Sábado, 4 de Julho de 2009

Semelhanças entre os Açores e o Alentejo

O Verão deste ano é marcado por uma quebra na curva ascendente do turismo. Tudo indiciava que o sector, em fase de expansão, poderia conhecer novo crescimento com investimentos em infraestruturas hoteleiras e similares e uma cuidada e mais eficaz promoção do destino Açores.

O certo é que a indústria turística é aquela que mais sofre com as perturbações económicas e sociais. Mesmo assim, há que manter a esperança porque melhores dias virão para rentabilizar investimentos e animar o mercado turístico que se espera venha a constituir garantia de emprego tão necessário à fixação dos jovens.

São precisamente os jovens quem mais circula inter-ilhas nesta época estival. Vão em busca da Festa, da diversão, do convívio e, simultaneamente, descobrem as belezas naturais, a riqueza do destino Açores, tão pródigo na diversidade.

Neste vai-vem, visitantes estrangeiros andam de ilha em ilha e muitos açorianos regressam, temporariamente embora, à terra de origem, parecendo que somos muitos mais.

E mesmo com a crise, há sempre quem opte por estas ilhas. As suas tão propaladas qualidades ambientais e naturais, referenciadas em revistas da especialidade, hão-de impôr-se e o destino Açores será uma referência para os que, movidos pelo “stress”, não encontram no sol, nas praias e nas grandes urbes, razões suficientes para a terapia de que tanto necessitam.

Os segmentos turísticos amantes da natureza e do ambiente, conhecem um crescimento significativo em todos os países.

Visitei, há dias, o concelho de Montemor-o-Novo, no Alentejo. Tem uma área aproximada de 1.200 km2 e uma reduzida e envelhecida população que não atinge os 20 mil habitantes.

Não se pense, porém, que o concelho está adormecido. Não!

Aproveitando a sua riqueza histórica, traduzida em cerca de uma centena de monumentos magalíticos e um património edificado que remonta ao tempo da fundação da nacionalidade, o município montemorense alicerçou aí a sua política cultural e ambiental e deu-lhe projecção nacional e internacional, com repercussões notórias na economia local. A capacidade hoteleira ultrapassa as quatrocentas camas, a maioria das quais, em turismo de habitação, em espaço rural. Existe apenas um hotel com 60 quartos. Os demais estão espalhados por montes e aldeias. O mesmo se diga dos cerca de 70 restaurantes, 40 dos quais estão situados na cidade.

Esta descentralização turística tem vantagens para visitantes e residentes. É “o Alentejo aqui tão perto!” - como refere o slogan municipal.

No mar imenso das campinas, salpicadas de sobreiros, oliveiras e algum gado que, pachorrentemente, vagueia na vastidão, encontro algumas semelhanças com os Açores. Na toponímia da cidade, as ruas do Espírito Santo, Teófilo de Braga e Gonçalo Velho são marcas que nos são familiares.

Afinal, como dizia Nuno da Câmara Pereira, a um grupo de açorianos no desfile das Marchas de Santo António, em Lisboa, “Açores e Alentejo são a mesma coisa”. A insularidade e a ultra-periferia confundem-se com a interioridade do Alentejo profundo.

Temos é que tirar partido dessas condicionantes e atrair quantos – e cada vez são mais – os que buscam, na natureza, a paz, o deleite e o silêncio, tão necessários à criatividade e à inovação.


José Gabriel Ávila

jornalista C.P. 536


Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Este blog foi distinguido pelo www.activismodesofa.blogspot.com com o Prémio Lemniscata, cujo selo deste prémio foi criado a pensar nos blogues que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores”.
É claro que folgamos com esta distinção, mas não lhe damos mais importância do que aquela que tem a escrita do nosso pensamento preocupado sobre as pessoas e os acontecimentos.

Outros merecem também esta distinção: Basalto negro
Fiat Lux, O espólio, por exemplo.
Parabéns também para eles.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Observar baleias e golfinhos em botes baleeiros

Nunca é demais referir a saga baleeira que, no Pico e no Faial, teve a sua origem, por influência dos baleeiros norte-americanos que ali abasteciam os seus navios fábrica. No regresso, levaram homens e rapazes que fugiram à miséria das ilhas, emigraram para terras do Tio Sam.

Nos finais do século 18, por iniciativa do Capitão Anselmo, instalou-se, na Calheta do Nesquim, a primeira armação baleeira. Desde então, despontou uma das mais importantes actividades industriais que se expandiu por todas as ilhas.

A sua influência moldou a matriz cultural de várias gerações e de milhares e milhares de açorianos, aqui e nas Américas.

A aculturação adveio da luta até à morte entre os baleeiros e os cachalotes, da criação de embarcações adequadas, nomeadamente os botes, as lanchas e respectiva palamenta, e do aportuguesamento dos nomes ingleses.

A expansão da actividade, gerou uma típica indústria naval e a indústria de transformação dos cetáceos em óleo utilizado na indústria farmacêutica e na perfumaria, e das farinhas, em alimento para animais e adubação de terrenos agrícolas.

Toda a actividade baleeira, que Dias de Melo recriou nas suas narrativas, conserva-se viva no imaginário dos picoenses da minha geração. Aprendemos e vivemos algumas estórias trágicas; os nossos ídolos eram oficiais, remadores e trancadores, botes e lanchas que representávamos em desenhos; as nossas brincadeiras simulavam botes e lanchas, oficiais e arpões, baleias grandes e pequenas...

Nos anos 80, quando foi arpoada a última baleia nos Açores, por um bote das Lajes do Pico, foi como se uma parte de nós se tivesse perdido!...

Muitas famílias perderam o sustento, os baleeiros perderam a valentia por afrontarem e vencerem o monstro marinho. Felizmente acabavam as traições e as injustiças, as conversas sobre estórias de bravura e de morte e, no mar, as velas da embarcação mais bela do mundo, não voltariam a flutuar.

Passados alguns anos, as canoas regressaram, felizmente, ao mar. Jovens remadores - rapazes e raparigas, voltaram a saltar para os botes, com o entusiasmo de outrora, para, nas regatas a remos e à vela, atingirem a meta, incentivados e aplaudidos por centenas e centenas de entusiastas.

Da história da baleação, muitos botes foram reconstruídos ou reparados e florentinos, picoenses e faialenses, guardam importantes acervos em muito visitadas instituições museológicas.

Com o desenvolvimento da observação de cetáceos que, nos Açores ultrapassou 40 mil visitantes no ano transacto, é de todo o interesse que as embarcações baleeiras tenham um novo protagonismo. A integração de botes baleeiros no whale-watching que, segundo foi revelado, rendeu aos 19 operadores açorianos 5,5 milhões de euros, deverá constituir um atractivo importante para cativar turistas.

Especialistas mundiais, que recentemente nos visitaram reconhecem as enormes potencialidades com que a natureza dotou todo o arquipélago. Importa, no entanto, que a promoção se faça no seu todo e não, como constatou um operador dinamarquês, apenas sobre São Miguel.

A Região é um arquipélago de nove ilhas e todas devem ser o destino Açores.

José Gabriel Ávila

jornalista C.P. 536



Domingo, 21 de Junho de 2009

As vantagens do ensino mediatizado

1.Este foi um ano marcado por vários conflitos laborais. Entre eles, destaco as lutas dos professores contra a proposta de alteração do estatuto da carreira docente e contra o sistema de avaliação que o Primeiro Ministro reconheceu ter sido um documento exigente, burocrático e mal elaborado.

Ao que parece, o processo ainda não terminou, embora as férias e as próximas eleições possam sossegar os intervenientes. Mas as necessárias reformas no sector da educação, cuja dinâmica é imparável face às novas tecnologias da informação e aos novos valores que a sociedade vai inculcando nas jovens gerações, acabarão por voltar à agenda governamental, mais cedo do que se pensa.

Muitos são os factores que influenciam o processo educativo.

Hoje, não é possível pensar a Escola e os professores como agentes de comunidades fechadas e respeitadoras de valores assentes no tripé do Estado Novo: Deus, Pátria, Família. Este paradigma ruiu com o advento da Liberdade, da Democracia, da obrigatoriedade dos ensinos básico e brevemente, secundário, e o acesso às universidades públicas ou privadas. A entrada da mulher no mercado do trabalho, com salário equiparado ao homem; a liberdade religiosa, o divórcio, a despenalização moral da sexualidade, são outros factores, entre muitos, que contribuíram para que o Ensino e a Escola hoje, sejam totalmente diferentes dos anos 70. São desse tempo os docentes mais antigos que tiraram cursos universitários, no meio da contestação ao regime marcelista; ou até os que nos anos 80, ingressaram nas Academias imbuídos da convicção de que ser professor era exercer um sacerdócio.

A sociedade evoluiu muito nos últimos 20 anos, fruto do crescimento económico e da alteração de valores. E, pelo que se depreende, os agentes do sistema educativo ou não perceberam ou não estão preparados para responder à mudança.

Só uma análise complexa e contínua, permite observar o que se está a passar nos vários ambientes: familiar, educativo, laboral, social, religioso, pois todos eles interferem no desenvolvimento humano.

Olhar o fenómeno educativo deve ser uma constante preocupação das famílias, da escola e dos governantes. Hoje a sociedade da informação constitui uma “ameaça” ao imobilismo e ao conservadorismo de todos os agentes educativos. A formação dos educadores deve, por isso, ser constante, para bem desempenharem a sua exigente missão.


2.-O Ensino Mediatizado, a Universidade Aberta e o ensino à distância disponibilizado por várias universidades portuguesas, são respostas modernas à mudança civilizacional que vivemos.

Por motivos familiares, acompanhei, de perto, as aulas do Ensino Secundário Mediatizado que é leccionado a partir da Escola Secundária Vitorino Nemésio da Praia da Vitória.

Quando essa solução me foi proposta – confesso - tive muito receio em aderir ao projecto. Hoje, estou convencido que é uma excelente solução para quem pretenda prosseguir estudos secundários e, por qualquer motivo, não pode frequentar a Escola. Recomendo o ensino mediatizado a quem trabalha, pois, ao fim do dia, cansado não necessita de sair de casa. O ensino mediatizado é muito direccionado, há um excelente relacionamento entre professor e alunos e os docentes estão sempre disponíveis para responder às dificuldades que surjam, através do meio fácil e rápido - a internet.

O ensino mediatizado permite aos alunos fazer exames das disciplinas dos ensinos básico e secundário quando o entendam, na escola mais próxima, até ingressarem em cursos superiores.

Estas são respostas adequadas do sistema educativo regional, resultantes do aproveitamento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), para que o ensino e a formação das pessoas seja contínua.

Será que a Escola tradicional já se adequou às rápidas mudanças actuais que questionam, permanentemente, o sistema de ensino e os seus agentes?


José Gabriel Ávila

Jornalista 536


Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Repensar o presente, preparar o futuro

A escolha das sete maravilhas portuguesas espalhadas pelo mundo, no Dia de Portugal de Camões e das comunidades, constituiu um momento de afirmação e divulgação da portugalidade.

Ao revisitar alguns monumentos referenciados no meu antigo manual de História de Portugal do ensino primário, (ainda os nossos territórios eram d' aquém e d'além-mar em África, no Oriente e na Oceania), senti orgulho pelo que os nossos maiores nos legaram.

A história da expansão portuguesa já não se confina aos territórios conquistados aos mouros, aos índios e aos indígenas. As antigas colónias autodeterminaram-se, sacudiram o jugo económico, social, político e cultural e tentam, agora, construir o seu próprio destino sem perder a matriz da lusofonia.

A história da expansão portuguesa é também a história da emigração de milhares e milhares de compatriotas nossos, açorianos incluídos, que nos finais do século XVIII buscaram o pão com as famílias no sul do Brasil e no Uruguai, nos Estados Unidos, no Hawai e mais recentemente, no Canadá.

Desses milhares e milhares de portugueses perdeu-se o rasto e pouco se investiga, embora não faltem fontes nos países de acolhimento, a atestar os seus feitos e a comprovar a sua herança cultural. Quantos morreram com o sonho de voltar e de reencontrar o cantinho de onde partiram!...

Integrados em meios económica e socialmente mais evoluídos, os açorianos acederam, com facilidade, a níveis de educação superior e muitos ocupam, por via disso, cargos destacados na administração pública e empresarial. Raramente o anunciam quando aqui vêm, ao contrário dos de cá que, pomposamente exibem as suas graduações académicas.

O que quero evidenciar é que o seu amor à terra leva-los-ía, com certeza, a dar contributos apreciáveis, se para tal fossem convidados.

Há dias, um açoriano residente em Lisboa, antigo governante e ex-administrador de uma multi-nacional em Portugal, dizia-me ser de toda a importância reiniciar-se uma séria reflexão sobre o futuro dos Açores, à semelhança das Semanas de Estudo que o Instituto Açoriano de Cultura promoveu na década de 60. E sugeria o convite a quadros técnicos e universitários açorianos residentes no continente e no estrangeiro pois, os seus contributos proporcionariam a descoberta de novas estratégias para o desenvolvimento económico, social, cultural e político do arquipélago.

Quando todos pensavam que a agro-pecuária teria futuro assegurado e os produtos lácteos açorianos mercado qualificado, baixou o preço do leite e o futuro do sector vê-se ameaçado.

Aquando da inauguração da nova fábrica de lacticínios da Bell, foi afirmado o interesse na exportação de lacticínios açorianos para mercados africanos. Fiquei estupefacto e revoltado, pois esperava que essa multi-nacional francesa apostasse em nichos de mercado mais exigentes.

A estratégia comercial anunciada constitui, a meu ver, uma afronta aos nossos produtos e uma desvalorização das suas reconhecidas qualidades.

Uma nova fábrica deveria trazer novos produtos, cujas mais-valias revertessem a favor dos vários agentes económicos da cadeia do leite.

Utilizar ajudas governamentais e comunitárias para fazer mais do mesmo, não! Discordo, frontalmente!

Precisamos de inovar na agro-pecuária, na agro-indústria, na pesca, no turismo, no comércio e nos serviços, nos transportes, na construção e obras públicas, nas novas tecnologias, na administração local, regional e central, nos diversos níveis da formação e do ensino, nomeadamente do universitário, na saúde, etc.

Mas inovar exige reflexão, pressupõe escutar opiniões e saberes dos melhores e mais competentes nas diversas áreas de actividade, que os temos, de alto gabarito, aqui e lá fora.

Está na hora de parar para pensar o curto e o médio-prazo para ultrapassarmos, rapidamente a crise e termos um futuro promissor.

José Gabriel Ávila

jornalista C.P.536




Domingo, 7 de Junho de 2009

Breves reflexões sobre a democracia

A campanha eleitoral para as eleições europeias que hoje se realizam em Portugal, trouxeram à tona de água uma série de questões importantes e complexas sobre o estado da democracia no nosso país.

O tema é, normalmente, recorrente em tempos de crise e em períodos eleitorais.

O normal e, por vezes, desenfreado apetite de dirigentes e candidatos partidários pelo controlo e governação da res publica apresenta contornos e situações nem entendidas, nem bem vistas, pela generalidade dos cidadãos. E são estes os verdadeiros detentores do poder em regimes democráticos livres.

Seguindo a campanha eleitoral pelos media, - e para milhões de eleitores essa é a única forma de conhecerem os propósitos dos candidatos – fica-se com uma visão distorcida dos projectos e programas de cada um dos partido.

As reportagens televisivas são, necessariamente, curtas – 1 minutos e trinta a 2 minutos - e não dão para grandes exposições. Além disso, os repórteres de campanha sabem que o que mais se “vende” é a declaração crítica do cabeça de lista ou líder do partido A ao adversário do partido B, e que alimentando a polémica haverá desenvolvimentos no noticiário seguinte.

O jornalista é um contador de estórias da campanha. Devido à sua função mediática constitui, porém, um importante agente/mediador da controvérsia política, a maioria das vezes sem conteúdo, cujos destinatários são a restrita classe política. Facilmente uma “boca” ou uma declaração infeliz, proferida no calor de um comício, é suficiente para incendiar reacções em cadeia, tricas, ditos e desmentidos, que desfocam a campanha das questões importantes da actualidade.

É neste quadro que um número cada vez mais crescente de cidadãos desconsidera a classe política e se afasta das urnas.

Não é por não perceberem nada de política, ou por entenderem que isso é para os senhores do Governon, não. Qualquer cidadão mais ou menos instruído sabe, perfeitamente, avaliar a acção governativa pelos seus efeitos. A maioria das pessoas são comedidas nas críticas aos governantes e têm a noção da dificuldade em gerir a causa pública a contento de todos.

O que o cidadão comum não desculpa é a falta de seriedade dos agentes políticos na abordagem de questões sérias e graves; o cidadão não desculpa discussões estéreis, o falar por falar, a falta de respeito pelas opiniões adversárias, o desprezo por propostas alternativas, a incapacidade de gerar consensos, a intransigência de pequenos e grandes partidos em reconhecer que a verdade não está apenas do lado do mais forte ou do mais bem-falante, mas é uma busca contínua e preocupada pelo bem comum.

O velho ditado popular: casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, leva o povo a aferir o comportamento das autoridades eleitas para o exercício do poder cujo fundamento primeiro é o povo.

Neste ano de quase todas as eleições, ano de sobressaltos económicos, financeiros e sociais, importa que os representantes eleitos em Portugal ou no Parlamento Europeu, assumam os limites do entendimento, da aproximação de ideias e de projectos, do serviço ao bem-comum.

O pior que poderá acontecer ao eleitor indiferente é ver um seu representante, subjugado aos interesses pessoais ou de grupo, a corporações e a ideologias obsoletas.

Um importante trabalho pedagógico tem de ser desenvolvido junto dos eleitores para os cativar para a participação democrática que vai muito para além do voto.

Só quando os cidadãos se sentirem parte essencial e imprescindível do exercício do poder é que a Democracia será, de verdade, Poder do Povo.

Enjeitar este direito é delegar a autoridade numa autocracia que destrói a cidadania e o bem-comum.

José Gabriel Ávila

jornalista C.P.536

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

A economia do meio-ambiente

(crónica lida na Rádio Cais, em 4Maio09)

A ilha das Flores, foi considerada, pela UNESCO, reserva da biosfera.

Esta decisão vem associar-se a idêntica classificação tomada em Setembro de 2007 sobre as Ilhas do Corvo e da Graciosa.

Reconhecendo a qualidade dos ecossistemas terrestres destas três ilhas, onde se inclui os aspectos paisagísticos, geológicos, ambientais e culturais relevantes, assim como as áreas marinhas vizinhas e a conciliação entre estes e o seu uso sustentável, a UNESCO certifica não só a qualidade ambiental como “consagra a boa relação dos seus habitantes com o mundo natural», considerou o Director Regional do Ambiente.

É claro que esta distinção atribuída apenas a 553 reservas da biosfera em todo o mundo, distribuídas por 107 países, constitui uma responsabilidade acrescida para as entidades públicas e para o cidadão comum.

E se a estas distinções juntarmos as classificações de Património Mundial a Angra do Heroísmo e à paisagem da vinha da Ilha do Pico, temos de admitir que o arquipélago constitui um valiosíssimo património da humanidade.

Importa que os açorianos cuidem dessa riqueza e, com o seu espírito criativo e empreendedor encontrem mais-valias económicas que lhes permitam uma vida digna e saudável.

São evidentes as nossas riquezas ambientais e, nos últimos tempos, muito se conseguiu no reconhecimento do que, há muito nos parecia ter grande valor. Agora, um grande caminho temos de percorrer na educação ambiental.

Há muitos anos as grandes superfícies comerciais distribuem sacos plásticos – verdes, azuis e amarelos. Os consumidores, porém, só há pouco encontraram na via pública ecopontos para depositar, separadamente, os resíduos.

Das entidades municipais não receberam adequada informação que os levasse a mudar de atitude e a retirar da recolha diária de lixo, detritos que não devem ir parar aos aterros sanitários.

Muitos cidadãos, ainda juntam tudo no mesmo saco. Pois se os Municípios distribuíram, casa a casa, contentores de lixo de apreciável dimensão!...

Há meia dúzia de anos, solicitei à Câmara de Ponta Delgada onde resido, a colocação de um ecoponto na minha zona, sugerindo também que se informasse e educasse as pessoas, através de alguém qualificado ou se distribuísse documentação adequada.

Para meu espanto, colocaram os três grandes contentores mesmo junto à entrada da minha casa, alegando ter sido eu a pedi-los e como se para mim fossem, mas nenhuma informação foi distribuída pelos utentes.

O nova economia, vai basear-se na preservação do ambiente.

Até agora, estávamos habituados, ao usa e deita fora, em qualquer lugar. Até os prazos de validade proporcionavam o consumo desenfreado e supérfluo, e as avarias ocorriam ao fim de dois anos previstos por lei.

Os tempos de crise, vão alterar os nossos hábitos. A começar pelo tratamento de todos os lixos, desde os domésticos aos mais pesados e poluentes.

As autarquias neste domínio têm um papel muito importante. Não basta haver contentores verdes para os resíduos domésticos. É preciso educar a separar para reciclar. Se os utentes continuarem a perceber que este trabalho não é feito, as nossas ilhas passarão a ser cemitérios de amontoados de lixo.

Proliferam as doenças e estragamos a natureza, esse riquíssimo património que recebemos dos nossos antepassados e devemos transmiti-lo aos vindouros, puro e saudável.

Daqui não há que fugir: Ou crescemos e nos desenvolvemos preservando o ambiente natural, ou não teremos nem presente nem futuro.

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

O ambiente e o desenvolvimento sustentável

A troco de muitos milhões que, entretanto, se esvaíram na voracidade do apetite consumista, a União Europeia conseguiu dar cabo de produções locais com apreciáveis mais-valias, e entrámos no mercado fortemente concorrencial dos produtos lácteos de baixo preço e de linha branca.

A UNESCO associou à sua lista de reservas da Biosfera a ilha das Flores. Juntamente com as Ilhas Graciosa e Corvo, classificadas em 2007, e com as paisagens da vinha da Ilha do Pico e de Angra do Heroísmo integradas na lista de Património Mundial da Humanidade, os Açores passam a ter um relevo internacional assinalável nos domínios da protecção do património construído e da qualidade dos ecossistemas.

A distinção, atribuída apenas a 553 reservas da biosfera em todo o mundo distribuídas por 107 países, constitui uma responsabilidade acrescida para as entidades públicas e para o cidadão comum.

Há que dar maior atenção aos aspectos paisagísticos, geológicos, ambientais e culturais, e às áreas marinhas vizinhas e, ao mesmo tempo, apostar neles para o desenvolvimento sustentável das pessoas.

As classificações da UNESCO abrem janelas de oportunidades ao turismo, de que os Açores nunca desfrutaram.

Estamos perante um novo paradigma de desenvolvimento, centrado nas virtualidades ambientais.

Há dias, Edgard Morin um dos maiores pensadores do nosso tempo, defendeu a redução do desenvolvimento industrial e o retorno às pequenas empresas, às quintas e à agricultura biológica.

A mudança “não se pode fazer imediatamente porque as mentes e as instituições não estão preparadas”, reconhece o sociólogo francês que propõe um desenvolvimento das ciências da terra, da ecologia e da cosmologia para fazer face à nova mentalidade.

A crise da agricultura

Nos últimos tempos, representantes da lavoura e organizações políticas têm contestado o fim das quotas leiteiras, que há uns anos, veementemente, contestavam. Não percebi ainda os interesses em jogo.

Tenho, no entanto, a convicção de que a agricultura açoriana, produtora de 30% do leite nacional e a indústria de lacticínios, fabricante de queijos tipo-bola, semelhantes aos produzidos no continente, terão os dias contados.

A troco de subsídios para quase tudo, embarcámos na produção desmedida de leite. Os fundos comunitários permitiram a construção de novas unidades industriais, mas não se salvaguardou,- até se proibiu! - as pequenas fabriquetas de queijo típico insular. Resultado: o tradicional queijo do Corvo, o tão afamado queijo do Pico curado em barricas de milho desapareceram e o próprio queijo de São Jorge, perdeu o sabor de outros tempos.

A troco de muitos milhões que, entretanto, se esvaíram na voracidade do apetite consumista, a União Europeia conseguiu dar cabo de produções locais com apreciáveis mais-valias, e entrámos no mercado fortemente concorrencial dos produtos lácteos de baixo preço e de linha branca.

O erro deve ser imputado às instâncias europeias, que só protegeu os grandes grupos e destruiu os nossos produtos locais muito apreciados.

Não admira que, neste tempo de crise e excesso de produção, o preço do leite e do queijo tenham desvalore e os agricultores vejam a vida andar para trás.

A melhor solução

Há, no entanto, uma saída de sucesso para a crise - a única para pequenas economias como a nossa: a agricultura biológica e a produção de queijos típicos, pelos processos tradicionais.

Voltar às quintas, como defende Morin, é valorizar a terra e a qualidade do meio-ambiente. Os produtos germinam numa economia sustentável assente no bem estar das pessoas e na protecção da natureza.

Importa pois, que demos importância a estes valores que a sociedade de consumo, na ânsia desmesurada de querer ter sempre mais, desvalorizou.

Este é o novo paradigma económico. Com ele também se atingirá novos mas diferentes patamares de progresso.

José Gabriel Ávila
jornalista


Sábado, 23 de Maio de 2009

Na rota da modernidade

A Atlanticoline anunciou a vinda do segundo ferry para efectuar, com o Express Santorini, as viagens de Verão inter-ilhas.

Trata-se de um navio tipo catamarã, com cerca de 100 metros de comprimento, com capacidade para cerca de 140 viaturas e 720 passageiros.

A sua melhor “performance”, para além de ter sido construído em 1997, é ter uma velocidade cruzeiro de 35 nós por hora. Uma autentica revolução nas ligações marítimas de passageiros, só comparável à velocidade dos Expressos que, em boa hora, José Almeida adquiriu para as viagens entre São Jorge, Pico e Faial, e entre estas e a Terceira. Na altura, o empresário jorgense, foi criticado por afrontar o serviço dos barcos da Transmaçor, sucedâneos das lanchas da Empresa de Lanchas do Pico. Houve mesmo quem pusesse em causa a boa navegabilidade e segurança dos catamarans que, nos primeiros anos, disputavam no triângulo o tráfego de passageiros.

A história da construção naval açoriana, está por fazer. Todavia, não a podemos separar da arquitectura e indústria naval do tempo, e dos contributos dos emigrantes e marinheiros que fizeram as suas vidas nos Estados Unidos.

As semelhanças das três lanchas do Pico – Calheta, Velas e Espalamaca -que apodrecem junto à rampa do porto da Madalena – e dos iates Santo Amaro, Espírito Santo e Terra Alta, trazem-nos à memória muitas características que só os construtores navais picoenses saberiam explicar. Infelizmente, todos eles desapareceram e já pouco resta da sua capacidade e engenho para fazer face ao mar, por vezes, ruim do atlântico norte e às necessidades que do tráfego.

O tempo dos navios da InsulanaCedros, Arnel e Ponta Delgada, para já não falar do Lima e do Carvalho Araújo que deram lugar ao Funchal e ao Angra do Heroísmo, continuam na memória dos mais velhos mas por razões saudosistas.

No mundo da construção naval e do transporte marítimo de passageiros, muita coisa mudou.

Já não se duvida das virtualidades dos catamarãs que sulcam os oceanos com maior ou menor arqueação bruta.

A velocidade e a comodidade constituem um benefício para a indispensável mobilidade. Mesmo assim, quanto mais circularmos, mais vontade temos de permanecer na ilha onde nascemos ou vivemos.

O segundo navio – Viking- vai provar a quantos duvidavam de que é possível andar depressa e em segurança, que os transportes marítimos de passageiros que temos, estão obsoletos e necessitam de urgente reforma.

Essa mudança não passará, porém, pelos modelos do famigerado Atlântida nem do segundo navio que o governo pretendia construir.

Há modelos melhores e mais modernos, rápidos e funcionais, já testados noutros mares muito semelhantes aos nossos.

Tem de mudar o paradigma dos transportes marítimos nos Açores.

Outros povos já o fizeram com vantagem e dentro de dias testaremos esses benefícios com o novo barco.

É tempo de, como ilhéus, termos um transporte marítimo à altura do nosso tempo, pois já ninguém ousaria voltar aos duros bancos de madeira do Terra Alta, ou da Espalamaca, por mais que a saudade evoque esses tempos de felicidade juvenil.

Houve decisões no sector dos transportes marítimos de passageiros que não foram as mais correctas, mas estamos a tempo de mudar de rumo e de seguirmos a rota da modernidade.

José Gabriel Ávila

jornalista C.P.536



Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Uma boa notícia

A Atlanticoline anunciou ontem a vinda do segundo ferry que irá fazer, com o Express Santorini, as viagens de Verão inter-ilhas.

Trata-se de um navio com cerca de 100 metros de comprimento, com capacidade para cerca de 140 viaturas e 720 passageiros.

A sua melhor “performance”, para além de ter sido construído em 1997, é ter uma velocidade cruzeiro de 35 nós por hora. Uma autentica revolução nas ligações marítimas, só comparável à velocidade dos expressos que, em boa hora, José Almeida adquiriu para as viagens entre São Jorge, Pico e Faial e entre estas e a Terceira.

Na altura, o empresário jorgense, que já considerei ser o maior empresário do triângulo, foi criticado por os catamarans não se adaptarem aos nossos mares. Houve até quem acusou José Almeida de estar a afrontar os barcos da Transmaçor, sucedâneos das lanchas da Empresa de Lanchas do Pico que durante anos e anos, serviram as populações do Pico e do Faial.

A história da construção naval açoriana, está por fazer. Todavia, não a podemos separar da arquitectura naval do tempo, nem dos contributos trazidos por emigrantes e marinheiros que fizeram as suas vidas nos Estados Unidos.

A semelhança das três lanchas do Pico – Calheta, Velas e Espalamaca -que apodrecem nas imediações do porto da Madalena, ou as imagens do Santo Amaro, Espírito Santo e do Terra Alta, trazem-nos à memória muitas parecenças que só os seus construtores poderiam explicar. Infelizmente, todos eles desapareceram e pouco resta da sua capacidade e engenho para fazer face ao mar por vezes ruim do atlântico norte e às necessidades que o tráfego exigiam.

Passados tantos anos, desde que o Terra Alta se afundou em São Jorge, ou que a esbelta e nervosa Espalamaca deu lugar aos Cruzeiros, muita coisa mudou.

A engenharia naval conheceu tais desenvolvimentos que já ninguém duvida das virtualidades dos catamarans que sulcam os oceanos com maior ou menor arqueação bruta.

A experiência recente ensinou-nos que é possível e desejável, viajar mais rapidamente inter-ilhas. A velocidade constitui por isso um benefício para a necessária mobilidade. Quanto mais circularmos, mais permaneceremos na ilha onde nascemos ou gostamos de viver.

O segundo navio – o Viking- vai provar a quantos duvidavam de que é possível andar depressa e em segurança, que os transportes marítimos de passageiros que temos, estão obsoletos e necessitam de urgente reforma.

Essa reforma não passa pelos modelos do famigerado Atlântida e do segundo navio que o governo pretendia construir.

Há melhores exemplos, modelos mais modernos, rápidos e funcionais, testados noutros mares muito semelhantes aos nossos.

Depois de se viajar confortavelmente no Ilha Azul, no Santorini ou no Lady of Man, já ninguém ousaria voltar aos duros bancos de madeira do Terra Alta, ou da Espalamaca. Por muito que a saudade evoque esses tempos de felicidade juvenil.

Tem de mudar o paradigma dos transportes marítimos nos Açores.

Outros povos já o fizeram com vantagem e dentro de dias testaremos esses benefícios com o novo barco.

Já é tempo de como ilhéus, termos um transporte marítimo à altura do nosso tempo.

E se as decisões para que tal acontecesse não foram as mais correctas, ainda estamos a tempo de mudar de rumo e de seguirmos a rota da modernidade.


(crónica lida na Rádio Cais)

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Qual a resposta da Igreja à crise?

Dois acontecimentos de grande alcance religioso e social ocorrem esta semana: a grande peregrinação do 13 de Maio e as Festas em honra de Santo Cristo. Em ambas a grave crise económica mundial se manifestou pela ausência de peregrinos em Fátima e de emigrantes em São Miguel.

Na sua homilia, o Presidente da Caritas Internacional não analisou a situação social que o mundo vive. Pelas funções que ocupa, esperava dele uma reflexão profunda baseada no Magistério da Igreja que, também nas questões sociais, tem um grande património doutrinário. De tal importância que João XXIII, a sua primeira encíclica de âmbito social, intitulou de“Mãe e Mestra”.

O Cardeal Andrés Rodriguez, no entanto, aos jornalistas que o questionaram antes sobre a crise mundial respondeu, sem rodeios: “A ganância tem limites. Quando reconhecermos isto é que começamos a dar solução às crises. E a solução cristã chama-se solidariedade”.

Não podia ser mais contundente o representante do Papa na Peregrinação Internacional, na linha seguida pelo próprio Magistério.

João Paulo II, na encíclica Laborem Exercens , sobre o trabalho humano, afirmou: A Igreja acha-se vivamente comprometida na causa do trabalho, porque a considera como sua missão, seu serviço e prova da sua fidelidade a Cristo, para ser verdadeiramente a “Igreja dos pobres”(...)que aparecem em muitos casos, como resultado da violação da dignidade do trabalho humano:(...)especialmente o direito ao justo salário e à segurança do trabalhador e da sua família.”(n.8).

É muito vasta a Doutrina Social da Igreja e, segundo alguns teólogos, as suas raízes remontam ao Antigo e Novo Testamentos.

No último século, o desenvolvimento da humanidade, em paralelo com os grandes conflitos mundiais e regionais, colocaram novas questões sobre as quais o Magistério eclesiástico, embora com o prudente e costumado atraso, não deixou de pronunciar-se.

Em 1971, o Sínodo dos Bispos, animado pela doutrina conciliar, reclamava “o direito e mesmo o dever de a Igreja proclamar a justiça no campo social, nacional e internacional, bem como de denunciar as situações de injustiça, sempre que os direitos fundamentais do homem e a sua salvação o exijam (JM 36).

Este é, pois, um tempo propício para que, oportuna e convictamente, a Igreja Católica, através do Papa, Bispos, clero e fiéis, denuncie que “o progresso económico não pode ser abandonado ao arbítrio de poucas pessoas, ou de grupos economicamente muito poderosos.”(G.S.65) Além disso, apela o mesmo documento emanado do Concílio do Vaticano II “deve suprimir-se, o mais depressa possível, as acentuadas diferenças económico-sociais que hoje existem e crescem com frequência ligadas à discriminação individual e social(GS 66)”. “Deus destinou a terra para uso de todos os homens e povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com equidade, sob as regras da justiça, inseparável da caridade.(...)Por esta razão, o homem que possui legitimamente os bens materiais, não os deve ter só como dele próprio, mas como comuns aos outros(G.S.69).

E, dentro da lógica evangélica da repartição comum dos bens, os Bispos do mundo inteiro foram ao extremo, citando S. Tomás de Aquino: “Aquele que se encontra em necessidade extrema tem o direito de procurar o necessário para si, junto das riquezas dos outros.”

A gravidade do tempo em que vivemos, obriga a que a Igreja, nomeadamente o clero, tenham uma atitude de estudo e de reflexão e denunciem profeticamente, as injustiças perante a sociedade e os poderes político e económico.

Infelizmente, isso não se ouve nas homilias as quais, habitualmente, abordam temas apologéticos e escatológicos e não apresentam uma visão cristã do homem e do mundo.

A hierarquia não deve enterrar a cabeça na areia ou desviar as atenções para temas laterais e pietistas e muito menos subjugar-se aos poderosos deste mundo.

Milhares de trabalhadores e suas famílias, fiéis e devotos do Santo Cristo, temem o desemprego, o lay-off, e o encerramento de micro-empresas e sentem-se impotentes face a muitos patrões com uma mentalidade meramente interesseira.

Perante as dificuldades de muitos homens e mulheres, dar esmola, é um gesto que pode aquietar consciências mas não promove a justiça, nem gera solidariedade. Mantém tudo como está.

E o que precisamos é de alicerçar na paz e na solidariedade a nova economia em benefício do homem todo e de todos os homens.

José Gabriel Ávila

jornalista C.P. 536


Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

A Festa começou! Viva a Festa!


Sexta-feira à noite, passou a ser também uma noite de festa.
Milhares de pessoas desceram à cidade, que em dias normais está vazia, para confraternizarem e celebrarem a sua devoção.
No coreto há música à estante, concertos na Praça e os acordes perdem-se no meio das conversas e na noite clara de milhares e milhares de luzes que focam a crise e ofuscam tantos bolsos vazios que os rostos sorridentes encobrem.

Até os balões não voam da mão do vendedor ambulante que anda de um lado para o outro tentando, sem sucesso, convencer a pequenada com o sonho de voar, voar e voar sempre até adormecer.

Esta Festa, por vezes parece um circo - o circo da vida onde todos nós, ao menos uma vez, somos actores! Grandes actores!

Procissões ou paradas?

Não é possível, esta semana, contornar a celebração das Festas dos Senhor Santo Cristo em Ponta Delgada.

Esta invocação, tem imagens em todas as Ilhas: umas semelhantes à de Ponta Delgada – imagem de meio busto do Senhor de mãos atadas e coroado de espinhos – outras, de corpo inteiro, semelhantes à imagem do Bom Jesus de São Mateus ou da Calheta e, outras ainda, com a mesma invocação mas com Jesus crucificado, como em Santa Cruz das Ribeiras.

Estas esculturas revelam uma teologia pastoral muito antiga, cimentada nos passos da Via Sacra. São processos para tocar a sensibilidade, a consciência e o coração dos crentes e desse modo provocar a sua conversão.

E, embora se diga, com verdade que a Paixão é passagem para o grande Milagre da Ressurreição, base de toda a fé cristã, o que acontece é que a arte religiosa ainda não o assumiu, plenamente.

De qualquer modo, as festas da paixão, da ressurreição, do natal ou do Espírito Santo, constituem marcos significativos nos momentos celebrativos do povo crente e não há terra que os não tenha, com maior ou menor relevo.

Em Ponta Delgada, a dimensão populacional da Ilha de São Miguel, transformou, naturalmente, as festas do Senhor Santo Cristo nas maiores festas religiosas dos Açores.

Alguns, com um certo domínio político e social, pretendem transformar estas festividades num produto comercial e propagandístico. Mas com isso, só acirram bairrismos bacocos e arrasam os valores mais genuínos da festa: a celebração e afirmação pública da fé, a alegria dos encontros, a confraternização e catolicidade.

Como em todas as festas religiosas, os valores cristãos e humanos devem sobrepor-se aos interesses particulares ou de grupo e devem ter em consideração, antes de mais, os valores evangélicos e fraternos, símbolos de verdadeiras comunidades actuantes.

O melhor exemplo do que pretendo dizer são as Festas do Espírito Santo.

A partilha de bens, a ajuda-fraterna corporizadas nas irmandades, revelam os mais genuínos valores cristãos. Os únicos lugares de distinção são dos mordomos e família.

Irmãos e convidados não tem precedências, nem protocolos nos lugares à mesa.

Nas últimas décadas, a Igreja católica, através de comissões organizadoras de festas religiosas, deixaram-se influenciar pela importância dos poderes instituídos, nomeadamente políticos.

Estes, habitualmente, não participam em actos de culto, mas nessas cerimónias mais solenes, não enjeitam lugares de destaque para pavonearem as suas pessoas e o seu poder.

Na longa procissão de Santo Cristo, há uma visível divisão entre os fiéis devotos que participam, convicta e humildemente na procissão, em sinal de penitência e oração e a parte profana da procissão, autêntica parada encabeçada pelas autoridades civis, instituições sociais e recreativas e até juvenis, muitos das quais não transparecem nem devoção nem fé.

É contra este espectáculo, em tudo semelhante às paradas americanas, que protesto.

Embora a Igreja exista para congregar e não para excluir, ser sal da terra e luz do mundo, qualquer mistura com os poderes do mundo, afecta, inevitavelmente, a liberdade da missão e o dever de anunciar o Evangelho e de denunciar os males do mundo.

A César o que é de César e a Deus o que é de Deus!


(crónica lida aos microfones da Rádio Cais, em 14 de maio de 2009)

Sábado, 9 de Maio de 2009

O tempo já não é o que era

O bom ou mau tempo constituem, inúmeras vezes, o grande tema de conversa de quem não tem que dizer.
O tempo já não é o que era...” ou “está tudo mudado...” são expressões que se tornaram banais e repetitivas. Significam, porém, que a natureza já não se comporta como há 30 ou 40 anos!

Os mais velhos fruto do conhecimento empírico, fazem notar as diferenças de temperatura, a diminuição da chuva, a dureza das tempestades, Os mais instruídos respondem que não é bem assim e alegam as suas razões.

Acontece, porém, que são os próprios cientistas, as organizações internacionais

e os países que nos alertam, continuamente, para as consequências da emissão de gases do efeito estufa e para o aumento da camada de ozono.

E nós que vivemos neste arquipélago, cujas singularidades estão a ser redescobertas por revistas de grande tiragem mundial, temos também as nossas fragilidades. O litoral das nossas ilhas sofre constantes efeitos de erosão: nas zonas baixas - as chamadas fajãs -, o mar, de quando em vez, entra feroz por terra dentro, engole pedaços de rocha e destrói obra feita em portos e quebra-mares.

Sempre assim foi e nada pode conter a força da natureza– dirão uns. Mas quem não se lembra de velhos moinhos destronados, de pesqueiros na costa desaparecidos, de quintais engolidos pela fúria das ondas...

A continuarmos a pouco ou nada fazer para impedir o aquecimento da terra, seremos, nos próximos cem anos, inundados pela subida das águas do mar em cerca de um metro.

Mas não só o mar. A subida da temperatura, a falta de água, a seca, a poluição serão problemas ainda mais graves, se não agirmos bem e depressa.

De há uns anos para cá, alguns profetas vêm denunciando as consequências das alterações climáticas, mas fechamos-lhe os ouvidos.

Em Quioto, foi assinado, há 10 anos, um protocolo impondo regras para a diminuição do consumo dos combustíveis fósseis e calendarizadas normas para substitui-los por energias renováveis e limpas.

Este é um tempo óptimo para se proceder à substituição dos recursos energéticos. A crise atinge de uma forma devastadora o tecido económico. A indústria pesada, nomeadamente a indústria automóvel, baixou drasticamente a produção e passa por uma profunda transformação. Novos protótipos, mais amigos do ambiente, surgem movidos por motores alternativos ao petróleo que tanto comanda o mundo.

Este compasso de espera, vai permitir alterações profundas na produção energética.

Nos Açores, o mar, o vento, a água, o sol, deverão ser mais e melhor aproveitados como acontece com a geotermia responsável por cerca de 40% da produção de energia em São Miguel. Os investimentos nesta fonte energética vão continuar em São Miguel e Terceira e espero que também noutras ilhas. Na energia eólica, tem de aumentar-se a potência instalada. Do sol pode originar a energia fotovoltaica e os painéis solares contribuem para aquecimento de água. Das ondas, o mar gera energia por isso a experiência da central piloto do Cachorro na Ilha do Pico, deveria ser retomada. Até as nossas lagoas podem alimentar mini-hídricas, como já sucede em São Miguel, Terceira e Flores.

Os recursos energéticos tradicionais têm de mudar para as energias limpas. Doa a quem doer, mexendo mesmo com interesses comerciais instalados.

Perante o cenário de catástrofe iminente, a educação ambiental é tão relevante como a educação para a cidadania.

Apagar uma lâmpada, fechar uma torneira, andar a pé, são comportamentos cívicos tão importantes como ir às urnas em dia de eleições.

José Gabriel Ávila

jornalista C.P. 536

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Maio e o nascer de uma nova economia

O primeiro de Maio celebra-se, este ano, numa profunda e grave crise económica e financeira. O Banco Mundial e o FMI consideram que ela se transformou “numa catástrofe humana e num desastre, no plano do desenvolvimento”, nos países mais pobres, e que 50 milhões de pessoas, sobretudo mulheres e crianças, já baixaram à situação de pobreza.

O cenário é negro e mostra à geração actual, situações semelhantes aos tempos calamitosos que a humanidade, ciclicamente, já viveu.

Vivemos sob o espectro do desemprego maciço e generalizado e ninguém tem o seu trabalho garantido. A precariedade condiciona as relações laborais. Ninguém está seguro. Nada é definitivo, tudo é incerto e o que hoje é verdade amanhã deixa de o ser.

A crise mundial começou já há algum tempo nos países ricos e atinge, também, as nações pobres. Os seus efeitos são tão ou mais dramáticos que as grandes guerras e catástrofes mundiais.

Os paradigmas da teoria económica vigente foram seriamente afectados por práticas criminosas e imorais que, há vários anos, se percebiam pelo escandaloso e rápido aumento de fortunas pessoais fruto de negócios ilícitos e lavagens de dinheiro do tráfico de estupefacientes e de armamento. Foi ferido de morte o neoliberalismo, bem como as suas tão propaladas virtudes e valores, consagrados em códigos comerciais e legislativos.

No caso português, o crescente número de falências e de despedimentos, mesmo em empresas consideradas saudáveis e de grande valor estratégico leva-me a concluir que o novo e contestado código laboral, favorece, presentemente, o despedimento, o lay-off, o encerramento das empresas e não protege, devidamente, o direito a um digno e permanente trabalho.

Já quase não se fala de greves. Os contratos de trabalho são quase todos precários, o período experimental uma prática legalizada de despedir quando, como e porque se quer, e os aumentos salariais uma miragem. Os patrões encerram empresas até agora lucrativas e não partilham as dificuldades com os seus trabalhadores que, todavia, lhes deram o melhor da sua criatividade e das suas vidas, aumentando-lhes o património pessoal e empresarial.

Este é o rosto execrável e cruel do capitalismo, modelo económico apresentado como o melhor exemplo de distribuição da riqueza, e respeitador da justiça!...

Perante isto, o Estado mostra-se incapaz de controlar a desregulação económica, laboral e social, porque não tem meios suficientes de fiscalização e a justiça não actua célere e eficazmente.

Até os sindicatos, cuja importância se reclama nestes tempos, sentem-se impotentes face à dimensão da crise laboral!

A nova economia que pretendemos, tem de fundar-se na solidariedade, na partilha justa e equitativa dos bens, e as unidades de produção devem assentar a sua gestão em paradigmas económicos cooperativos. O sucesso deste modelo foi bem evidente nos sectores financeiro, industrial e comercial, mas a ganância e domínio do capitalismo asfixiaram e absorveram esses bons exemplos.

O 1.º de Maio de 2009, deve marcar o começo de uma nova era económica em que a criatividade, o empreendedorismo e a solidariedade abram caminhos ao desenvolvimento e penalizem todos quantos, gananciosamente, se aproveitaram do trabalho e empenho de homens e de mulheres que hoje sofrem os efeitos do desemprego.

Compete aos Governos e aos Estados responder, em conjunto, a esta crise de uma forma célere. Os meios financeiros são escassos para promover novos projectos industriais e económicos, que visem o justo e universal desenvolvimento humano e a protecção da natureza. Se tal não acontecer nos tempos mais próximos, a crise resultará num imparável conflito mundial!

José Gabriel Ávila

Jornalista C.P.536

Sábado, 25 de Abril de 2009

Crónica de um Abril não anunciado

Os três meses da especialidade de atirador, decorriam, normalmente, na Escola de Aplicação Militar de Angola (EAMA), em Nova Lisboa. Dentro em pouco, o pelotão desmembrar-se-ia e os novos aspirantes seriam distribuídos pelas unidades militares. Eu havia escolhido o BC 12, em Carmona-Uíge, onde assentara arraiais quando rumei à Província, devido à incardinação naquela diocese.

Nova Lisboa era uma média-cidade, pacata, em crescimento, construída no planalto central angolano, rota de passagem do sul para o leste e para Luanda. Para além deste trânsito, a cidade animava-se com os estudantes da Faculdade de Agronomia e os recrutas do contingente provincial, dos quartéis do Regimento e da EAMA. Nova Lisboa só se enchia, completamente, durante o fim-de-semana da realização do Circuito Internacional Automóvel.

Quem lá residia, não sentia os efeitos do terrorismo no Norte e Leste angolanos, para o qual nos preparávamos de forma displicente, como se a guerra fosse um episódio de um cenário distante.

Da Unita, os instrutores e os manuais militares, afirmavam ser um movimento controlado e “amigo”, que se confinava a zonas restritas da Lunda e do seu líder, Savimbi, pouco se sabia. Temia-se, sim, a preparação e os ataques dos guerrilheiros do MPLA, que lutavam nas matas do Norte, porque atacavam sem dó nem piedade. Da FNLA sabia-se estar no interior do Zaire, alimentada por Mobutu, cunhado do líder Olden Roberto.

A guerra em Angola, ao contrário do que se fazia crer, não constituía preocupação para os militares do contingente angolano. Eles mantinham uma excelente convivência inter-racial que lhes proporcionava uma visão diferente do conflito que eles não aprovavam nem promoviam. Talvez por isso o regime ditatorial e colonial e as altas chefias militares, entregavam aos soldados do puto (contingentes metropolitanos) as missões de alto risco.

A guerra durava há tempo demais e esta convicção crescia no interior dos quartéis alimentada também pela imprensa de oposição ao regime.

O Comércio do Funchal e o Notícias da Amadora circulavam, às claras, de mão em mão e eram lidos, religiosamente. No meu pelotão esses jornais chegavam ao Luís Todo-Bom e ao Ireneu, enviados não sei por quem. Nos intervalos da instrução, os três discutíamos as notícias e os desenvolvimentos da actualidade política portuguesa.

Portugal e o Futuro, do General Spínola, tinha dado um forte abanão ao regime e à política colonial. No entanto, quem estivesse informado apenas pela Emissora Oficial de Angola ou pela Rádio Ecclesia, pelo diário Província de Angola ou pela imprensa local, não se apercebia de nada, devido à censura.

No nosso quartel, havia quem escutasse na caserna a Rádio Portugal Livre, de Manuel Alegre e o programa radiofónico do MPLA, em quimbundo. Mas isso alimentava apenas sonhos de liberdade e mudança que tardavam a chegar.

Não esperávamos, pois, que a revolução fosse naquele Abril e só o soubemos ao fim da tarde do dia 25.

Os comandos militares, contiveram a informação, fecharam-se em copas, pensando, provavelmente, na hipótese de desestabilização das tropas e dos quartéis. Mas a resposta dos soldados foi mais madura que a dos maduros majores e generais. Arregimentados no sistema das comissões para a contínua e rápida progressão na carreira, vendo os seus projectos e posições ameaçados, fecharam-se nos gabinetes, aguardando ordens do Conselho da Revolução. Por uns dias, ninguém os viu.

Uma semana depois, os instruendos da EAMA foram convocados para um encontro no auditório da Escola com o Major Pesarat Correia, que nos explicaria os propósitos do golpe de Estado. Segundo este militar, o objectivo primeiro dos capitães de Abril fora romper com as dificuldades de progressão da carreira militar, impostas aos milicianos pelos capitães do quadro permanente.

A explicação não agradou aos instruídos cadetes, que logo desencadearam um sururu de protesto, e a sessão terminou.

Ao contrário do que sabíamos, o Major Pezarat, ainda não tinha percebido que a restauração das liberdades, da democracia, da justiça e da auto-determinação das Colónias, eram propósitos de Abril mais importantes que a ridícula reivindicação dos capitães milicianos.

Passados 35 anos, a mentalidade corporativa persiste e os direitos e liberdades individuais e de grupo, continuam a sobrepôr-se ao bem comum.

Por quanto tempo mais o 25 de Abril será um projecto adiado?


José Gabriel Ávila

jornalista C.P. 536

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Nova diocese é falsa questão

A criação de uma nova diocese em São Miguel é um tema recorrente sempre que, na hierarquia eclesiástica, há mudança de responsáveis. Desta feita foi a nomeação do novo Vigário Episcopal de São Miguel.

O tema foi também discutido numa conferência quaresmal, com a presença do Vigário Geral da Diocese. Não sei o que lá se disse mas, conhecendo os intervenientes, presumo que os representantes eclesiásticos terão mantido o status quo, enquanto os leigos defenderam a criação de uma nova Diocese em São Miguel, alegando que a proximidade do Bispo com as comunidades cristãs permitiria um maior dinamismo eclesial, e medidas pastorais mais adequadas à evangelização.

Ao fim e ao cabo, é este o princípio que dita a criação e manutenção de qualquer Diocese. Designada por Igreja particular, a Diocese, segundo o Cân.369 do CDC (Código de Direito Canónico), é a porção do povo de Deus que é confiada ao Bispo para ser apascentada com a cooperação do presbitério, de tal modo que, aderindo ao seu pastor e por este congregada no Espírito Santo, mediante o Evangelho e a Eucaristia, constitua a igreja particular, onde verdadeiramente se encontra e actua a Igreja de Cristo una, santa, católica e apostólica.

A dinâmica pastoral compete, em primeira instância, ao Ordinário do lugar (Bispo). Todavia, sem a cooperação e adesão dos sacerdotes e dos leigos, não se poderá construir comunidades vivas e actuantes. Este segundo aspecto, é fundamental para o bom desempenho das funções de santificar, ensinar e governar, missão que cabe ao Bispo de uma Diocese. Sem isso não se construirá a unidade da Igreja particular.

Perante estes pressupostos, julgo que a criação de uma nova Diocese em São Miguel é um falso problema.

Somos um arquipélago de nove ilhas. Os Açores têm uma população de cerca de 242 habitantes, dos quais 231 mil são católicos. Segundo o anuário católico de 2007, existiam então, 172 paróquias e 134 sacerdotes diocesanos, 9 dos quais trabalhando noutras dioceses. Devido à escassez e idade avançada do clero, só 96 paróquias têm pároco residente e 72 são administradas por sacerdote com uma ou mais paróquias, o que acontece em várias ilhas, nomeadamente em São Miguel.

A falta de sacerdotes é uma lacuna grave que, nos próximos anos, parece ser difícil solucionar, apesar de, no corrente ano lectivo, frequentarem o Seminário Episcopal de Angra 25 alunos.

Daí o empenho do Bispo Diocesano na formação religiosa, na implementação do diaconato e na atribuição de mais tarefas litúrgicas e evangelizadoras aos leigos. Mas essas funções, se próprias dos baptizados e do Povo de Deus, são de difícil concretização. A deficiente formação e actualização do clero muito arreigado a procedimentos pastorais desadequados e ultrapassados, impede os leigos mais conscientes e dinâmicos de agirem em conformidade com os ditames do Concílio Vaticano II e as carências das comunidades cristãs. Por estas razões, e pela alteração dos valores tradicionais e a diminuição da importância do religioso na sociedade civil, muitos católicos afastaram-se da prática religiosa e professam, convictamente, um secularismo individualista contrário à solidariedade evangélica. Tudo isto afecta a Igreja em São Miguel.

Não me parece, porém, que a apatia e inactividade eclesiais resultem da inexistência de um Bispo residente, nesta Ilha. Se assim fosse, a nomeação de um bispo auxiliar para esta parcela diocesana, poderia resolver a situação, ou até um Vigário Episcopal, cargo com funções executivas e que, embora exista há alguns anos, não tem recebido a devida “cooperação do presbitério”.

A criação de mais uma Diocese nos Açores, provocaria a cisão de uma parcela apreciável do arquipélago. Os sacerdotes micaelenses, regressariam, eventualmente, à sua terra, algumas ilhas ficariam sem clero. As novas estruturas diocesanas duplicariam serviços, em tão pequeno território. Sairia penalizada a Diocese de Angra, com a diminuição de sacerdotes, e - mais importante! - a divisão natural destas ilhas acentuar-se-ia, já não apenas no sector económico, mas também no domínio religioso.

Ao longo de quase seis séculos, foi a Diocese de Angra e Ilhas dos Açores, com grande relevo para o Seminário, quem unificou estas ilhas, nos tempos mais adversos ou nos acontecimentos mais relevantes. Isso mesmo referiu João Paulo II quando visitou a Terceira e São Miguel em Maio de 1991.

O dinamismo e as respostas pastorais que alguns católicos micaelenses reivindicam, conseguem-se, sobretudo, levando à prática as convicções cristãs. Esse, sim, é o sinal evangelizador de uma Igreja que se pretende una, santa, católica e apostólica, missionária por essência, e dinâmica por vontade dos homens movidos pelo Espírito.


José Gabriel Ávila

jornalista C.P.536

Sábado, 11 de Abril de 2009

O Valor da Palavra

Sabe sempre bem regressar a casa, à nossa casa primeira, nesta quadra pascal. Já não acontecia há mais de trinta anos.

Eram dias de grandes canseiras, de noites perdidas e, por vezes, de grandes constipações. Durava horas a fio o amassar dos folares, até que saíam do forno de lenha. Num vaivém constante, da boca do forno prenhe de labaredas, ao quintal onde se enfeixava a lenha grossa, as cozinheiras, mesmo com lenços de lã estampados e xailes pela cabeça, não resistiam às mudanças de temperatura. Tudo para que a fornada saísse bem. Donas de casa que se prezassem, orgulhavam-se de ostentar a leveza e aparência da massa aos familiares e amigos.

Os folares, com um ou mais ovos, eram bolos requintados que, tradicionalmente, se encetavam já no sábado de aleluia. Só nesse dia, era permitido jogar ao pião e retomar as brincadeiras que as tradições quaresmais proibiam, mas todos acatavam, sem discussão.

Este foi um tempo que passou. Mas sobre ele construíram-se identidades e valores que marcam as pessoas e as comunidades e constituem padrões comportamentais e sociais de grande valia.

Honrar a palavra dada é um dos valores que a sociedade de então mais respeitava.

Homem ou mulher de palavra era qualidade que melhor identificava as pessoas nos contratos comerciais e no relacionamento familiar e social.

A palavra era como um documento assinado: fazia fé e comprometia as pessoas, mesmo com prejuízo próprio.

Conta-se que um certo agricultor, com prédio arrendado, não conseguiu, em determinado ano, produzir o milho suficiente para pagar a renda. Mas para honrar a sua palavra, foi comprar milho e entregou-o ao senhorio pessoa também séria e honesta. Sabendo que o ano tinha sido mau, o proprietário recusou-se a aceitar a renda e obrigou o agricultor a levar o milho de volta.

O não cumprimento da palavra, era uma desonra por isso tudo se fazia para respeitá-la.

Não havia nem papéis, nem documentos. Confiava-se na palavra, a tal ponto, que homem sério, facilmente, fazia negócios.

Hoje, a sociedade está organizada de outro modo e muitos destes valores já não são padrões de vida. Por imposição do sistema social e económico, que nos regeu durante meio século, assente nos princípios “absolutos” da competitividade, da produtividade em escala, da concorrência, do capital.

A humanidade subjugou-se, para subsistir, a regras que desumanizam, massificam, e individualizam as sociedades. Não geram a solidariedade, o bom relacionamento e a boa vizinhança, a aproximação e confiança entre as pessoas, o perdão e o pedido de desculpas.

Substituiu-se a palavra pelo contrato assinado, o cheque, o dinheiro vivo, o cartão multibanco. Por isso, aumentam as fianças, os medos, a insegurança, os processos judiciais, as condenações, os estabelecimentos prisionais...

A sociedade e a economia só podem reconstruir-se se a confiança, a honra e a palavra voltarem a ser valores humanos principais. Diminuirão os receios, os temores, a desconfianças nas pessoas, nas empresas e nas instituições políticas, religiosas e sociais. De contrário, arrastar-se-á a crise que nos envolve, por tempo interminável.

Oxalá as alegrias e os doces da Páscoa, amenizem a vida e dinamizem os valores que Deus e a sua Palavra, plasmam no coração do homem e de todos os homens.

Quinta-feira Santa, 2009-04-08


Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

A manobra de diversão da TAP

Um representante da TAP reuniu na Ilha do Pico com a Associação Comercial e Industrial. O objectivo foi analisar o tráfego que a transportadora aérea nacional efectua para o aeroporto daquela ilha, desde Abril de 2005, em parceria com a SATA-Internacional.
Muito têm reclamado os picoenses contra a escassez de voos de ou para Lisboa, traduzidos numa única viagem semanal, via Terceira. Os protestos estão escarrapachados nos jornais picoenses e atingem também as entidades regionais, acusadas de terem efectuado avultados investimentos no aeroporto, sem deles tirar-se consequentes benefícios.
O resultado deste descontentamento tem sido escasso pois nem os partidos nem o Governo têm feito a pressão política suficiente para que a TAP aumente o número de toques semanais. Caso não o conseguisse, o Executivo regional, a quem compete a resolução desta justa aspiração, poderia ter “imposto” à SATA, como o fez com o Faial, que aquela empresa regional de capitais públicos, efectuasse um segundo voo para o Pico.
Aos olhos da opinião pública, parece que o poder da TAP condiciona as regras do serviço de transportes aéreos entre Continente e Açores, e a SATA-Internacional, sua aliada comercial, não ousa levantar ondas, ciente da sua pequenez e vulnerabilidade.
A história da transporte aéreo da TAP nos Açores, é um exemplo paradigmático do entendimento que o poder central tem do arquipélago. A imprensa de São Miguel, da Terceira e do Faial e agora também a do Pico, arquivam um elevado historial de protestos e reivindicações, em tudo semelhantes.
O que sucede na luta dos picoenses, é que, só ao fim de quatro anos a TAP diz ir efectuar estudos que justifiquem mais voos para a Ilha Montanha. Mas não deveria tê-los feito já o próprio Governo Regional, pois os picoenses têm de deslocar-se a Lisboa, normalmente, pelo aeroporto da Horta ou até por Ponta Delgada, pagando mais transportes marítimos e terrestres, mais alojamento e mais restauração?!
Se houvesse vontade política teria sido muito fácil solicitar à SATA que o seu pessoal de check-in perguntasse aos passageiros se residem ou não no Pico e se preferiam sair directamente da sua ilha. Sei que esta seria uma decisão corajosa e necessária que iria mexer com interesses instalados.
A conversa da senhora responsável da TAP com os dirigentes da Associação de Comerciantes da Ilha do Pico, não vai trazer resultados nem imediatos nem satisfatórios.Foi uma operação de “charme” tão em voga nas relações comerciais, para calar as forças vivas e a opinião pública picoense.
Se houvesse interesse em resolver o assunto a TAP teria, antes da época alta, analisado o histórico das viagens, efectuado inquéritos aos passageiros e ouvido as entidades locais. Agora, os horários estão publicados e ninguém acredita nas boas intenções daquela transportadora, que, por norma, faz como e quando quer. Ao contrário do argumento até agora usado, já não é a falta de combustíveis na Ilha do Pico que impede a TAP de aumentar o numero de voos. Antes e sobretudo o desinteresse em promover aquele destino, cujas potencialidades cada vez mais entidades estrangeiras valorizam.
Exige-se do Governo Regional uma atitude muito mais actuante e não o silêncio, aparentemente, colaborante que penaliza os picoenses, os quais tendo um aeroporto, sistematicamente, embarcam pela ilha em frente.
José Gabriel Ávila
jornalista, C.P.536

Sábado, 28 de Março de 2009

Hortas sem "novidades"

A actual crise questiona a produção em grande escala. A futura economia, certamente valorizará muito a protecção do ambiente e os valores ecológicos que antes existiam nas nossas ilhas.


1.- Um picaroto que se preze, nado e criado entre currais de vinha, onde um cacho maduro se colhe e se saboreia como uma apetitoso acepipe, quando ausente da Ilha-mãe, trata logo de fazer uma latada com um pé de vinha branca de cheiro, para lhe lembrar a terra cheirosa do Pico.

Em chegando ao mês de Março, é tempo de podas de vinhas. Aqui e no Pico. As videiras começam a rebentar. Há que cortar os ramos velhos, para que a planta ganhe força, a floração seja abundante e a colheita proveitosa.

Por aqui, quase já não existe quem saiba fazer podas. Não admira. Dos antigos e extensos campos da laranja que ainda se reconhece nas imediações da cidade de Ponta Delgada, através dos mirantes onde se vigiava a chegada dos barcos que transportavam a fruta para a Europa, ainda há uns poucos, erguidos no meio das pastagens. Outros, foram caterpilhados e soterrados pelas novas urbanizações, com incaracterísticas torres de cimento, alojando milhares de cidadãos que abandonaram suas antigas e tradicionais casas, onde as novidades os quintais alimentavam famílias.

-Hoje já ninguém trata desses quintais que há por essa Fajã de Cima fora – lamentava-se o meu vizinho Mestre Manuel, enquanto podava a minha latada.

-Antigamente, cuitivei uma terra aqui mais acima. O dono veio ter comigo e disse-me Manel, tu cuitivas aquela terra, tiras as novidades que quisès p'ra ti e eu, quando entender, hei-de apanhar umas coisas p'ra mim. E assim foi durante anos e anos... Foi de lá que alimentei os meus filhos, com favas, feijã, couves...tudo! Dava de tudo aquela abençoada terra... Agora, as terras tã cheias de mato e silvado, nã há ninum que as queira trabalhar, nem sabim, trabalhar, mentes que quisessem. É assim sô Gabriel, p'onde isto vai, nã sei!...

E Mestre Manuel continuou os seus lamentos, do alto do escadote, enquanto cortava e amarrava os galhos da vinha, com espadana do seu quintal...

2.- A monocultura da vaca, destruiu quase tudo: hortas ao pé de casa, terrenos de milho nas ladeiras, até meia encosta, quase toda a ilha ou as ilhas quase todas.

Os animais já não dormem na loja de casa, ao pé da atafona, nem os bois e as vacas, que antes eram conhecidos por lavrada, castanha, malhada, têm nome. Agora os bovinos são números e trazem a identificação no brinco da orelha. Dão leite, ficam, não dão, abate-se ou exporta-se. Já não há animais domésticos, dóceis, como antigamente, nem se os ensina a puxar carros, a moer, a lavrar, a gradear.

Com o excesso de leite e a baixa do preço, temo que muitos lavradores, até agora vivendo dos subsídios que lhes tornaram a vida desafogada, já não queiram cavar a terra, nem plantar uma couve, nem ter outras novidades num canto do quintal.

Estou, porém, convencido que a terra voltará a ser trabalhada de uma forma mais ecológica, sem adubos nem fertilizantes. Como antigamente! Então, a agricultura aproveitava os estrumes dos animais e os domésticos. Produzia-se leite e fazia-se o saboroso queijo do Pico, manteiguento e corado. Por que acabaram com ele e obrigaram as queijeiras a esconder-se de vendê-lo, se produziam o queijo com esmero e limpeza, como cozem o pão de milho e o bolo do forno? Que benefícios sanitários trouxeram as queijarias que produzem um queijo de igual paladar no norte e no sul da Ilha?

Tenho a firme convicção de que fomos longe demais, na produção de leite, de carne e dos sub-produtos lácteos.

A actual crise questiona a produção em grande escala. A futura economia, certamente valorizará muito a protecção do ambiente e os valores ecológicos que antes existiam nas nossas ilhas.

Espero ainda ver hortas e ladeiras com novidades e milho, trabalhadas embora com modernos e práticos equipamentos agrícolas. E também por juntas de bois, para turista ver e pagar a preço compatível com o valor da tradição.

Os mais antigos dizem que fomos depressa demais e que só os cegos é que não viam que, assim, não íamos bem.

Muitas vezes, porém, “só partindo os queixos é que se arrepia caminho”...


3.- No dia em que a Assembleia da República inaugurava, na Sala das Sessões, novos equipamentos informáticos e de bem-estar para os 230 deputados, no montante de 5 milhões de euros, um casal jovem, desempregado, atravessava o Rio Douro, para matar a fome com a sopa dos pobres. Coincidências...

José Gabriel Ávila

jornalista C.P.536


http://escritemdia.blogspot.com


Sábado, 21 de Março de 2009

Na mira do voto

Não se reprogramou os investimentos públicos, e quem governa, age como se não exista crise alguma. Governos e oposições continuam a apoiar reclamações de grupos fortemente subsidiados pelo Estado e pela UE, só na mira dos votos!

1.- Quase todas as manhãs, por volta das oito horas, o Manel, vendedor de peixe, passa pela minha rua, acordando os mais preguiçosos com seus pregões e a buzina da motorizada. Se nos atrasamos mais um pouco, ele, desaparece ao fundo da rua, procurando outros fregueses, que um homem levantar-se ainda de noite para agarrar peixe mais em conta na lota é um sacrifício que não interessa a ninguém. Há dias perguntei-lhe porque não trazia peixe grado.

-Porque ninguém compra. O povo não tem dinheiro e a gente não vende. Nem o chicharro, quando está caro... Hoje está a dois euros e meio, mas se eu o vender mais caro, os fiscais multam a gente... Não há quem nos defenda!... Pagamos IVA, contribuições, gasóleo e o Sr já viu, quanto é que se ganha?!...

2.- Há grupos sociais, estruturados em sindicatos ou associações, que, ainda antes da crise, se impuseram perante os poderes públicos, recorrendo a bem organizadas manifestações. A sua voz faz-se ouvir, assiduamente, nos media e junto do poder político, como se a razão estivesse sempre do seu lado. A sua visão da sociedade e da economia é parcelar, para que possam envolver nos seus propósitos quantos pertencem a esses estratos sociais. Recorrem, por norma, à vitimização e jogam com o poder, na medida dos seus interesses. Não defendem o todo, mas sobrevalorizam a sua parte.

O poder político-partidário envolve-se com esses grupos, escolhendo representantes seus, sem se preocupar se eles têm uma visão global da sociedade e visam o bem comum. Resultado: na história do Parlamento Regional, deputados houve que entraram mudos e saíram calados porque não tinham nem conhecimentos nem preparação adequada ao cargo que exerceram.

Este é um risco que as forças políticas correm, quando a preocupação superior, em tempo de eleições, é angariar o maior número de votos, a qualquer preço, para manter o poder ou conquistar o poder a outrem.

3.- Em ano de eleições europeias, legislativas e autárquicas, de novo, vale tudo: alianças com o partido A e B para derrubar C, candidatos repescados de outros partidos por que foram já eleitos, escolhas ditadas exclusivamente por critérios das cúpulas partidárias...

São os votos a falar mais alto que a qualidade dos protagonistas e dos programas eleitorais! Por isso, não é de esperar grande empenho popular na festa da democracia.

Em fins de mandato, todos se afanam em mostrar obra feita, mesmo que algumas sejam desnecessárias e descabidas. Face à crise económica e social, os dinheiros públicos devem ser orientados para agregados familiares afectados pelo desemprego e dificuldades e para investimentos que proporcionem mais trabalho e crescimento sustentado.

4.- Mas não é isto que observo. Não se reprogramou os investimentos públicos, e quem governa, age como se não exista crise alguma. Governos e oposições continuam a apoiar reclamações de grupos fortemente subsidiados pelo Estado e pela UE, só na mira dos votos!

Os mais indefesos não têm voz, nem sindicato, nem associação de classe e as televisões, rádios e jornais silenciam as suas vidas.

Como escreveu Raúl Brandão: “a vida dos pobres, rude, obscura, dolorosa, é como a vida da terra que calcamos, grande, ignorada, simples e sem gritos”. É uma “torrente de lágrimas” que os donos da sociedade e dos governos não entendem, mas, virá tempo em que serão responsabilizados pelo bem e pelo mal que fizerem.



José Gabriel Ávila

jornalista C.P.

Sábado, 14 de Março de 2009

Crónica sem tema

Não sei que vos direi, nesta crónica semanal, que por ser habitual, corre o risco de ser desinteressante, inócua, e chata. Isso não pretendo pois, quando me convidaram para escrever, pensei que o devia fazer questionando e construindo, numa atitude de cidadania, que a profissão de jornalista me ensinou.

1.- Mas que vos direi hoje, diferente das outras crónicas?

Que já são conhecidos os candidatos do PS às Câmaras Municipais dos Açores, alguns dos quais romperam com o PSD, por cujo partido, foram eleitos e exerceram funções políticas com maior ou menor agrado dos eleitores, pois ninguém consegue agradar a todos?

Como diz o Poeta, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades ... todo o mundo é composto de mudança. Portanto, por que não aceitar quem lute pelo poder ao ponto de renegar a fidelidade ao antigo partido e de apelar ao voto no adversário, que, antes, tão violentamente, se criticara?

Mas será que os eleitores presam a coerência das convicções políticas, ou não ligam aos “enredos” dos vira-casacas, cientes de que só os tolos é que não mudam?

Mas não era disto que eu queria falar.

2.- Então que vos direi hoje nesta crónica?

Que as estradas da Ilha de São Miguel estão a ser calcorreadas, até à Semana Santa, por dezenas de grupos de Romeiros, alguns dos quais vêm da América do Norte para uma caminhada de grande sacrifício, movidos por uma cultura e tradição seculares e por uma religiosidade e espiritualidade que questionam a nossa sociedade descristianizada? Durante uma semana, eles andam por aí, por caminhos e atalhos, de igreja em igreja, à roda da Ilha no sentido dos ponteiros do relógio, indiferentes às intempéries, alheios à crise e à situação mundial em que eles não são tidos nem achados. Todavia, no seu intimo, estão cientes de que os problemas vão senti-los na pele, ou não sejam eles a parte mais fraca e indefesa de uma sociedade cuja economia privilegiou os donos do mundo e desprezou a grande maioria dos cidadãos deste mundo?

Mas será que isto vos interessa, se nem novidade é?

3.- Então vou falar de quê?

Da tragédia, da escola Alemã, onde um antigo aluno de 17 anos matou 11 alunos, três professores e, na fuga, mais três pessoas, sem qualquer motivo aparente, se bem que tivesse pre-anunciado a sua loucura na internet? E um responsável do governo daquele território que considerou o rapaz “um aluno completamente discreto»?

E em Portugal diz-se, à boca cheia, que a educação está doente e fracassaram as reformas do sistema educativo? Fracasso porquê? Porque os professores protestam por não querem ser avaliados, embora digam o contrário, e a maioria dos alunos não estuda o suficiente, mas faz greves e exige mais aos outros do que a si próprios?

E criticamos o massacre da Alemanha, quando uma empresa, numa guerra comercial pelo domínio das telecomunicações, banaliza, despudoradamente, palavras que lesam a dignidade e a integridade, apelando aos consumidores para que se livrem das assassinaturas mensais? E ficamos indiferentes perante estas inofensivas mensagens publicitárias, típicas da linguagem do sistema neoliberal que nos arruinou?

Também não pretendo falar disso.

4.- Hoje não vou falar de nada, embora me apetecesse voltar a referir-me à Universidade e ao significado negativo que revelaram as quatro candidaturas ao Conselho-Geral, órgão de importância relevante na Academia Açoriana.

Quando em Escolas e pequenas Universidades, como a nossa, grupos de docentes se dividem, não se entendem, nem congregam sinergias, transparecendo dissensões graves, por que acusar instituições como a família, os clubes, as filarmónicas, etc. de desentendimentos ou falta de solidariedade?

Não servem as instituições de ensino e cultura para humanizar as relações sociais e reunir os cidadãos em torno de valores e de projectos que visam o bem-comum?

Esta foi uma crónica sem nexo, como a sociedade em que vivemos.


11 de Março de 2009


José Gabriel Ávila

jornalista C.P.536

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

Carta a um amigo nos States

Meu caro Tony:


Recebi a tua carta e folguei em saber que tu e os teus não foram afectados pela crise que atinge muitos emigrantes açorianos nos Estados Unidos e Canadá e que grassa também pela Europa.

1.- A situação começa, por aqui, a complicar-se. Conheces bem estas ilhas e sabes que nos últimos anos, muito se fez: na habitação, por exemplo, construíram-se centenas e centenas de casas, por iniciativa de empreiteiros de construção civil que as venderam ganhando, ao que dizem, muito acima do preço real, pois os bancos queriam era emprestar dinheiro. E houve muita gente que construiu a sua própria habitação, alguns com apoios do governo. Insatisfeitos venderam as casas, ganhando bom dinheiro e melhoraram-se, recorrendo a empréstimos bancários. Nunca se viu tanto prédio à venda, nem nunca houve tantas imobiliárias, sinal de que o negócio dava dinheiro, muito dinheiro.

Agora tudo se complicou com a crise: os bancos, muito dificilmente, concedem crédito à habitação, exigem boas fianças e as casas não se vendem. Há novas urbanizações totalmente paradas, trabalhadores da construção civil despedidos e muitos deles, apesar de terem descontado para a Segurança Social, mas não têm direito a subsídio de desemprego porque patrões desonestos e inconscientes serviram-se do dinheiro deles.

Alguns empresários abriram falência mas não ficaram pobres, pelo contrário! Pobres estão os trabalhadores que esperam e desesperam que os tribunais resolvam esses danos. Meu caro Tony, o pior é que no nosso país a justiça é mais lenta que uma carroça velha, subindo a ladeira do Despe-te-que-suas, no Nordeste.

No meu entender, os governantes aos desempregados, têm de proporcionar subsistência para as suas famílias e também formação profissional, investindo mais na remodelação do degradado parque habitacional de cidades, vilas e aldeias, que construir novos fogos. Há casas que são um perigo e ruas de zonas antigas completamente desabitadas. E, como sabes, a tendência é para a população diminuir. Os nossos governantes que muitas vezes se deslocam à América, deveriam aprender com os bons exemplos de recuperação, visíveis, por exemplo, na cidade de Providence, bem próxima do lugar onde moras.

2.- Em tempos, falámos da nossa Universidade que não frequentaste porque a tua mãe não tinha posses. Por isso embarcaste.

Tony: a Universidade tem muito mérito e o seu papel continua a ser relevante, mas parece-me que o seu corpo docente deveria estar mais empenhado na busca de novos caminhos para o futuro destas ilhas.

É um bom exemplo o Departamento de Oceanografia e Pescas – DOP, da Horta, instituição muito conceituada internacionalmente por instituições académicas e governamentais, devido à qualidade da investigação científica. O mesmo sucede com o Departamento de Ciências Agrárias, na Terceira, que tem realizado estudos nas áreas da engenharia do ambiente, das energias alternativas, do estudo dos solos e sub-solos, do clima – veja-se o projecto inter-regional Climaat, que mostra imagens, on-line, de todas as ilhas, e outras informações relacionadas com o mar e a atmosfera.

Do Polo de Ponta Delgada, com tantos departamentos, se ouve falar muito pouco. O Departamento de Economia e Gestão, por exemplo, que já formou tantos alunos em teorias e modelos económicos que colapsaram, não ouvi uma palavra sobre como sair desta crise, nem os seus docentes se pronunciaram sobre a nova ordem económica e financeira que, inevitavelmente, vem aí. Também não tenho conhecimento, através do site da Universidade que transcreve notícias da imprensa, de estudos e resultados que apelem à criatividade e ao empreendedorismo empresariais. Independentemente da divulgação científica ser publicitada em revistas da especialidade, e noutros areópagos do saber, importa que a comunidade saiba o que se faz e pensa “intra muros”. (A continuada reivindicação de mais financiamentos deveria ser acompanhada, julgo eu, de provas de excelência na investigação e no saber.)

Como estamos no meio do Atlântico, “marginados” entre os velho e novo mundos, creio que A Universidade dos Açores, saberá renovar-se e acertar o passo com outras academias que atingiram patamares mais altos do saber.

3.- Quanto ao mais, Tony, há quem pense que esta crise e as suas feridas se resolvem com uns paninhos quentes, com umas aspirinas e pensos rápidos. Não acredito!

Os governos europeus aguardam os resultados do plano Obama, para ver onde param as modas, pois nenhum economista, mesmo os prémios Nobel, apresentaram ainda uma solução credível. Entretanto, a banca vai-se, silenciosamente, mirrando...

Como diz o velho ditado, “sem dinheiro não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”...

Esta já vai demasiado longa, mas tinha de desabafar estes lamentos com quem também se preocupa com o destino destas ilhas.

Oxalá a Primavera Obama nos traga daí notícias mais animadoras. Seria muito bom para todos!

Saudades nossas e um abraço do

José Gabriel Ávila

Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Os deputados conhecem bem as Ilhas?

1.- O conhecimento das nove ilhas pelos que aqui residem, conheceu um incremento assinalável com a RTP-Açores. Até então, pode, com verdade, dizer-se que o arquipélago eram nove pequenos mundos, isolados política, económica e socialmente.

A ligação às ilhas, só se fazia através dos navios da Insulana e dos iates do Pico e dos Parece. Foi assim, dezenas e dezenas de anos. Isso afectou o desenvolvimento da economia açoriana, sujeita às barreiras alfandegárias que impediram trocas comerciais de bens excedentes das produções agrícola e frutícola. Ainda hoje, passados tantos anos, sente-se os efeitos dessas leis absurdas que serviram apenas, e na perfeição, o desenvolvimento dos três centros urbanos, mas impediram as trocas comerciais entre ilhas próximas que, por não pertencerem ao mesmo distrito, viviam de costas votadas. ( Recorde-se a dificuldade nas vendas entre o Pico, São Jorge e Graciosa ou entre São Miguel e Terceira, e à prática comercial dos agentes e dos sub-agentes.)

Para o conhecimento das Ilhas foi, sem dúvida, importante a existência de quartéis e do serviço militar obrigatório, pois permitiram que os mancebos saíssem da sua ilha para o castelo no Faial, na Terceira e em São Miguel. No mesmo sentido, não se pode esquecer também o papel dos Seminários de Angra, primeiro, e depois de Ponta Delgada e da Praia da Vitória, que proporcionaram outras vivências sociais e culturais a centenas de crianças, adolescentes e jovens de todas as ilhas, e a formação de quadros intermédios. Não se deve ignorar também, na formação da juventude açoriana, os Colégios de Santo António, na Horta, e das Mères em Ponta Delgada, e mais tarde, na década de 60, os Externatos de Ensino Particular em quase todos os concelhos. Sem eles o défice cultural açoriano seria, tremendamente, maior. Por isso, já aqui o afirmei: tarda a homenagem a esses estabelecimentos de ensino e aos docentes que, de alma e coração se disponibilizaram para esse mister.

2.- Apesar da democratização do ensino e da facilidade de mobilidade dos açorianos, temo, que ainda não se conheça, satisfatoriamente, todas e cada uma das ilhas. Refiro-me, sobretudo aos decisores políticos regionais, nomeadamente aos governantes e deputados.

Há dias, um ex-governante quis saber qual a localização de uma determinada freguesia da ilha do Pico. Compreendi o desconhecimento pelo prolongado afastamento do arquipélago. Receio, porém, que esse desconhecimento, afecte muitos dos nossos representantes eleitos.

Ao acompanhar as sessões plenárias parlamentares, facilmente se nota que os deputados, normalmente, abordam a problemática do seu círculo eleitoral mas, raramente, falam de outra/s ilha/s. Os deputados eleitos pela Terceira, pelas Flores ou pela Graciosa são muito ciosos das questões respeitantes à sua terra, mas não abordam situações da Ilha ao lado. Muito menos de São Miguel. O mesmo se passa com os parlamentares micaelenses, que, raramente, abordam o que se passa nos concelhos do Nordeste, da Lagoa, da Ribeira Grande e muito menos questões das Flores ou de São Jorge do Pico ou da Graciosa. Certamente, porque não estão a par das realidades das outras ilhas. Mas isso não é argumento aceitável, porque os deputados são regionais e não da Terceira ou de São Miguel.

Os legisladores têm de conhecer os destinatários e as circunstâncias em que as leis se aplicam, para que elas não sejam letra morta.

3.- Defendo que os deputados regionais devem conhecer, profundamente, o território insular, a vivência e a problemática dos açorianos. Como? Visitando as ilhas, sem pressas, contactando os cidadãos, os órgãos eleitos e as forças vivas. Em contactos despartidarizados e divulgando os poderes e função do Órgão Legislativo que representam e apelando à participação cívica e auscultando as opiniões dos açorianos.

As delegações do Parlamento Açoriano não devem ser nem sedes partidárias nem escritórios de funcionários públicos. Antes, espaços abertos à participação democrática, ao confronto de ideias e de opiniões com o objectivo sério de resolver questões que visam o bem-comum.

É preciso os políticos não esquecerem que o povo é o autêntico detentor do poder e que o delega, temporariamente, nos seus representantes eleitos.

Só participando e reconhecendo a dignidade e importância das instituições autonómicas - Governo e Parlamento - o povo açoriano sentirá que valem a pena as enormes verbas gastas para o seu funcionamento.

Caso contrário, a abstenção transformar-se-á em doença crónica grave e acabará por matar o regime democrático regional.


José Gabriel Ávila

jornalista C.P. 536


Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Já não somos Ilhas Adjacentes

1.- O ciclo da nossa vida não é marcado apenas pelas grandes festas do Natal, do Carnaval, da Páscoa, do Verão, ou pelo tempo de férias. A nossa pequena sociedade vive muito dependente do ciclo escolar. E, agora, é tempo de testes e de avaliações para as notas do segundo período.

Tenho acompanhado, os conteúdos programáticos de algumas disciplinas e noto que, ou eles ignoram as nossas ilhas, ou os compêndios, vagamente, as mencionam. Os livros são feitos para os alunos do continente!

Olhando, por exemplo, para o manual de Geografia, aos alunos pede-se que conheçam e saibam o que se passa nas regiões e localidades do continente, do Minho ao Algarve. Sobre o arquipélago onde vivem, há poucas referências e imagens, e quase nada se pede que conheçam. Porém, tanto que há para estudar nos domínios da geologia, da hidrologia, da biologia, da demografia, da agricultura, etc, etc...

Dos meus tempos da escola primária e do ciclo liceal, em que os compêndios eram únicos, duravam anos e anos e passavam de uns para os outros, parece nada ter mudado. Há meio século, éramos obrigados a decorar as províncias e respectivas capitais; os rios: da nascente à foz; as serras e vales; os caminhos de ferro: estações e apeadeiros do continente e das províncias ultramarinas; castelos, reis e batalhas... Todavia, nada se nos exigia que soubéssemos sobre a ilha em que nascêramos, a não ser que eram ilhas adjacentes. Tão adjacentes que ir ao continente era quase impossível, só de barco e levava-se uma semana para cada lado. Tão adjacentes que a distância entre Ponta Delgada e Lisboa fica a mais de 1.600 quilómetros... Tão adjacentes que a América do Norte e o Brasil foram destinos de emigração mais apetecíveis que a Metrópole portuguesa.

2.- Os alunos açorianos são, naturalmente, obrigados a conhecer e a ler escritores portugueses, mas apenas os continentais, cuja temática versa o universo, a simbologia e a terminologia das beiras, de trás-os-montes, lisboeta ou alentejana, do norte ou do sul. Nunca obras de açorianos, porque Vitorino Nemésio, Martins Garcia, Roberto Mesquita, Dias de Melo ou Daniel de Sá, entre outros, não fazem parte do elenco dos chamados clássicos que as universidades e livrarias destacam.

Desse elenco não constam também açorianos historiadores, nem compositores, nem artistas plásticos...tão bons ou melhores que os demais.

Acaso, em teste ou exame final de português, já saíu um poema de Roberto Mesquita, considerado o maior expoente do simbolismo português? Já alguém viu um texto de Gaspar Frutuoso, autor das Saudades da Terra, ou de Frei Diogo das Chagas, num exame de História?

Não é na diversidade de expressões culturais que se afirma, a unidade nacional?

Já ouvi queixas do sistema de ensino norte-americano, acusando-o de pouco universalista por privilegiar apenas quanto respeite àquele grande estado federal. O mesmo terá acontecido com outros países anglo-saxónicos, hispânicos e francófonos, antigas metrópoles de grandes territórios ultramarinos. Todavia o que sucedeu com as suas ex-colónias africanas e americanas? Libertaram-se do jugo centralista e assumiram o seu passado mais genuíno, a sua cultura e o seu futuro, e agora essas nações caminham em busca de novos rumos e de outros parceiros.

3.- Os Açores, apesar da sua dimensão, devem afirmar a sua história, a sua cultura e idiossincrasia, a nossa mundividência, o querer e a determinação do seu povo, sem receios de julgamentos e condenações de políticos, analistas e críticos da capital, discípulos confessos das liberdades, eivados de preconceitos coloniais e de fundamentalismos patrióticos.

Para afirmarmos e aprofundarmos a identidade açoriana, integrando-a na universalidade da ciência e dos saberes e incutindo-a nas jovens gerações, precisamos que a Escola e a Universidade a integrem nos seus currícula.

De contrário, os nossos valores perder-se-ão, também, pela força da globalização. Correremos ainda o risco de, perante a crescente mentalidade centralista, nos faltarem argumentos culturais para afirmar a importância do poder autonómico regional.

Voltaremos, então, a ser ilhas adjacentes...

José Gabriel Ávila

Jornalista C.P.536


Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Um Carnaval mascarado de abundância

1. Já não é possível ocultar as evidências da crise.

Quem estiver atento e olhar à sua volta, observa a maioria dos outdoors, em branco. Contam-se pelos dedos, os que publicitam produtos comerciais. Estão neste caso: a venda de automóveis, de produtos regionais, tratamento de estética e pouco mais. Na paisagem publicitária, destaca-se a promoção do corso carnavalesco e de espectáculos e na imprensa alguns municípios anunciam, nos seus recintos, folguedos do Carnaval.

Antigamente, e ainda hoje acontece nalgumas ilhas, sociedades e instituições recreativas promovem convívios carnavalescos, nomeadamente: serões dançantes, assaltos e concursos de fantasias, iniciativas tão do agrado das populações.

Nas últimas décadas, as escolas tomaram a iniciativa de celebrar a quadra carnavalesca em cortejos de fantasias pelas ruas de vilas e cidades, num ambiente de alegria contagiante. A festa é organizada com a colaboração dos pais que, de bom grado, suportam as despesas dos trajes – e sabe-se lá com que sacrifício! - para que os seus filhos não se sintam diminuídos perante os demais.

Se é verdade que tristezas não pagam dívidas, o certo é que a pobreza anda por aí e já não se consegue escondê-la. Tem contornos modernos. Há dias, duas empregadas comerciais almoçavam, no interior da sua viatura de trabalho, estacionada no parque de um hipermercado. Estava sol e algum calor, mas os vidros estavam fechados. Mesmo assim, sem receio de serem vistas, alimentavam-se de um pequeno tupperware.

Muitos outros há, porém, que por imperativos sociais, escondem os seus penares. Um casal, meu vizinho, recebe uma pensão mensal de 150 euros de que vive com a mulher. Nem dá para os remédios, confessava o filho, com voz embargada.

Tantos contrastes sociais, por demais evidentes, criados pela sociedade de consumo, na lógica do maldito neo-liberalismo económico.

2. Estamos perante um novo ciclo, cujos contornos não conseguimos ainda descortinar. O certo é que vai haver mudanças profundas e é impossível resistir a essa nova etapa da história da humanidade. Ao contrário do que parece estar subjacente em algumas medidas de política anunciadas, não é possível remendar ou tentar sarar a grande ferida causada pelo sistema económico que vigorou até há pouco.

O que procuram os economistas e governantes e a população há muito reclama, é uma nova ordem económica internacional, fundada na solidariedade, na igualdade e na justiça social.

Para tal, há que alterar o sistema produtivo, modificar as relações laborais, socializar o sistema financeiro, redefinir as funções dos estado e dos poderes públicos, construir, paulatinamente, uma nova terra.

Estas são as grandes questões que atormentam economistas, investigadores e governantes.

Quanto mais tempo durar a crise, mais se esvairão as finanças públicas, mais falências ocorrerão, maior será o desemprego, as convulsões sociais suceder-se-ão, as guerras, a destruição de nações mais pobres... sei lá!

Parece um cenário catastrófico, mas que nos dizem as lições da história?


3. Creio que o Carnaval das danças de salão, vai, obrigatoriamente, focá-lo.

Nos bailes tradicionais do Coliseu e de outras sociedades, os smoking e os vestidos de noite, vão, todavia, disfarçar os efeitos da crise, em perfumes de elegância e em iguarias e bebidas finas dos buffets.

Nas boites e nos recintos nocturnos, os amigos da noite vão silenciar as agruras da vida nos ruidosos e infindáveis hard de rock, no álcool e noutras dependências...

Mais verdadeiras serão as fantasias das crianças. Alheias às dificuldades, elas desfilarão graciosas pelas passerelles da vida, antecipando um futuro mais radioso para todos.

Escondendo a crise na abundância dos convívios de amigos, de amigas, de compadres e de comadres, este é mais um Carnaval do faz-de-conta, ou não fosse o Entrudo tempo de máscaras, danças e fantasias.

José Gabriel Ávila

C.P.536


Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Para que servem os serviços públicos

O jornal Diário dos Açores, publicou há oito dias, uma reportagem sobre a actividade desenvolvida pela única médica veterinária em serviço na Ilha do Pico, na ausência temporária de outra profissional do ramo. Achei interessante que uma jovem licenciada, criada naquela ilha, tenha assumido o seu mistér com tanta dedicação, sinal de que viver no Pico vale a pena quando se luta por fortes convicções de serviço às populações, pelo desenvolvimento colectivo e pelo bem-estar das pessoas, dos animais e da própria riqueza natural. São valores que, para muitos, ultrapassam os proventos mais ou menos elevados que, obviamente, se aufere do trabalho.Como a Dra Catarina Manito, de 27 anos, deverão existir outros mais, noutras ilhas e noutras actividades. Gente que se sente bem, aqui ou ali, porque encontrou uma filosofia de vida que justifica a sua realização pessoal.Neste tempo de crise, importa que relevemos os bons exemplos, porque a experiência e o saber de uns, contribuirão, certamente, para que outros ganhem coragem e tomem em suas mãos o espírito empreendedor que existe em cada um de nós.Importa que as entidades públicas e os organismos privados, numa conjugação de esforços, acalentem os sonhos de tantos jovens, cujas ideias por vezes não vingam, porque lhes falta ajuda na organização de um projecto, no ajuizar os prós e contras e a análise do custo/benefício.

É para isto que servem os organismos públicos: para encorajar e não para desanimar, para ajudar e não para complicar, para abrir portas e não para fechar gabinetes, para simplificar processos e não para aumentar burocracias, para encurtar tempo e não para demorar decisões, para acompanhar e não para abandonar os que pretendem investir.

Nos últimos tempos diversos municípios têm percebido que importa facilitar a vida aos pequenos e novos empresários. São estes os agentes criadores de postos de trabalho; são eles quem influência, decisivamente, a fixação das pessoas, nomeadamente dos jovens, factor primordial de desenvolvimento. Sem inovação, sem risco e sem empresários lúcidos e honestos, não há crescimento económico. Os governos: nacional, regional e local devem, por isso, ser mais, muito mais que empreiteiros de obras públicas. Cumpre-lhes abrir horizontes, com estratégias de desenvolvimento que ultrapassem os limites temporais dos seus mandatos.No caso dos Municípios o que está a acontecer é que se constrói infraestruturas julgadas necessárias e, apesar disso, os concelhos avançam, imparavelmente, para a sua desertificação. Somos cada vez menos e mais idosos.Estas são questões que devem ser ponderadas por eleitos e eleitores num processo continuado de participação cívica e no acto de votar. No combate pelo desenvolvimento, e face à grave crise em que nos encontramos, não há tempo a perder e as melhores soluções não podem tardar.

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

OS JORNALISTAS NÃO SÃO JUIZES DE DIREITO

Nos últimos dias, a actualidade nacional foi inundada por uma série de notícias relacionadas com o processo de autorização do centro comercial Freeport, as quais denotam bem as motivações e a intencionalidade do jornalismo que se faz, presentemente, em Portugal.

Ao longo do regime democrático, a produção de informação (expressão a que sou avesso) foi apontando os seus focos para factos e questões, as mais diversas.

Quando me iniciei na profissão, há mais de 30 anos, os noticiários da rádio e da TV, não davam cobertura aos processos que subiam à barra dos tribunais, por mais graves que fossem, excepto, quando eram indiciadas figuras públicas. Acompanhar um julgamento ou noticiar a sentença de casos graves, era assunto que não constava das agendas das redacções.

A investigação jornalística sobre casos de polícia, partia, normalmente, de jornais privados, o que, de certa forma, não vinculava quem citava essas fontes.

Já então existia o semanário O CRIME, mas esse jornal não era referenciado como bom exemplo de jornalismo, por ser sensacionalista.

De há duas décadas para cá, a situação inverteu-se completamente. Presentemente, a coberto de termos como: alegado/a, presumível autor/a, ou suposto/a, dá-se notícia de alegados factos, não provados, sem que o jornalista seja incriminado. O que acontece, irremediavelmente, é que as salvaguardas jurídicas afectam o nome de pessoas e a sua reputação e honorabilidade que são sempre danificados perante a opinião pública.

Esta é uma questão grave, porque lesiva de direitos, liberdades e garantias, que os profissionais da informação e os responsáveis pelos media, pouco prezam. E quando se trata de um político/governante, parece haver um apetite desenfreado para substituir as investigações policial e judicial e antecipar, rapidamente, juízos condenatórios, muito antes que os tribunais o façam. Veja-se o caso Maddy e outros mais.

O caso Freeport, é o paradigma do que me parece estar a acontecer nos meios de comunicação social – todos eles! Apesar de só alguns investigarem o caso e apresentarem, diariamente, “dados novos” (?), numa lógica de fazer render o peixe e aumentar as tiragens e audiências, todos citam essas notícias, num processo incontrolável de “standartização” informativa que ninguém se atreve a combater.

Impõe-se uma séria reflexão dos media sobre os seus objectivos e motivações e o respeito de princípios como a dignidade humana, o bom nome, a privacidade pessoal e familiar, a imputação de inocência até prova em contrário, pilares da vida em sociedade tão importantes e fundamentais como a liberdade de expressão, de opinião,etc.

Se é certo que os políticos e governantes devem ser bons exemplos para os cidadãos que neles delegaram, temporariamente, o exercício do poder público, também é verdade que, facilmente, se branqueia, ignora ou silencia injustiças, subornos, fuga aos impostos, falsidades e violações de toda a ordem a outras pessoas e instituições sobre as quais não há a mínima informação.

Há, portanto, dois pesos e duas medidas, e critérios divergentes na investigação e informação jornalística. Porquê?


José Gabriel Ávila

jornalista C.P.


Sábado, 24 de Janeiro de 2009

O EXEMPLO AMERICANO

A posse do Presidente Barak H. Obama, pelas circunstâncias que envolvem a situação económica e financeira internacional, constituiu um acontecimento de fundamental importância e de enorme mediatismo.

O primeiro Presidente afro-americano a entrar para a galeria dos 44 inquilinos da Casa Branca, sinalizou um dia inolvidável em que a América mudou. Concretizou-se o sonho de Martin Luther King, na pessoa do primeiro Presidente negro,imigrante que, corajosamente, repetiu: Yes we can.

É o início de uma nova era. A partir de agora, nada será como dantes. O século XXI começou hoje – afirmou alguém.

As expectativas que milhões de homens e mulheres, nomeadamente os povos mais desprotegidos, são tão altas que o novo Presidente negro tem um timing muito alargado para levar a cabo uma tarefa imensa para poder transformar e melhorar a economia americana e, por arrastamento, a economia mundial.

Obama transformou-se a personalidade mais carismática da cena mundial, ao defender os direitos humanos e a aceitação e integração das diferenças culturais e raciais; ao denunciar, abertamente, os erros dos senhores e administradores financeiros; ao anunciar investimentos públicos nas áreas da educação e saúde para proteger o emprego dos mais desfavorecidos; ao lembrar, sem receios, os tempos da segregação racial que provocaram lutas e ressentimentos profundos na sociedade americana que, ainda hoje, gere essa questão com muito cuidado.

Para envolver todos os americanos numa cidadania activa com vista à ultrapassagem da crise, Obama invocou os valores tradicionais de História Americana: a liberdade, o empreendedorismo, o trabalho, a honestidade.

Foi uma bela lição de patriotismo que bem conhecemos, através dos nossos emigrantes que, nos últimos duzentos anos ajudaram a construir aquele grande país e o consideram como sua segunda pátria.

Nada que se compare aos cerimoniais políticos da velha Europa, nomeadamente de Portugal. Destes, o povo é afastado e está ausente porque não se revê nem em muitos dos seus representantes, nem nas medidas de política que respondam às suas aspirações. Ao contrário, é cada vez maior a classe política e dirigente, acolitada por um rebanho de fiéis e serviçais, e aumenta todos os dias o pessimismo e a descrença no futuro de Portugal.

Obama não se preocupou com a quantificação do astronómico défice norte-americano, nem prometeu o abaixamento deste ou daquele indicador económico-social.

Responsabilizou, porém, a sua administração pela boa execução dos dinheiros e programas públicos e comprometeu-se a sarar feridas profundas cavadas pela administração Bush: não se deve olhar um governo pelo número de pessoas, mas pela eficácia da governação. Se um programa não der resultado, acaba-se com ele...

É este pragmatismo político, balizado em conceitos humanistas que poderá marcar o início de uma nova ordem económica internacional.

A América de Obama, com o envolvimento multirracial, vai regenerar-se, rapidamente, e encontrar um novo rumo. Dele beneficiará também a Europa.

A expectativa é muito alta.

Importa que contrariemos o nosso ancestral e doentio pessimismo e digamos como Obama: Yes we Can.

23 de Janeiro de 2009

José Gabriel Ávila

jornalista C.P.536


Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Na posse de Obama -Crónica para Rádio Cais


A minha crónica, hoje, surge na sequência do acontecimento das últimas horas: a tomada de posse do Presidente Obama. No mundo ocidental e julgo que em tantos, tantos outros países, não houve ninguém que ficasse indiferente a este memorável dia.

Na história americana um afro-americano entrar na galeria dos 44 presidentes dos Estados Unidos é um facto inolvidável não só para a história americana como também para a própria história da humanidade.

Até há 60 anos, como foi referido pelo próprio Obama, um negro não podia entrar num restaurante, e na capital federal, essa discriminação foi muito mais feroz porque Washington é uma cidade maioritariamente negra.

Obama marca, portanto o início de uma nova era de esperança e assinala um ciclo decisivo na história da humanidade.

Como alguém disse, o século XXI começou hoje. Por tudo quanto se anseia que Obama dê à administração americana de liberdade, de igualdade de oportunidades, de respeito pelas minorias, de respeito pela natureza e pela preservação do ambiente; espera-se, como diz o Apocalipse, que se construa um novo céu e uma nova terra e que os homens se entendam no diálogo, no respeito pelas culturas, diferenças e religiões, como processo de atingir e consolidar a paz.

Uma dos aspectos que mais me tocou no discurso do novo presidente americano, foi a forma como ele apelou ao envolvimento e participação dos americanos na ultrapassagem da crise e das dificuldades. Evocou os valores antigos da liberdade, da honestidade, do trabalho, mencionando sempre que a América já provou que tem força e coragem para ultrapassar os períodos difíceis.

Uma bela lição de patriotismo que bem conhecemos, sobretudo através dos nossos emigrantes que nos últimos duzentos anos construíram aquele grande país. Aliás, os açorianos hoje, não erro em dizê-lo, devem estar muito satisfeitos porque a sua condição de emigrantes foi reconhecida pelo e no próprio Obama, ele também assumido filho de emigrantes.

Dele, os nossos concidadãos, muitos dos quais, orgulhosamente, naturalizados americanos, esperam que cuide da sua protecção nesse grande país que espera-se, rapidamente saia do pesadelo da guerra e da mentalidade imperialista que a última administração promoveu e que se torne um inter pares no concerto das nações.

Outra reflexão que me advém das palavras e do pensamento do novo presidente dos Estados Unidos, é a concepção política diferente que contrasta com os políticos do velho continente europeu. Recordo do seu discurso a passagem em que ele afirmou: não se deve olhar um governo pelo número de pessoas, mas pela capacidade e eficácia da governação. Se um programa não der resultado, acaba-se com ele...isto para já não falar do facto de ele ter escolhido para secretário do estado da defesa uma personalidade do executivo de Bush. Na Europa, mãe da democracia e em alguns países, como o nosso, isto seria impensável!...

É este pragmatismo político, cimentado em valores muito antigos, é esta capacidade de envolvimento popular que vai regenerar a América e, por consequência, a Europa.

Este é um grande dia para a humanidade, é como uma nova primavera, neste inverno gelado de relações tensas e agressivas, mesmo mortíferas, que têm sacrificado tantas populações indefesas de muitas nações.

Não sou nem sebastianista, nem nem messiânico. Todavia, há acontecimentos e pessoas que marcam a história dos povos. Algumas delas foram mártires por ideais e valores sublimes. Um deles foi Martin Luther King. O seu sonho, realizou-se hoje.

A expectativa é muito alta; mas se todos contrariarmos o nosso ancestral e doentio pessimismo, e dissermos como Obama: Yes I Can, muito rapidamente nascerá uma nova era e um futuro melhor.

É nisto que acredito!


20 de Janeiro de 2009

José Gabriel Ávila


Sábado, 17 de Janeiro de 2009

AÇORES: DESTINO PARA ESTUDANTES EM FÉRIAS

Mais uma Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) vai realizar-se em finais de Fevereiro. O certame, em que participarão instituições açorianas públicas e privadas, constitui uma montra destas ilhas no mercado continental - nosso maior cliente turístico.

Julgo, porém, que ainda não traçámos uma estratégia comercial compatível com as nossas especificidades, reconhecidas por revistas estrangeiras da especialidade. Continuamos a promover os Açores e as suas diversas ilhas, indistintamente, sem valorizar, preferencialmente, os seus aspectos singulares, como sejam: a natureza vulcânica activa patente sobretudo nas Furnas, em ligação com a sua riqueza hidrológica, termal e medicinal; menosprezamos a importantíssima vertente da vida marinha que, se ligada à investigação científica, poderia constituir um nicho de mercado muito específico; apresentamos a natureza das nossas ilhas como lindíssimo postal fotográfico, mas esquecemo-nos da fauna e da flora endémicas que atraem cada vez mais investigadores; e não relevamos, convenientemente as nossas ímpares qualidades ambientais que, dificilmente, se encontram no Ocidente industrializado.

Há nichos de mercado ou segmentos turísticos geradores de imensas potencialidades, a que não estamos a dar a devida atenção.

Os tempos não vão fáceis, sobretudo para uma região insular que ainda há pouco começou a dar os primeiros passos nesta actividade económica, passível, em tempos de crise, de grandes flutuações. Por isso, penso que temos de ser muito mais selectivos no produto que oferecemos e nos visitantes que recebemos.

Vai neste sentido um programa desenvolvido por um operador turístico do Pico, percursor do whale-watching nos Açores, e destinado a grupos de estudantes franceses. Todos os anos, dezenas de adolescentes, residentes na área da Paris, acompanhados de professores e monitores, passam alguns dias no parque de campismo das Lajes do Pico. Ali experienciam, através do mergulho e dos banhos de mar, os seus conhecimentos, explorando e investigando o mundo sub-aquático, observando mamíferos marinhos, conhecendo a natureza e o meio ambiente da Ilha, em passeios a pé, e vivenciando a vida em grupo. É um bom exemplo de um programa que poderia ser oferecido a tantos jovens europeus e norte-americanos que, cada vez mais buscam no exotismo, sensações novas para um viver diferente.

Aproxima-se, a passos largos, mais um período de férias da Páscoa. No meu tempo de estudante em Angra, era frequente os estudantes do Liceu Nacional de Ponta Delgada visitarem a Terceira; os da Ilha de Jesus rumavam a São Miguel.

As deslocações de uma semana, via marítima, (na foto, navio Cedros fundeado na Baía de Angra do Heroísmo-Terceira) eram cuidadosamente preparadas pelas reitorias com visitas guiadas, intercâmbios desportivos e convívios com estudantes locais, de modo a que, da ocupação do tempo, resultassem benefícios para os jovens e se deixasse bom nome da escola visitante. Quantas amizades não se proporcionaram então com esses intercâmbios.

Nova interrupção lectiva se aproxima. Penso que os operadores turísticos, com os responsáveis escolares, devem delinear programas interessantes, nas nossas ilhas, que aliciem os alunos a conhecerem primeiro a sua terra, antes de rumarem às noites estonteantes do sul de Espanha, destino tão em voga. O mesmo deveria ser feito nas Escolas do continente, com agentes de viagens, hotelaria e a SATA-Internacional com tarifas promocionais direccionadas para um mercado juvenil em expansão.

O turismo de qualidade destina-se a segmentos de mercado muito específicos que os Açores satisfazem, plenamente.

Basta que acreditemos e que nos preparemos, conveniente e atempadamente!


José Gabriel Ávila

jornalista C.P.536


Domingo, 11 de Janeiro de 2009

PATRIMÓNIO ESCONDIDO

O meu antigo professor de História da Arte fez-me chegar, há dias, um interessante conjunto de imagens de alfaias litúrgicas, registadas por uma comissão criada para a salvaguarda do Património da Arquidiocese de Évora.

Fiquei admirado com a antiguidade e riqueza de algumas dessas peças, cujo espólio pode ser visitado neste endereço http://diocese-evora.inwebonline.net .

O assunto, há muito, preocupa-me. Através da net, conversei com Artur Goulart de Melo Borges, natural de São Jorge, antigo Director do Museu de Évora e coordenador científico do referido Inventário artístico da Arquidiocese de Évora, sobre a necessidade premente de efectuar-se trabalho idêntico na Diocese dos Açores.

Há uns anos acrescentados foi criada, pelo Bispo de Angra, uma comissão para proceder ao levantamento do acervo religioso, espalhado pelas nove Ilhas mas, segundo me disse um dos membros, pouco ou nada se fez. Porquê? Os responsáveis saberão, certamente, as razões que impedem um trabalho tão importante de salvaguarda de um património que revela a nossa identidade cultural, legada por gerações de fiéis que, de vários modos, expressaram as suas convicções religiosas.

Não é difícil encontrar-se nas arrecadações e sacristias das Igrejas, muitas delas agora sem pároco residente, alfaias religiosas, paramentos e esculturas sacras, abandonadas, desprezadas ou carcomidas pelo tempo.

Há uns anos, descobri, encostada a uma parede húmida e no chão de pedra de uma sacristia, uma grande e bonita lâmpada do Santíssimo, em prata. O peso dos anos e a falta de uma peça, obrigaram a que aquele valiosíssimo objecto( na imagem) fosse ali colocado à espera que alguém o recuperasse e voltasse a dar-lhe o destino para que foi construída pelas mãos de um ourives, a expensas de um benemérito. Provavelmente, ainda lá está, clamando por alguém que a recupera e a exponha em lugar de culto divino, ficando a salvo dos gatunos que, nestes tempos de crise fazem negócios da china com os objectos sagrados.

Muito do nosso património religioso construído tem sido salvaguardado com os apoios dos poderes públicos. Despenderam-se verbas muito significativas na recuperação de Igrejas danificadas pelos sismos e na conservação e reparação de outras afectadas pela degradação.

Cabe aqui, destacar o trabalho e dedicação de muitos fiéis na conservação dos templos, promovendo eventos de vária ordem e solicitando apoios às entidades oficiais, para obras, sempre onerosas, que tais empreendimentos acarretam.

Normalmente, os edifícios são os primeiros a serem beneficiados e como as verbas despendidas são muito avultadas já não chegam para a recuperação das talhas dos altares, das esculturas, das pinturas e gravuras, da cerâmica e azulejaria, dos paramentos, dos instrumentos musicais e dos objectos em ouro e prata. Para já não referir os livros antigos que a humidade vai deteriorando, sem apelo nem agravo.

É um enorme trabalho que importa desenvolver para que a nossa história religiosa que forjou a nossa matriz colectiva não se perca.

Aqui fica o apelo aos responsáveis diocesanos para que não descurem estas responsabilidades e, à semelhança do que sucede em Évora, procedam, pelo menos, ao Inventário artístico da Diocese.

A tarefa é muito vasta e importa não desanimar.

O que está em causa é a História religiosa e humana destas ilhas e isso vale o esforço redobrado das instituições que têm esses objectivos: Diocese, Paróquias, fiéis, Museus públicos e privados, Bibliotecas, autarquias, Governo e a própria Universidade. De todos se espera uma conjugação de esforços para identificarmos e recuperarmos o nosso Património Religioso.

José Gabriel Ávila

jornalista C.P. 536

PS: Recebi este comentário do Dr. Artur Goulart, que reforça as minhas preocupações, dando conta das acções desenvolvidas em várias dioceses continentais. Trata-se de um comentário particular mas, pelo seu interesse, julgo dever publicá-lo.

Meu caro
Obrigado pelo texto e as referências à minha pessoa. Costumo ir com muita frequência ler o teu blogue, mas este fim-de-semana, com problemas de virus nos computadores caseiros, não tive hipótese. Oxalá que o teu alerta para o património religioso da diocese tenha efeito. É um trabalho que ou se faz a sério ou não vale a pena, aliás segundo as recomendações da Santa Sé. Mas qualquer coisa tem de ser feito. Nós temos uma equipa de inventariantes, mais quatro além de mim que coordeno, formados em história de Arte e Património, e um deles em Ciências documentais. Além do património móvel, inventariamos a documentação dos arquivos paroquiais, que era praticamente desconhecida e onde temos encontrado um grande espólio. Os inventariantes são pagos pela Fundação Eugénio de Almeida, aqui de Évora, embora o meu trabalho seja de voluntário. E a Fundação tem aproveitado candidaturas municipais para suportar as despesas e fazermos as publicações. O endereço web que citas no teu artigo abre directamente para o inventário online (ainda está uma percentagem muito reduzida online, mas dentro em breve deve entrar maior quantidade que já está em base de dados), todavia o endereço do nosso sítio - www.inventarioaevora.com.pt - é mais apelativo e vai sendo enriquecido com newsletters, inclusive tem acessibilidade para invisuais.
É un trabalho em que é necessário comprometer os párocos, responsáveis e as comunidades, para que possa ser eficaz. Felizmente temos tido sorte. Já há várias dioceses que o fazem. Beja começou há mais tempo, nós em 2002, o Porto, Lisboa, Braga, Lamego, já tem muito feito; outras estão a principiar Santarem, Viseu, e é provável que me falte alguma. O ano passado o Patriarcado fez uma espécie de curso sobre as alfaias litúrgicas em diferentes aspectos e fui lá fazer uma das sessões precisamente sobre a inventariação-catalogação, segundo as normas internacionais e da Santa Sé.
Li há dias qualquer coisa sobre um entendimento entre o Bispo de Angra e o Governo regional por causa da inventariação do património religioso, mas não sei em concreto de que se trata.
Como podes calcular, apesar de reformado, trabalho não me falta.
Grande abraço
Artur Goulart


Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

CAVACO NA MENSAGEM DO REPRESENTANTE DA REPÚBLICA

A mensagem de Ano novo do Representante da República para os Açores é um documento importante pelas afirmações que contem a propósito do novo estatuto político-administrativo da Região.

José António Mesquita (JAM) é, necessariamente, personalidade de confiança do Presidente da República. Esse pressuposto faz pensar que o teor da sua mensagem foi construído com o prévio conhecimento e assentimento de Cavaco Silva (CS).

Não é, pois, inocente afirmar-se que o Estatuto “é um documento notável, quando a argumentação utilizada pelo Chefe de Estado na sua comunicação ao país, omitia ou não relevava as qualidades referidas por JAM: "perfeito e definitivo na quase totalidade dos seus preceitos, já se pode adiantar que será um instrumento de maior utilidade e da maior relevância na vida política, administrativa, económica, financeira e social da Região Autónoma dos Açores".

Daqui se conclui que CS, que na sua mensagem de Ano Novo apelou ao entendimento entre as forças políticas como forma de ultrapassar a crise, teve como destinatários directos na sua comunicação atingir o Parlamento, o Governo da República e o PS, dando por fim à tão propalada cooperação estratégica (mas o que é isso?). Aliás, aquando da primeira comunicação em Julho passado, sobre o seu veto político ao Estatuto dos Açores, já um destacado politólogo, membro da sua comissão política eleitoral, anunciara que havia necessidade de o Chefe do Estado afirmar, mais vincadamente, a sua magistratura, com vista à sua recandidatura a Belém.

A comunicação do Presidente foi, porém, mal recebida pela opinião pública açoriana e pela maioria das forças políticas. Estão ainda bem presentes as dificuldades impostas pelos Governos Cavaquistas aos órgãos de governo próprio dos Açores e, em última análise, aos açorianos. Essa contestação chegou, certamente, ao Palácio de Belém e a mensagem do Representante da República teve a intenção evidente de, estrategicamente, apaziguar as animosidades para com o reconhecido centralismo do Presidente.

Melhor teria sido que CS, tivesse utilizado outro processo de fazer chegar à Assembleia da República as suas discordâncias, ou então que a sua comunicação fosse mais pedagógica e conciliadora, qualidade que ele parecia vir exercendo na chamada magistratura de influência. Mas não. Cavaco preferiu o discurso autoritário, frio, quase intolerante.

Os açorianos sabem, perfeitamente que, normalmente, são referidos na comunicação social do continente, pelos piores motivos: intempéries, desastres naturais e pouco mais. Raramente se fala das boas condições climáticas, da beleza paisagística, e da diversidade e riqueza culturais ou mesmo do valor e importância da nossa grande Diáspora residente nas Américas. Das dificuldades decorrentes da insularidade e da ultra-periferia, que justificam a existência das instituições autonómicas, muito pouco se escreve, ou porque se desconhece o funcionamento das instituições, como agora se viu, ou porque se desvaloriza as competências legislativa e executiva.

Por tudo isto, a mensagem do Representante da República é só, para o povo destas ilhas, a mensagem do Inquilino do Palácio da Madre de Deus.

Se Cavaco Silva tivesse procedido da mesma forma, certamente, dos açorianos conquistaria mais simpatias e admiração. Afinal, sempre nos habituámos a respeitar quem nos respeita e quer bem. Que o digam outros povos que ao longo da nossa história conviveram connosco e que acabaram por aqui ficar, construindo o nosso futuro.

Estas ilhas são pequenas, mas, no seu todo, representam uma fatia muito apreciável e apetecível do território nacional.

Não me canso, pois, de o dizer:estamos aqui numa missão de soberania, e isso paga-se e respeita-se!


José Gabriel Ávila

jornalista C.P. 536


Sábado, 27 de Dezembro de 2008

REFLEXÕES SOBRE O QUE HÁ-DE VIR

2008, prestes a chegar ao fim, surpreendeu todos os analistas políticos e económicos mais atentos aos fenómenos sociais.

Nada fazia prever que, de um momento para o outro, começasse a ruir todo um sistema económico e financeiro que, apesar de crescentemente criticado, dava mostrar de grande sustentabilidade e bom desempenho.

O segundo semestre do ano corrente, foi fatal. Após a subida em flecha e repentina do preço do petróleo que abalou as principais economias mundiais, instalou-se a maior crise financeira da história recente, cujos contornos não são, ainda, fáceis de estimar, pois, diariamente, surgem novos casos.

2008 termina, repleto de incertezas, desenganos e desconfianças nas instituições bancárias e financeiras, nas instituições políticas, económicas e sociais e até nas instituições culturais e religiosas.

Não é exagero dizer que todos os países foram abalados com o ruir do capitalismo e do neoliberalismo, sistemas que pareciam ser a mola de um progresso imparável. A própria democracia ocidental, apontada como paradigma de progresso e de paz, corre, presentemente, sérios riscos de ameaça face a previsíveis convulsões sociais, resultantes do aumento do desemprego, gerador de pobreza e de fome. Há exemplos permanentes em países de África e do Médio-Oriente, demonstrativos de que a paz não se atinge enquanto a miséria imperar!

Esta crise profunda serve, todavia, para provar a bondade de princípios e teorias sociais que, ao longo das últimas décadas, se vinham impondo como mais adequados às novas realidades sociais: uma maior solidariedade entre os povos, o respeito pelos direitos humanos, pelas diferenças de cor, de raça e de cultura; a preservação do ambiente e da natureza; a repartição justa e equitativa de todos os bens da humanidade com base no princípio de que todos os povos devem usufruir dos bens do planeta; o acesso de todos os povos à saúde e ao ensino; a participação dos cidadãos nos seus destinos colectivos, sem intromissões de poderes cuja intento é o lucro fácil, a ganância e a opressão.

2009 vai, por isso, ser um tempo propício a um debate aberto sobre uma nova etapa que se abre ao futuro da humanidade. Já há tentativas interessantes e sérias de grupos de reflexão (Forum Social Mundial) e de personalidades internacionais (Muhammad Yunus) apontando pistas para um novo porvir, na certeza de que nada ficará como dantes e de que, como diz o Evangelho, “ não se põe remendos em pano velho, nem vinho novo em odres velhos”.

O tempo é de mudança e, por isso mesmo, haverá rupturas e sofrimento – o cabo das tormentas que anunciou, muito tardiamente, o Primeiro Ministro.

Ruptura com os modelos da indústria pesada cuja preocupação com o ambiente se limita a tapar a ferida da camada do ozôno com pensos rápidos; ruptura no comércio, habituado a um consumismo exagerado e destruidor da natureza; ruptura nas instituições financeiras que se multiplicaram sem necessidade, não para proporcionarem mais e melhor crédito, mas para produzirem grandes fortunas, com recurso a processos duvidosos e fraudulentos; rupturas nas áreas da formação profissional e dos ensinos técnico e universitário, que transformaram os seus cursos para responder às solicitações do Patrão/Mercado, em vez de se afirmarem como entidades renovadoras da sociedade; ruptura com o centralismo urbano, desertificador de vastas áreas do território e penalizador da prestação de serviços e cuidados primários às populações da periferia; ruptura com o modelo de produção agrícola extensivo que liquidou as culturas de subsistência, amigas do ambiente; ruptura com formas de vida geradoras de stress e que violentam a tranquilidade e o bem estar pessoal, familiar e colectivo, verdadeiros suportes da Paz.

Todas estas reflexões, estão sintetizadas na mensagem de Bento XVI para o dia mundial da Paz, que apela aos cristãos para que alterem “os estilos de vida, os modelos de produção e de consumo, as estruturas consolidadas de poder que hoje regem a sociedade”.

2009 vai marcar o nosso futuro, decisivamente, mas importa que participemos, activamente, nesse processo de mudança!


José Gabriel Ávila

jornalista C.P.536


Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

NATAL DO MENINO REPATRIADO

A cidade cobria-se de negro. Aqui e ali, ruas iluminadas com símbolos natalícios, tentavam atrair clientes às lojas, pouco movimentadas do velho burgo.

Pelas ruas estreitas, reflectindo no piso escorregadio da calçada à portuguesa a policrimia das lâmpadas, passavam, lentamente, automóveis cheios de mirones, desejosos de muitas prendas na noite da consoada.

De vez em quando, via-se um vulto no passeio, abrigado pelo guarda-chuva negro. Já era tarde para uma noite de inverno que começara antes das seis.

Cansado de gastar os ténis pelas ruas da cidade, andava o Joe. Tinha dormido uma vez mais, ao relento, com outros companheiros regressados da América. Abrigados do frio, junto à montra de um stand de automóveis, faziam daquele espaço o seu poiso nocturno. Ninguém os chateava, nem mesmo a polícia, logo que não provocassem desmandos. Viviam pr’àli, a partir das 7 da noite e até ao amanhacer, num território totalmente seu. Depois, levantavam arraiais, do pouco que possuíam e partiam até ao outro lado da cidade, em busca de alimento para sustentar a puta da vida que levavam mas que não tinham escolhido.

Joe nascera em São Miguel mas fora com os pais, ainda criança, para a América. Naquele tempo, não havia maneira de uma família pobre sobreviver, se não fosse a emigração.

Quando chegou aos states teve saudades da rua onde vivera, dos amigos, da família que deixara. Mas a escola e os amigos, ajudaram-no a entrar no mundo americano. Os pais compraram carro, passados poucos meses, depois casa e os irmãos singraram na vida. Joe, o mais novo dos quatro irmãos, completou o Hight Scholl e entrou para o College. Desde muito novo sonhara em ser advogado, para defender os pobres, - dissera um dia à mãe, quando soube que o patrão despedira o pai, sem lhe pagar nada, só porque ele faltara ao trabalho para ir, com um irmão, à urgência do hospital.

Quando encontrar esse filho da ... vou levá-lo a tribunal para ele pagar a papá aquilo que lhe deve! – dizia Joe, vezes sem conta.

De repente, a vida do jovem estudante sofre um grande revés: os pais faleceram num desastre de automóvel. Sem meios, teve de dar um rumo diferente à sua vida. Foi trabalhar para viver pois, nos states, sem trabalho não se chega a lado algum.

Joe começou, então, a ver os seus sonhos de infância a desfazerem-se. Abandonado, sem protecção dos irmãos, refugiou-se na toxicodependência, como forma de matar as desilusões. Mas esse trajecto turtuoso, conduz, normalmente, à delinquência e ao crime. Ainda tentou tratar-se, mas o vício foi mais forte e obrigou-o ao roubo. Apanhado pelas malhas da lei, foi preso e passado algum tempo, repatriado para a terra que o viu nascer, agora completamente só e deserdado.

Também vocês foram repatriados para terras do Egipto- gritou Joe, para as figuras do presépio, instalado, ironicamente, frente ao monumento ao emigrante.

Tua mãe, pariu-te numa cabana. A minha também, numa enxerga, sem luz e ao frio, que o pobre não chega a rico!- continuou o americano já bastante embriegado.

Mas entre nós há muitas diferenças: todos os anos toda a gente celebra o teu aniversário e eu, desde que meus pais morreram, nunca mais soube o que era uma vela num bolo. E tanto que eu precisava de amor, de um carinho, para deixar a puta desta vida e ser gente como tanto queriam meus pais!...

Joe, após uns momentos, caíu de joelhos, frente ao presépio. Com a cabeça no chão, começou a chorar, lamentando, baixinho, a sua infeliz sorte. Só quando os sinos repicaram para a Missa do galo, já a noite ía alta e gelada, é que Joe se ergueu, trémulo, e cabisbaixo foi cambaleando para junto da montra.

Ao longe, os fiéis entravam sorridentes, para as cerimónias solenes em honra do nascimento de Jesus.

José Gabriel Ávila

Jornalista C.P. 536

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

REFLECTIR PARA MUDAR

Tem sido muitos os “opinion makers” que nos últimos dias se tem pronunciado sobre a situação sócio-económica do país e do mundo. Algumas dessas individualidades lembram o conhecido rol de dificuldades que afectam os carenciados.

Mas a procissão ainda vai no adro. Não levará muito tempo e seremos confrontados com a falta de materiais e peças para a reparação e manutenção de equipamentos de primeira necessidade, porque a diminuição do poder de compra reduz as vendas e leva ao fecho das indústrias. O que os mais idosos viveram no tempo da guerra ou nos anos 70 por falta de divisas, vai ocorrer de uma forma mais pronunciada. Oxalá me engane.

Em tempo de Natal, à nossa volta, há trabalhadores do sector financeiro: banca e seguros, que vivem dias difíceis, com o espectro do desemprego. Estão neste caso alguns trabalhadores da Açoriana de Seguros a quem já foi comunicada, de forma autoritária e sem apelo, a rescisão de contrato de trabalho, a troco de indemnizações ridículas, alegando-se extinção (?) do posto de trabalho. Compete às entidades fiscalizadoras comprovarem se as justificações são verdadeiras e legais. Mais consensual parece ter sido a proposta de rescisão do BANIF (já não é Açores) feita a alguns trabalhadores para que deixem de ser colaboradores do antigo Banco Comercial dos Açores. (Recordo que, quando tutelado pelo Governo Regional, o BCA foi, durante largos anos, a principal mola impulsionadora da economia regional).

Os comportamentos de algumas instituições financeiras provam, à saciedade, que o lucro desenfreado continua a ser o objectivo principal das administrações das empresas, que se fartaram de arrecadar lucros estrondosos, sem que se preocupassem com a sua função social e com o futuro dos seus colaboradores. Muitas administrações ainda não perceberam que as falcatruas e os desfalques da ordem dos milhões e milhões, se tornaram rapidamente ricos alguns, liquidaram esse sistema injusto que acaba penalizando a maioria dos países e a humanidade em geral.

É tempo, por isso, de repensar estratégias económicas e empresariais. Continuar a actuar como se nada tivesse sucedido, só porque não se vislumbra ainda um novo sistema económico, é um erro que levará, certamente, à ruína instituições públicas e privadas e gerará graves tensões sociais.

Reflectindo sobre o nosso tempo, o Cónego António Rego, cuja lucidez de análise se reconhece, escreveu na Agência Ecclesia o seguinte:

A vida merece ser pensada. O ser, o ter e o haver precisam ser sacudidos para nos posicionarmos, interiormente, em novos ângulos que observem a realidade com menos ilusões, menos distorções de interesse, imediatismo, parcialidade.(...)Estamos desafiados no nosso quotidiano. Na energia, no ambiente, no desperdício, na alimentação, no gasto, na austeridade, no essencial, no supérfluo. E no sentido da vida. E da nossa relação com os objectos. Como nos novos clamores que nos chegam para um outro olhar sobre a justiça, a cultura, o desenvolvimento, a liberdade, a segurança, a evolução tecnológica, as potencialidades da ciência, o respeito pela terra, pela vida, pelas crianças e pelos idosos, as iniciativas de voluntariado, a serenidade ideológica que confere maior humildade para ouvir, aceitar, ousar a mudança no diálogo, no respeito pela pluralidade de expressões, culturas, artes, religiões. (...) O nosso tempo, não sendo um clube de santos, oferece novos horizontes. E os sobressaltos económicos e políticos também são profecia, sinal, desafio, apelo, coragem para mudar. Esta lição dura não pode reduzir-se a alguns escândalos que explodem em tempo de crise. Os factos não são novos. Apenas eram ignorados.

E se nos organizássemos para uma reciclagem sobre a nossa vida, o nosso mundo, a economia, a terra, a água, a energia, a espiritualidade, o sentido da existência? Os vindouros dirão um dia que uma crise contribuiu para a mudança duma civilização.”

No mesmo sentido vai a mensagem de Natal do Movimento de Trabalhadores Cristãos de Braga, LOC/MTC: Nós, trabalhadores, também temos que fazer a nossa parte. Organizemo-nos em pequenos grupos de reflexão, não tenhamos medo de falar destes problemas e procurar soluções para os mesmos. O Movimento de Trabalhadores Cristãos, LOC/MTC, oferece algumas respostas e está aberto aos trabalhadores que pretendam ser, também, “protagonistas de mudança”, porque se tu quiseres um mundo novo é possível.

Numa região pequena, dependente e vulnerável como a nossa, chegou a hora de instituições como: Órgãos de Governo próprio, Universidade, Associações empresariais e de cidadãos, a Escola, a Família e a própria Igreja, promoverem uma séria reflexão sobre como ultrapassar a crise e instaurar um sistema económico-social mais humano, mais justo e progressivo.

Se os estados continuarem a subsidiar os sectores da velha economia, prolongam a morte anunciada de um sistema económico gerador de diferenças gritantes entre ricos e pobres.

A rejeição do Parlamento Europeu da proposta de aumento da jornada semanal de trabalho de 48 para 65 horas, é um sintoma positivo do que tem de ser feito para que o Homem vingue o vil capital.


José Gabriel Ávila

jornalista C.P.536

Domingo, 21 de Dezembro de 2008

O Convívio...

Domingo passado, alguns dos 36 reuniram-se nas Portas do Mar, em Ponta Delgada. Foi um momento interessante de convívio, para matar saudades.
Lá estiveram o Onésimo, O Gualter, o Adelino Moules, o José Manuel Franco, José Victor, José Adriano B.Carvalho, Noé Carvalho, José Francisco Oliveira, Humberto Clementino, Gambôa, José Augusto, Manuel Faria de Castro, Fernando Mota, Jorge do Nascimento Cabral, José Gabriel Ávila, Carlos Sousa e Octávio Medeiros. Alguns acompanhados das respectivas.
O Carlos Sousa, compilou uma série de fotos dos tempos do Seminário que foram sendo documentadas pelo "memorável" Onésimo. Infelizmente, por razões técnicas, não se ouviu o fundo musical, constituído por números executados pelo Orfeão do Seminário de Angra, cuja gravação foi cedida pelo Olegário Paz.
No dia anterior, o Onésimo tinha participado em Angra, numa sessão comemorativa do centenário do nascimento de Mons. José Machado Lourenço, fundador, com José Enes e Cunha de Oliveira, do Instituto Açoriano de Cultura, entidade promotora das Semanas de Estudo. Falou do nosso antigo professor de Inglês, Literatura e História da Igreja, recordou-nos algumas estórias e tomou nota de outras para complementar a sua comunicação que deverá ser publicada na revista Atlântida.
O Gualter organizou - e que bem!- a festa. Houve bolo de aniversário. O ex-tribuno Jorge Cabral encerrou o convívio destacando o papel marcante desta geração na sociedade.
Aguardam-se novos encontros, ad eternum...e para perpetuam rei memoriam...

Sábado, 13 de Dezembro de 2008

O GRUPO DOS 36


Parti da Horta, nos primeiros dias de Outubro de 1958, no Carvalho Araújo, navio daquela quinzena (o outro era o Lima que passava pelas Lajes. A Lília tinha-me recomendado ao filho do Sr. Cardoso da Tabacaria da Sorte que, no fim de férias regressava à Universidade de Coimbra. Mal o velho navio deixara o porto, dirigi-me ao camarote para trocar os calções do fato preto da comunhão solene, por calças compridas que minha mãe mandara fazer à alfaiataria do Sr. Monizinho. Não me lembro como decorreu a viagem. Recordo, porém, que, ao chegar a Ponta Delgada, o Pe Agostinho Tavares, professor e prefeito do Seminário Menor do Santo Cristo aguardava-me a mim e a outros rapazes que, viajavam comigo, com o mesmo destino.
A entrada no velho e enorme edifício do Colégio dos Jesuítas - hoje Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada -, constituíu um corte tão profundo com a minha curta história pessoal e familiar que os meus primeiros tempos do Seminário foram um choro pegado e uma grande tristeza. Alunos “das ilhas do oeste” - designação muito vulgar na altura -, crianças entre os 10 e os 12 anos, saudosos da família e da terra, não tinhamos bem a noção de que só nove meses depois voltariamos a casa, ao contrário dos naturais de São Miguel que chegaram, acompanhados das famílias. Parece que ainda estou vendo a avó do José F. Costa, vestida de xaile negro, acompanhando o netinho, e muitos outros colegas com pais e irmãos, cujo nome, então, desconhecia.
A grande camarata, dos 36 alunos do primeiro ano, ficava virada para a Rua de Santana, por cima da tipografia do diário Açores. Pelo sobrado carcomido pela idade da fundação do Colégio, entrava o frio do inverno, o cheiro dos químicos e o barulho das impressoras.
Ao lado, ficava a comprida sala de estudo com quatro filas de carteiras individuais, por onde os padres prefeitos Agostinho Tavares e José Franco, passavam, silenciosamente, murmurando as orações do breviário. Era assim de manhã, à tarde e após o jantar. “A santidade, disciplina e estudo” eram os valores que inculcavam nos alunos. À noite, antes de deitar, mais uma hora de estudo! E quanto ela me custava! Um dia, o Reitor do Seminário, Pe Jacinto da Costa Almeida, foi substituir um prefeito na assistência ao estudo. Como, habitualmente, não resisti ao sono e deitei a cabeça sobre a carteira. O Pe Jacinto, não transigiu e mandou-me pôr de pé, a ver se espantava o sono. Mas não resisti, e mesmo de pé reclinei a cabeça sobre os livros. Quando, daí a bocado ele passou por mim, mandou-me sentar, porque o castigo não fizera efeito...
Nele, que foi nosso professor de Latim e de Francês, apreciávamos a piedade e temíamos as reprimendas e os avisos de indisciplina. Nisto contrastava com a bondade do Dr. Simão Bettencourt, Director Espiritual, e do Pe José Baptista Ferreira, professor de desenho. Mais contemporizadores, por mais novos, eram os prefeitos Pe Agostinho Tavares e Pe José Franco, professores das restantes disciplinas. Na foto, tirada no nosso segundo ano, em 1960, ainda se reconhece muitas caras dos que, amanhã, vão celebrar 50 anos de curso. Não sendo possível mencionar todos, refiro estes: João Carlos Carreiro, Fernando Mota, José M. Bettencourt, José Vitor, eu, Onésimo Almeida, Octávio Medeiros, Noé Carvalho, Eugénio Carvalho, António Varão, José F.Costa, José M.Franco, Humberto Clementino, Jacinto Almeida, Gualter Dâmaso, Jorge N.Cabral, Filomeno Maia, Carlos Fagundes, José M.Couto, Carlos Sousa, J.Borges de Carvalho, J.Melo Borges, José Francisco Oliveira, Alfredo Gambôa e M.Faria de Castro. Os outros do primeiro ano, não me levem a mal.
De há cinquenta anos para cá, perdura, entre muitos de nós, uma amizade tão profunda, como se da mesma família fôssemos, cimentada nas lágrimas que, ao fim e ao cabo todos chorámos, e nos valores humano-cristãos que fomos aprofundando e experienciando.
José Gabriel Ávila
Jornalista C.P.536

Sábado, 6 de Dezembro de 2008

O SOCIAL E O AMBIENTAL, PRIMEIRO

1.- “O PS afrontou o Presidente da República ao anunciar hoje (terça-feira) que não irá apresentar nenhuma proposta de alteração ao Estatuto Político Administrativo dos Açores “ (SIC- Notícias);
Açores vencem guerra do Estatuto” (Açoriano Oriental);
Cavaco não foi ouvido: PS confirma Estatuto dos Açores sem alterações” (Correio dos Açores).
Estes três títulos da imprensa revelam os conceitos políticos dos três meios de comunicação social, sendo que dois deles são açorianos: o CA, tradicional defensor acérrimo da autonomia, pende para um lado e para o outro; o AO dá um tom triunfalista à notícia o que também me parece exagerado.
Pretender passar aos telespectadores a mensagem de que a atitude do PS constitui uma afronta ao PR, é considerar o Chefe de Estado um senhor absoluto, de um regime absolutista, cujo pensamento político não deve ser nunca questionado. É negar a existência de vários orgãos de soberania, entre os quais a Assembleia da República, como sede da democracia e da representação popular. É desconhecer que também a Assembleia Legislativa Regional constitui o orgão máximo da Autonomia e da representação popular açoriana, consagrada na constituição da República Portuguesa.
Em democracia não há afrontamentos, há divergências de opiniões, de projectos políticos e sociais. Ninguém é dono da verdade e o próprio poder emanado da vontade popular é temporário e não vitalício. Nisto reside a diferença entre Monarquia e República.
Não basta, por isso, o PR afirmar que respeita as competências dos orgãos de soberania e, logo a seguir, num tom ameaçador, dizer que só falará após a Assembleia da República se pronunciar.
Cavaco Silva, Chefe de Estado repúblicano, tem fortes tiques de um soberano hirto e inflexível, no seu trono de Belém.
Perante isto, estou convencido que o Estatuto dos Açores ainda vai andar de anás para caifás, de Lisboa para a Horta, e de Santana para São Bento, servindo – oxalá me angane! - de moeda de troca para estratégias políticas, que o cidadão comum nem suspeita, nem saberá.
Parecendo que não, os jogos de poder assentam mais em pequenos amúos, em pancadinhas nas costas e em delicadezas de circunstância que na busca de soluções para os problemas das pessoas e para a ultrapassagem da crise económica, social e financeira. Essas questiúnculas são a raíz de graves crises que todos afectam e que resultam de ninguém querer pretender um naco que seja do seu poder.
2.- A ajuda dada por alguns bancos, com o avale do Estado, ao banco das grandes fortunas - o BPP - para retirá-lo da situação aflitiva em que se encontra, constitui uma decisão, dificilmente explicável para o cidadão comum que, nos últimos meses foi sujeito a uma vida difícil pelo preço dos combustíveis, pelo aumento dos juros e pela perda de poder de compra.
Quem, como eu, desconhecia a existência e a actividade quer do BPN quer do BPP, não aprova que o Governo se mostre tão complacente e apoiante dos bens dos mais ricos e afortunados e não olhe com o mesmo desvelo para a situação de milhares e milhares de famílias que, custosamente pagam os seus empréstimos, e sobrevivem com baixos salários e sob a pressão constante do despedimento e do desemprego.
Ainda há dias o banqueiro brasileiro Daniel Dantas foi condenado a dez anos de prisão por tentativa de suborno ao delegado da polícia federal de São Paulo. E em Portugal, os administradores do BPN e do BPP – são só estes os bancos que tiveram gestões danosas? - vão pagar pelas fraudes que cometeram?
No meio de tudo isto, também há boas notícias: dois bancos italianos decidiram suspender, em 2009, o pagamento de empréstimos concedidos aos clientes mais aflitos. Se estas benesses abrangerem também e sobretudo os mais carenciados, é um exemplo a seguir.
Afinal, vezes sem conta, vemos, ouvimos e lemos anúncios despudorados de lucros exorbitantes e crescentes das instituições financeiras.
Como escreveu Mário Soares em artigo publicado esta semana no Diário de Notícias, “O tempo é de mudança. O que implica novas políticas diferentes e especialmente atentas ao social e ao ambiental”.
Oxalá os governantes, de cá e de lá, tenham a coragem e o discernimento suficientes para romper com o neo-liberalismo e colocar o social e o ambiental primeiro.
José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Domingo, 30 de Novembro de 2008

Prémio DARDOS

O escrita em dia, recebeu do blogue Basalto Negro a distinção do prémio DARDOS, considerando "O grande estratego no incentivo ao debate e à participação cívica picoense."
É uma distinção que nos deixa muito honrados e nos obriga a prosseguir o direito e o dever de cidadania que nos orienta em prol da sociedade onde vivemos.
Aqui ficam os nossos nomeados, com votos de grande e profícua criatividade interventiva neste mundo da blogosfera:
http://activismodesofa.blogspot.com
http://airpico.blogspot.com
http://fogotabrase.blogspot.com
http://lajesdopico.blogs.sapo.pt
http://lepratecoma.blogspot.com
http://fiatluxcarpediem.blogspot.com
http://ilhas.blogspot.com
http://argoladas-argolas.blogspot.com
http://arrastao.org
http://casteletesempre.blogspot.com

Sábado, 29 de Novembro de 2008

AS BANDAS DA NOSSA ALEGRIA

Desde muito novo que os ensaios da filarmónica Liberdade Lajense, fazem parte das minhas memórias.
Uma vez por semana, em noites escuras de Inverno, jovens e velhos músicos juntavam-se na Filarmónica para ensaiarem as peças que fariam parte do reportório das festas do Espírito Santo e do Verão.
Vinham a pé, de longe – naquele tempo a iluminação pública da Ribeira do Meio só permitia vislumbrar os vultos que surgiam na escuridão – e regressavam a casa, alguns em bicicletas, outros a pé, enrolados em casacos e sueras grossas para impedir constipações e gripes.
Durante anos e anos Francisco Moniz de Melo, conceituado alfaiate da Vila, foi o regente da filarmónica lajense. Como os dirigentes da época, tinha pulso firme para segurar o grupo e competência lhe reconheciam para dirigir os destinos da mais antiga banda picoense.
Foi lá que muitos jovens da minha idade aprenderam os rudimentos da arte dos sons. Depois, com o passar dos anos e o aperfeiçoamento do instrumento de sopro chegaram a primeiros tocadores de trompete, de clarinete, de contra-baixo ou bombardino, pois o instrumental das bandas tinha muitas limitações, naquele tempo.
A incorporação dos mais novos numa banda de música era um momento muito importante. Significava que eles estavam aptos a integrar o grupo, embora sempre acompanhados pelos tocadores mais expoerientes.
A primeira vez que os novos elementos envergavam, dos pés à cabeça as fardas impecavelmente brancas, constituía um assinalável momento público de afirmação pessoal, que gerava nos outros rapazes um certo respeito e mesmo pena por não fazerem parte daquele colectivo.
Em todas as filarmónicas, houve músicos dedicadíssimos, não só à arte dos sons, mas à própria instituição em que cresceram e consideravam como sua. Ainda hoje, alguns músicos octagenários como é o caso do Faria, que foi padeiro, não perdem um ensaio, uma tocata, uma procissão. São os mais assíduos e, quiçá, os mais cumpridores. Essa vivência adveio-lhes de anos e anos a andaram de festa em festa, de arraial em arraial, à chuva ou ao sol, difundindo a arte dos sons. Nessas deslocações, normalmente acompanhados de familiares, fizeram amizades duradoiras e aprenderam a saber escutar a arte dos outros. Ainda hoje, os melhores espectadores e ouvintes das actuações das filarmónicas são os que foram ou são tocadores, demonstrando uma saudável rivalidade que reconhece as boas interpretações, os bons maestros e os bons executantes.
As filarmónicas ou Sociedades, como se diz na Ilha Terceira e em São Jorge, foram e são instituições culturais de grande mérito na formação cultural e humana de jovens e adultos.
Os Açores possuem mais de uma centena de Filarmónicas. São um património institucional e cultural de grande valia que importa, sempre e cada vez mais, relevar.
Nos últimos anos e graças ao trabalho desenvolvido pelos professores de Educação Muscal das Escolas B+S, as filarmónicas passaram a ter também bons executantes quer rapazes quer raparigas. Isso garantirá a continuidade destas instituições, sobretudo nas pequenas localidades rurais pois elas promovem e dinamizam iniciativas sociais e recreativas e, sobretudo, preparam e descobrem novos líderes de que os meios pequenos são tão carentes.
Alguns municípios, reconhecendo o papel destas instituições, apoiam a reparação e construção de sedes; outros editam CD,s que guardam para a posteridade os sons da banda da terra e os levam até à diáspora.
Há dias ouvi um trabalho gravado com as 7 filarmónicas do Concelho da Calheta de São Jorge, uma das quais, a União Popular da Ribeira Seca, foi dirigida pelo Maestro Francisco Lacerda, dali natural. As interpretações demonstram a grande qualidade dessas Filarmónicas. Como diz Duarte Silveira na apresentação desse CD, as Sociedades Filarmónicas constituem “instrumentos de agregação social”, que “mobilizam a juventude à volta de interesses e valores positivos de que sobressaem o gosto pela música e o espírito de trabalho cooperativo”.
Se há instituições respeitáveis, as filarmónicas estão entre as que o nosso povo mais preza e valoriza. E às constantes mutações sociais, quase todas têm resistido, mantendo assinalável validade, importância e influência na afirmação das populações.
José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536

Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

O BAIRRISMO DO PSD DO FAIAL

(crónica lida, em 25/11/2008, na Rádio Cais de S.Roque do Pico)
A propósito do afastamento de Fernando Meneses de Presidente da Assembleia, o lider e deputado do PSD do Faial denunciou o que designou por "esvaziamento político da ilha", alegando que o novo governo regional "é o segundo do partido socialista a ficar na História por não ter membros naturais ou residentes no Faial".
Luis Garcia, acrescenta, pasme-!, que o Governo "não terá nenhuma voz conhecedora da realidade económico-social e cultural desta zona do arquipélago", pois “sem secretários regionais, com menos uma direcção regional e sem a presidência do parlamento, o lugar dado ao Faial no equilíbrio dos poderes regionais é agora claramente secundário, não tendo qualquer importância prática na vida quotidiana da ilha e dos Açores".
As afirmações do lider do PSD faialense reconhecem públicamente o que já todos diziam: as cidades ex-capitais de distrito e as respectivas ilhas, beneficiam mais que as restantes, com a presença de departamentos governamentais.
Conclui-se, portanto que as outras seis ilhas têm um “lugar claramente secundário” - a expressão é do deputado do Faial -.
É a lógica de um arquipélago de 3+6, que o líder do PSD do Faial aceita e concorda.
No mapa a duas velocidades o Pico está, fortemente, prejudicado pois nem pertence às 3 primeiras, nem beneficia das ilhas de coesão. Caminha só, com gente que ainda acreditou na proposta do desenvolvimento harmónico, que a influência e a prática política provaram não ser verdade porque a mentalidade, o predomínio e a força das ex-capitais de distrito continuam na actividade política, governativa, e nos campos empresarial, sindical e até universitário.
Por isso é que a unidade regional, fundada na personalidade e capacidade de cada uma das ilhas, é um conceito utópico. Enquanto houver três centralidades, as seis ilhas afastar-se-ão cada vez mais; os cidadãos desinteressar-se-ão e desconsiderarão, obviamente, a actividade dos agentes políticos. (As últimas eleições provaram-no!).
As declarações do deputado e líder do PSD do Faial demonstram que a velha técnica do apelo ao bairrismo exarcebado junto da opinião pública, funciona como forma de pressão, na manutenção do triunvirato insular.
Mas vejamos se há razões para o protesto:
Porque é que o Faial, que tem o mesmo número de habitantes do Pico, há-de continuar a ter secretarias e direcções regionais, secretários e directores regionais lá residentes?
Não tem o Pico, ou as outras cinco os mesmo direitos?
Não é a Ilha Maior que a pequena ilha em frente?
Bairrista, eu?
Por que razão é que a TAP faz mais 12 voos este Natal para o Faial e continua com apenas um semanal para o Pico, quando este ano, por exemplo é maior o número de alunos universitários picoenses? Porquê esta insuportável e injustificável discriminação?
Discriminada está esta ilha porque tem menor movimento de aviões que a Ilha de Santa Maria, com 6 mil habitantes apenas, e menos ¼ dos vôos do aeroporto da Horta, embora as populações sejam identicas.
Para quê ampliar a pista da Horta, quando a que lhe fica em frente tem um tão baixo movimento? Será esta região tão rica que não tenha mais em que investir os nossos impostos?
Descriminados estão os picoenses porque caminham diariamente para o Hospital da Horta, para consultas, exames, tratamentos, ficam pr'ali internados, distantes da família e muitos só regressam para a morada final?
Bairrista, eu?
O Pico foi em 2007, a ilha que, em todo o arquipélago mais passageiros movimentou, por via marítima. No entanto os horários não têm em conta essa realidade e penalizam os passageiros desta ilha.
No entanto anuncia-se grandes obras de construção de portos para navios ferries e de cruzeiro, primeiro, para a Horta. Porquê esta discriminação?
Afinal, o deputado regional e político faialense falou verdade. A Região política, consagrou, desde o estatuto de 1976, três ilhas de primeira e seis de segunda grandeza.
Só que, assim, este arquipélago de nove ilhas, dificilmente, se unirá, pois a centralidade gera fronteiras e margens que o tempo, e a erosão, se encarregarão de desenhar no mapa dos Açores.
Até quando?
Ponta Delgada,22 Novembro 2008

Sábado, 22 de Novembro de 2008

AS 3 ILHAS PRINCIPAIS E AS 6 SECUNDÁRIAS

1.-Não há forma de fugir aos temas do momento: a crise, a estagnação económica, falências, despedimentos e aumento desemprego, variações incontroláveis das bolsas, descrédito nas instituições financeiras e todo um rosário de consequências que esperamos, vivamente, não abanem a precária estabilidade da maior parte das famílias.
O conhecimento da mundialização da crise temo-lo, diariamente, através das imagens da TV e das novas tecnologias da comunicação que os responsáveis políticos, pretendem - e bem! - democratizar. Não há, portanto, possibilidade de esconder os contornos e os escândalos financeiros de personalidades em que acreditavamos, devido às funções públicas que desempenharam. A liberdade de informação e de expressão, permitiu, porém, que a opinião pública de muitos países tradicionalmente educada nos valores da honestidade, no cumprimento dos contratos e no respeito pelos outros, fosse abalada pelos efeitos tremendos e irreparáveis provocados por figuras de topo de administrações de empresas financeiras que, com gestões fraudulentas e ilegais, abalaram, gravemente, a confiança de todos os cidadãos.
Quem já não pensou, preocupadamente, em melhor acautelar as suas poupanças, retirando-as de instituições bancárias e de guardá-las no fundo das gavetas, como acontecia há 30 anos atrás?...
A crise, está aí e não vale a pena escondê-la, nem criticar os media, que cumprem o seu dever de informar, revelando os seus desenvolvimentos aqui e noutras partes do mundo.
A globalização que nos transforma em cidadãos do mundo, mais conscientes e solidários com o que se passa noutras latitudes, vai também ser um factor predominante na busca de novas soluções para a resolução e ultrapassagem da crise.
Chegou a hora dos responsáveis dos povos perceberem que não são os únicos iluminados. A instauração de uma emergente nova ordem económica mundial, terá de confrontar-se com a intransigência dos defensores do neo-liberalismo. Para que tenha uma rápida aceitação e implantação carece da compreensão e envolvimento dos cidadãos. Só com eles ressurgirá uma sociedade mais justa e solidária em que o capital principal seja humano e não o vil metal.
2.-Carlos César disse na tomada de posse do X Governo dos Açores, que "a mudança não é uma expiação, pelo que o Governo nunca deve hesitar em mudar e inovar tantas vezes quantas forem precisas". Estes propósitos, deveriam ser princípios basilares e orientadores de qualquer executivo público ou privado. O certo é que, vezes sem conta, a prática contradiz a regra da mudança e da inovação e o autoritarismo e a autocracia imperam na actuação dos governantes. Daí ser agora notícia destacada na imprensa, esta regra básica de uma gestão correcta e eficiente.
De qualquer forma é bom o Presidente do Executivo, no início de mais uma legislatura, recordar esta regra para uma boa gestão do poder democrático.
3.- À margem do afastamento de Fernando Meneses de Presidente da Assembleia, o lider e deputado do PSD do Faial denunciou o que designou por "esvaziamento político da ilha", alegando que o novo governo regional "é o segundo do partido socialista a ficar na História por não ter membros naturais ou residentes no Faial". Para Luis Garcia, o executivo regional "não terá nenhuma voz conhecedora da realidade económico-social e cultural desta zona do arquipélago", pois “sem secretários regionais, com menos uma direcção regional e sem a presidência do parlamento, o lugar dado ao Faial no equilíbrio dos poderes regionais é agora claramente secundário, não tendo qualquer importância prática na vida quotidiana da ilha e dos Açores".
As afirmações do lider do PSD faialense merecem uma reflexão profunda sobre a distribuição de secretarias e direcções regionais apenas pelas ilhas e cidades ex-capitais de distrito. As declarações de L. Garcia têm subjacente a noção de que as Secretarias beneficiam as ilhas de São Miguel, Terceira e Faial, enquanto as restantes seis, como consideram os seus habitantes, têm um lugar “claramente secundário”, no dizer do deputado faialense. Esta localização contraria o princípio autonómico da realidade ilha, inicialmente reivindicado pelos açorianos. Ao longo dos anos, trouxe consequências ao desenvolvimento harmónico do arquipélago e gerou um evidente desinteresse e desconfiança dos cidadãos pela actividade política e governativa. Ao contrário do que se pretendia, não se consolidou a unidade regional.
Como é que as declarações bairristas e discriminatórias do líder do PSD do Faial não foram contestadas pelos seus pares social-democratas das ilhas secundárias ou não provocaram a contestação e explicações dos restantes deputados regionais, é uma questão que gostava de ver respondida. Por que têm de ser do Faial os Secretários e Directores Regionais sedeados na Horta e não podem ser do Pico ou de São Jorge, da Graciosa ou das Flores?
Afinal, o deputado regional e político faialense deixou claro que na Região há três ilhas de primeira e seis de segunda grandeza. Na organização política e administrativa regional não é isto, afinal, que consagra o Estatuto, desde 1976?
José Gabriel Ávila
C.P. 536

Sábado, 15 de Novembro de 2008

CARLOS CÉSAR E A RESOLUÇÃO DA CRISE

1.- Todos o dizem: a crise está aí e sentem-na consumidores e empresários.
Os primeiros foram atrás dos assédios da banca para a concessão de crédito a bens de consumo.
Muitas famílias acreditaram ser possível satisfazer os seus compromissos financeiros, no pressuposto de aumentos salariais, na baixa da inflacção e até, na convicção de que se os bancos emprestam dinheiro é porque acreditam que os clientes o podem pagar. Educados na seriedade e no cumprimento dos contratos, não poucos “passaram as passas do algarve”. De há uns anos para cá, à hora do almoço, muitos empregados, no interior das suas novas viaturas, escondem as necessidades e os rostos nas palas do pára-brisas, enquanto matam a fome com uma sopa e umas sandes trazidas de casa.
Presentemente, todos afirmam que o ordenado baixo ou alto, já não chega para pagar as prestações, sempre crescentes, de dívidas contraídas para adquirir bens de duvidosa necessidade.
O ditado “mais olhos do que barriga” tanto se pode aplicar à banca que anunciou enormes proventos e agora se confronta com uma grande retracção e insolvência de muitos empréstimos, ou aos consumidores imprudentes que foram atrás de incontroláveis apetites.
Penalizados pelos consumidores e pela banca, estão agora muitos pequenos empresários. Os mais bem sucedidos e melhores gestores, enfrentam a crise com cautela, cientes de que podem tirar partido da situação.
Muitos dos pequenos e antigos comerciantes, em tempos semelhantes a este, demonstraram capacidade para criar novos e mais rentáveis ramos de negócio. Outros, por má gestão e por terem “mais olhos que barriga”, foram à falência e perderam ganhos de anos e anos de trabalho. Ambas as situações fazem a história económica das pequenas e grandes comunidades humanas.
Este tempo de crise, se bem aproveitado, permitirá criar novas e mais dinâmicas iniciativas empresariais em áreas do comércio e serviços ainda não existentes, que responderão a um necessário crescimento do turismo e a novas formas de vida. Muitas empresas, todavia, não resistirão por inadequação ao mercado e por má gestão. Mas essa é uma lei implacável da economia.
Um novo quadro económico e social vislumbra-se no horizonte. Há cada vez mais vozes a reclamá-lo, insistente e urgentemente. O tempo é de crise, mas a história dos homens já nos ensinou que, passada a tormenta, nada ficará como dantes.
2.- Carlos César, inicia o seu quarto mandato de Chefe do Governo dos Açores, num ambiente desconfortável social e politicamente. Socialmente, porque as pessoas sentem na pele que, afinal, o crescimento económico dos últimos anos, não teve a consistência e a durabilidade que se ambicionava. Esta situação provoca uma natural insatisfação e ataques contra os políticos que gerem as contribuições de todos nós, como melhor entendem.
O Presidente do Governo tem, por isso, de encontrar novas soluções para que empresários, trabalhadores e cidadãos em geral, possam ultrapassar dificuldades e encontrar para esta pequena Região/Arquipélago, um futuro mais promissor, alicerçado em novas oportunidades de negócios e nas qualificações profissionais dos trabalhadores. Este é um desafio que, a recente e bem sucedida aposta na formação profissional, permite encarar com uma certa tranquilidade.
Mais difícil será C.César levar de vencida a versão aprovada por unanimidade nas Assembleias Regional e da República do Estatuto Político-Administrativo dos Açores.
Percebe-se que os dirigentes do PS nacional, não pretendem, em período pré-eleitoral, uma guerra contra o conhecido anti-autonomista Cavaco Silva.
César poderá, no entanto, negociar essa “derrota” com José Sócrates, reclamando um maior intervencionismo político no continente e preparando os portugueses de lá para os benefícios da inevitável regionalização que deverá ser sujeita a novo referendo. Lucrariam os Açores pela projecção que teriam, e ganharia César pela projecção da sua figura de político de dimensão nacional, com provas dadas na governação das ilhas.
Há derrotas que revertem e sabem a vitórias, desde que os argumentos e a razão dos vencidos suplantem o nepotismo dos alegados vencedores.
E, neste caso, os Açores têm toda a razão!
José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

OBAMA, A MUDANÇA E A BASE DAS LAJES

1.-A eleição do Presidente norte-americano constitui um momento marcante da história recente, pelas espectativas que gerou no mundo inteiro, face ao momento de grave crise financeira e económica que vivemos. Nunca, em tempo algum, os povos dos cinco continentes se envolveram tanto numa disputa eleitoral nos EUA, que opôs o senador republicano J. McCain, de 72 anos, ao senador democrata negro Barack Obama, de 47. A questão, para muitos, era saber se os norte-americanos iriam abrir, neste momento, a Casa Branca a um advogado negro, formado na Universidade de Harvard, Massachussets.
A vitória de Obama, num acto eleitoral largamente participado, confirmou, portanto, a vitalidade da democracia norte-americana, que neste tempo de grande instabilidade, soube discernir e escolher quem dá mais garantias de mudança para encontrar novas alternativas ao quase defunto neo-liberalismo. Oxalá sejam estas as preocupações que nortearão a nova administração norte-americana.
Muitas e fundadas dúvidas persistem nos povos oprimidos por guerras impostas pelos EUA aos países do chamado “eixo do mal”, e tarde conseguiremos calar a revolta pelas vítimas inocentes e pelos soldados que tombaram em terras estranhas.
Mais uma vez ficou provado que a paz não se consegue com a guerra, mas sim com o desenvolvimento dos povos.
Não creio, porém, que o novo inquilino da Casa Branca, por quem nutro uma certa simpatia, e a futura administração Obama, tenham abjurado os ideais dos “falcões” republicanos e os erros do capitalismo.
Só um acto de contrição, um pedido de desculpas aos povos e países martirizados pelas guerras e pelo “domínio” implacável do gigante norte-americano, gerarão novas relações de amizade, igualdade e justiça, com vista a uma nova ordem internacional.
Caso contrário, a eleição do primeiro presidente negro dos EUA só servirá para provar a coexistência racial e a ascendência dos afro-americanos, e a espectativa em Obama criada pelos países pobres gorar-se-á.
Acredito (Yes We Can, foi um dos slogans da campanha democrata), no entanto, que os Governos europeus e o norte-americano saberão entender os sinais de mudança que muitos povos ocidentais e dos países africanos e sul-americanos lançam em contestações e clamores a que alguns dirigentes políticos, académicos e investigadores sociais dão muita atenção.
Neste tempo de crise, estão criadas condições para que a mudança (Change) aconteça.
2.- O papel da base das Lajes na política de defesa da administração americana, como importante plataforma militar, não tem sido minimamente questionado pela opinião pública açoriana e portuguesa. Só recentemente, a passagem de aviões com cidadãos para a prisão de Guantanamo (Cuba) foi questionada, por infligir o direito internacional.
A presença dos norte-americanos na Terceira, é vista mais numa perspectiva empresarial e, mesmo assim, não têm sido poucos os conflitos laborais que os militares norte-americanos tem gerado por incumprimento da legislação portuguesa.
A base das Lajes, sendo território português do qual os EUA já não pagam renda é, na prática, uma base militar norte-americana que tem servido a estratégia dos EUA, no ataque a países independentes, não alinhados com as muito reprováveis estratégias económicas e militares de Washington.
Significa isto que Portugal, na prática, concorda com a actual política militar norte-americana, curiosamente contestada pelos nossos governantes.
Mantendo as suas potencialidades estratégicas e logísticas no Atlântico Norte, as Lajes têm de encontrar uma missão aeronáutica mais pacífica que gere o necessário e mais qualificado emprego e deixe de estar ao sabor das estratégias conjunturais dos EUA. (Após a saída dos alemães da base de Beja, por exemplo, projecta-se agora a instalação de uma indústria aeronáutica.)
Aos longos anos da guerra fria e à terrível invasão do Iraque a humanidade reclama um longo período de paz, igualdade e desenvolvimento, ou, no apelo de Paulo VI quando visitou Fátima: Jamais plus la guerre!
Oxalá Obama corresponda a essas grandes espectativas!

PS: Os reembolsos das receitas de medicamentos passadas na Região, continuam a ser negados aos açorianos deslocados no continente. A causa parece estar na diferença de impressos utilizados. À consideração de quem de direito, para bem dos utentes do SRS dos Açores.
José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Sábado, 1 de Novembro de 2008

A chantagem do empresariado e a candidatura de Berta

1.-As declarações proferidas esta semana na RTP-N pelo presidente da Associação nacional das pequenas e médias empresas (PME,s), a propósito do concertado e acordado aumento do salário mínimo para 450 euros, no próximo ano, são reveladoras dos princípios e práticas da maioria do patronato do nosso país.
A ameaça de que as PME,s não irão renovar os contratos a termo certo aos trabalhadores que recebem o salário mínimo actual de 426 euros, é um sinal evidente das ilegalidades, prepotencias e injustiças que grassam por aí, sem que a lei e o direito se cumpra.
O capitalismo revela-se na mentalidade de muitos empresários conservadores e mal formados, para quem o fim primeiro é o lucro fácil, e os trabalhadores meras peças de uma engrenagem que tritura os direitos e a dignidade humanos, oprime as liberdades e a criatividade e gera a instabilidade e os desequilíbrios sociais, acentuando o mundo dos ricos e dos pobres.
É o capitalismo selvagem ainda no seu melhor. Significa isto que as concepções neo-liberais que corrigiram algumas injustiças grosseiras da doutrina económica que colocava o lucro na mira de toda a actividade, não foram entendidas por milhares de empresários portugueses que agora sofrem os contratempos da falência desse sistema.
Nos últimos meses, a opinião pública tem sido informada dos escandalosos salários auferidos pelos administradores da banca. A imprensa generalista, tem também dado conta do “ranking” dos detentores das maiores fortunas nacionais e mundiais, não para questionar o modo, o tempo e como foram amealhadas, mas para apontá-las como exemplos (inatingíveis!) de muito labor, de grande persistência, de boa gestão e rigor. Promove-se o culto dos bem sucedidos mas ignora-se, propositadamente os leques salariais e as consequentes tensões laborais que, normalmente, se anulam com processos judiciais morosos que as empresas fazem arrastar nos tribunais em seu benefício e prejuízo dos trabalhadores.
Deixa ir para tribunal, é uma expressão tão em voga no vocabulário do patronato. Eles não têm qualquer receio em recorrer à lenta e ineficaz justiça portuguesa, mesmo que paguem honorários altos aos advogados. Normalmente, saem a ganhar. Por seu lado, os trabalhadores que sofrem de ilegalidades e injustiças, descapitalizados, são incapazes de cuidar dos seus direitos e abandonam-se à sua sorte.
Os sindicatos não protegem os trabalhadores das pequenas empresas; só nas grandes e na administração pública incidem as suas lutas.
Em tempo de ruptura financeira, devido à falência do sistema económico, o Estado e os governos têm de demonstrar maior firmeza na regulação e fiscalização das relações económicas, laborais e sociais. O poder não pode cair na rua nem ser exercido por grupos de pressão sem regras e sem escrúpulos e a sociedade não pode estar à mercê de empresários que fazem das injustiças e da fuga à lei o seu procedimento normal.
O capitalismo morreu, mas toda actividade humana deve continuar a orientar-se pelos grandes princípios que defendem os direitos humanos, a coexistência pacífica e a protecção dos mais necessitados. O aumento do salário mínimo nacional para 450 euros um pouco acima do considerado limiar da pobreza, é um bom exemplo de que compete aos governos, mesmo em tempos de forte crise, regular a economia. Oxalá o executivo nacional não caia na asneira de conceder mais apoios às PME,s que os já anunciados. Se fôr assim ficará fragilizado.
2.- O anúncio da candidatura de Berta Cabral (BC) à presidência do PSD-Açores, após os “preparados” apoios das comissões políticas de ilha, se tranquilizou a “orfandade” das hostes social-democratas, não trouxe nada de novo à vida política regional.
A Presidente da Câmara de Ponta Delgada não deixará o Município para se confrontar no Parlamento com o poder e a restante oposição quadripartida.
À distância, fora dos corredores do poder político regional e da visibilidade de que necessita para se afirmar como lider da oposição açoriana, BC sentirá os constrangimentos e as dificuldades de ter de andar de ilha em ilha a preparar uma alternância de poder. A não ser que deixe esta tarefa para dois anos antes das próximas regionais ou passe a ser uma presidente com poderes delegados.
A escolha, da nova lider do PSD-Açores constitui, porém, o melhor exemplo da falta de dirigentes credíveis e prestigiados nas forças políticas regionais, em cujos quadros figuram, sobretudo, agentes políticos carreiristas e raras figuras com pensamento, cultura e prática políticas, competência técnica e conhecimento capaz da realidade. É esta situação que deveria fazer reflectir os agentes políticos e as entidades educativas, culturais e sociais.
O que está em causa é, sobretudo, a democracia participativa, mas também o exercício competente dos poderes públicos, sejam eles locais ou regionais.
José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

UM NOVO CICLO PARA A INOVAÇÃO

No rescaldo das eleições regionais, e após as análises político-partidárias de vencedores e de vencidos (estes raramente admitem culpas na derrota e os outros são, habitualmente, vencedores absolutos!) que pouco ou nada dizem ao cidadão anónimo, importa saber qual o rumo do próximo governo.
Carlos César, no discurso de vitória, para além do comentário aos resultados, destacou, muito por alto, os seus propósitos para o desenvolvimento económico dos Açores, (pretendia citar as suas declarações que ouvi através da TV, mas nenhum jornal as referiu ) e que sintetizo assim: inovar e dinamizar a indústria agro-alimentar e implementar as novas tecnologias nos sectores produtivo e educativo.
De uma leitura feita ao programa eleitoral do PS, noto que os responsáveis governamentais estão preocupados em proporcionar uma dinâmica nova à nossa pequena e débil economia que já possui infra-estruturas capazes de dar um salto em frente.
Várias vezes, tenho defendido nos meus escritos, a necessidade de diversificação dos nossos produtos lácteos, como mais-valias de uma região que produz 30% do leite do país.
Novas fábricas de lacticínios foram construídas em todas as ilhas. Todavia, os queijos de S.Jorge ou tipo ilha, mantém a mesma grande dimensão de há 40 ou 50 anos, desadequada dos modelos do mercado, obrigando o comércio a fatiar o queijo e a embalá-lo em plástico. Porque não produzir este queijo de qualidade em embalagens mais pequenas e com uma imagem mais apelativa? O mesmo se diga relativamente aos yogurtes regionais, ao açúcar, e a outros productos açorianos.
O nosso leite, produzido em pastagens verdejantes e sàdias, numa natureza limpa do meio do Atlântico, têm qualidades antí-cancerígenas, de vez em quando relevadas. Merece, pois, ter outros aproveitamentos, em vez de emparceirar com leite de origem desconhecidade, nas médias e grandes superfícies do continente, e, muito menos, ser vendido a países africanos, sem poder de compra.
O leite, o queijo e outros produtos dos Açores, ou são vendidos e apresentados com imagem identificadora de qualidade, ou continuarão a ser mercadoria indiferenciada, banal e de baixo preço.
Assim não teremos mais-valias e a agro-pecuária não terá futuro.
Ao contrário do que alegam produtores e industriais, para obterem uma permanente subsidiação da UE destinada à inovação e modernização, parece que os milhões muito pouco mudaram e que não demonstramos capacidade de progredir e de fazer melhor e diferente.
Nos anos 80, ainda Portugal não pertencia à CEE, a Fábrica de Lacticínios Loreto, em Ponta Delgada, recebeu, com pompa e circunstância, um subsídio da EFTA para a instalação de um laboratório destinado a extrair do leite productos químicos de alto valor destinados à indústria farmaceutica. Nunca mais ouvir falar da actividade do laboratório, nem dos productos lá extraídos. Alguém sabe informar se essa unidade funciona na nova fábrica daquela empresa e a que resultados chegaram as análises e estudos efectuados?
O assunto não é assim tão leviano que nos deixe indiferentes.
Repete-se, vezes sem conta, que temos uma natureza pura e rica em vegetação e espécies endémicas; que os mares dos Açores são privilegiados pela sua fauna e flora; que as ilhas são um laboratório natural. Então devíamos investir, fortemente, no estudo dessas potencialidades para fins empresariais. Dizem que há biólogos a mais que se vêem obrigados a trabalhar fora da sua área de especialização. Mas não são eles fundamentais no estudo e tratamento dos animais, dos solos, das plantas, nas análises e pesquisas laboratoriais indispensáveis à actividade das indústrias de lacticínios, de alimentação e das pescas? Não são eles importantes na pesquisa de eventuais propriedades farmacológicas ou outras da nossa floresta?
Há exemplos bem sucedidos no continente de jovens empreendedores que formaram pequenas empresas ligadas à biotecnologia, cuja carteira de negócios com o estrangeiro, tem subido em flecha.
Vivendo em ilhas, temos vantagens comparativas. Que nos falta para darmos o salto em frente, na investigação e na biotecnologia, sector empresarial altamente especializado em matéria prima e mão de obra?
Chegou a hora de apostarmos muito mais na investigação de ponta. Da Universidade espera-se que seja parceiro influente neste processo cujo objectivo principal é o desenvolvimento económico e social, através da constituição de novas empresas. A biotecnologia abre novos horizontes à economia destas ilhas. Oxalá tenham os jovens, com formação académica superior e os investidores capacidade para arriscar, com a ajuda e empenho dos governantes.
Neste incerto presente, esta é uma actividade de que tanto carecemos para um futuro mais seguro.
José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Domingo, 19 de Outubro de 2008

O CENTRALISMO CONTINUA A SILENCIAR O REGIONALISMO

Distante do palco eleitoral, não acompanhei a campanha que ontem terminou e amanhã terá o veredicto final.
Aqui, no continente, duas ou três reportagens nas televisões, uma manhã na Antena 1, ontem, conduzida em Ponta Delgada por uma jornalista da redacção de Lisboa e uma ou outra notícia nos jornais, desenquadras do ambiente sócio-político açoriano, foi a cobertura que os media continentais fizeram da campanha. Não admira, pois, que o cidadão comum deste rectângulo desconheça, em absoluto, o que se passa nos Açores para além das reconhecidas belezas naturais.
É certo que a incerteza económica e financeira mundial suplanta o interesse dos combates eleitorais na nossa Região, cujo futuro depende também da conjuntura internacional. Todavia, seria de esperar que os meios de comunicação social de expansão nacional, tão atentos às guerrilhas e desentendimentos político-partidários, dessem agora outra atenção à realidade cultural, social e política desta região insular atlântica.
Recentemente, aquando do veto presidencial ao Estatuto político-administrativo, o nome Açores que não a realidade açoriana, circulou nos media, sem se explicar, minimamente, as motivações e argumentos da proposta açoriana unanimemente aprovada nos parlamentos regional e nacional. A maioria dos comentadores e analistas políticos, apressou-se, antes, a passar para a opinião pública a ideia de que estariam em perigo a soberania nacional e os poderes do Chefe do Estado, no pressuposto de um retrógrado centralismo lisboeta, cada vez mais posto em causa pelas regiões continentais.
Há dias, um alentejano dizia-me que entendia cada vez mais as posições das Regiões Autónomas, nomeadamente dos Açores, pois, ao contrário do que pensava há uns anos, se o Alentejo tivesse também orgãos de governo próprio regionais, a resposta aos problemas das populações seria mais lesta e eficaz.
O movimento autonomista começa, pois, a crescer no continente. O Algarve agita essa bandeira e tomou a dianteira, mas as aspirações de auto-governo desenvolver-se-ão à medida que a dinâmica do desenvolvimento chegar às regiões do interior e do norte. A proximidade e o relacionamento com a Espanha ajudarão também os portugueses a tomar consciência de que as populações são senhoras dos seus destinos e por isso devem ter governos próximos e dinâmicos.
A imprensa e rádio regionais, são, igualmente, factores preponderantes neste processo. Ao contrário da imprensa de expansão nacional, centrada na problemática económica, social e política de Lisboa e do Porto, os media regionais através da informação, da opinião e do debate das problemáticas locais imprimem às suas edições e programação um dinamismo que atinge também vastas camadas da população emigrante. Também estes meios ajudarão a criar a tão falada Europa das Regiões e os guardiões do Estado centralista jamais conseguirão parar esta dinâmica dos povos.
Ao longo da minha carreira na RTP, confrontei-me, bastas vezes, com a desconfiança da redacção de Lisboa em relação à idoneidade e profissionalismo dos jornalistas açorianos no tratamento noticioso da actividade política e eleitoral regional. Havia sempre um enviado especial a acompanhar as deslocações de representantes de orgãos de soberania, ou a cobrir as campanhas eleitorais, alegando-se, normalmente, falta de meios humanos nos Açores. Por outro lado, uma reportagem mais desenvolvida, uma entrevista realizada localmente a um político regional ou nacional, também não passava nos canais públicos nacionais.
Durante anos e anos, a imprensa continental, passou uma cortina censória sobre a vida e o crescimento deste arquipélago açoriano e português, onde os Estados Unidos têm o seu quartel no Atlântico Norte. Pelos vistos, essa atitude continua, após tantos anos de democracia e de autonomia constitucionais.
O acto eleitoral de amanhã, resumir-se-á, nos media continentais, a uma simples notícia sobre o partido vencedor, com breves comentários de alguns líderes políticos nacionais. Oxalá me engane!
Nos Açores, será o início de mais uma etapa na vida sócio-política de um povo que, por amor à ilha onde nasceu, tomou em suas mãos, a muito custo de forma irreversível, mas com sucesso, a organização dos seus destinos colectivos.
José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536

Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

O CAPITALISMO MORREU|

O CAPITALISMO MORREU!
Nasça uma nova ordem económica!
Vai por aí uma turbulência enorme em todo o mundo mais ou menos desenvolvido, que nem as últimas guerras conseguiram superar apesar dos milhões de mortes.
A actual crise financeira, cujas causas só os economistas e os banqueiros conseguem explicar atinge-nos a todos ios com ou sem poupanças, com emprego estável, contabilidade familiar controlada, enfim...uma vida certinha.
O mundo está a abanar porque a ganância do capitalismo selvagem, que há muito se vinha sentindo e que era contestado por diversas correntes económicas ligadas aos valores sociais e humanos, o capitalismo dizia, desregulou-se, a pretexto da máxima absoluta do liberalismo - a livre concorrência.
Quando muitas vozes de políticos de renome mundial se mostraram preocupados com o sub-desenvolvimento dos países pobres e do terceiro mundo chamando a atenção, no Forum Social Mundial, para a necessidade da inter-ajuda e da liberdade dos povos na escolha dos seus destinos; quando os países pobres pediam às instâncias financeiras mundiais e aos países do G8 que lhes perdoassem as dívidas; quando face ao clamor de muitas nações de África e da América Latina, a Igreja Católica e outras instituições insistiam numa nova ordem económica internacional mais justa e solidária, logo os gigantes económicos mundiais impunham as suas duras restrições económicas e políticas para calar direitos fundamentais, como matar a fome a milhões de pessoas e proporcionar cuidados mínimos de saúde a gente indefesa.
Muitas vozes se levantaram, no último meio século, a denunciar as injustiças do capitalismo selvagem: Martin Luther King, João XXIII, Paulo VI, Oscar Romero, Helder Câmara, Teresa de Calcutá, Raul Follereau, Nelson Mandela, João Paulo II, Dalai Lama e tantos cidadãos anónimos, integrados ou não em instituições religiosas e não-governamentais e deram o melhor de suas vidas à causa da justiça e da igualdade entre os povos, sobretudo dos deserdados e oprimidos.
Este é um tempo de crise, porque a nova ordem internacional que o capitalismo selvagem fez surgir, ainda não tem contornos sistematizados.
Uma coisa é certa: Já não é possível rejuvenescer os tradicionais sistemas económicos e políticos do comunismo, do socialismo, ou mesmo da social democracia. Esses são regimes do passado que, mesmo remoçados, não conseguirão adaptar-se às novas realidades.
O mundo precisa de doutrinas económicas que tenham o homem, a liberdade, a justiça, a igualdade e a solidariedade como princípios básicos de toda a actividade humana e do relacionamento entre os povos.
O Ocidente, considerado desenvolvido e rico, muito tem a aprender com as experiências milenares de povos da Ásia, da América Latina e de África. Alguns países pequenos, para se protegerem dos mais fortes, tomaram a defesa intransigente dos seus povos e das riquezas naturais e tentam novos sistemas económicos não alinhados, para fugir à ganância do capital.
Oxalá os que se consideram senhores deste mundo, com a ajuda dos estudiosos da economia e das ciências sociais, saibam interpretar os sinais que aqui e ali ressaltam de interessantes experiências de empresas de economia solidária.
Em tempos de turbulência e de crise, importa que todos reflictamos, com abertura de inteligência e do coração, nas aspirações dos povos.
Todos trememos perante o expectro da incerteza do amanhã e pela perda da qualidade de vida e do bem estar que temos, por vezes, à custa de muitos homens e mulheres privados de direitos fundamentais.
Oxalá a humanidade e os responsáveis das nações entendam os sinais dos tempos e o clamor dos homens, para que se implante uma nova ordem internacional, onde a paz e a prosperidade se sirvam à mesa de todas as nações. A verdade é que “um mundo melhor é possível”.
Leiria, 14 de Outubro de 2008
José Gabriel Ávila

Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

DO AEROPORTO DE PONTA DELGADA E DA SAÚDE COMO DESTINO

1.- Os açorianos sujeitam-se, por vezes, a situações inconcebíveis que, caso acontecessem a cidadãos de outros países, que delas apresentariam protesto junto de instâncias competentes.
Viajei, para Lisboa, numa quarta-feira, no primeiro vôo da manhã da Sata-Internacional. Em Ponta Delgada, o movimento do aeroporto era intenso: passageiros com destino a Lisboa, Porto, EUA e para as outras ilhas geravam filas enormes e os poucos balcões de check-in não deram vencimento atempado. Resultado: o voo atrasou mais de meia-hora e os outros também sairam fora de horas.
Não foi a primeira vez que constatei a escassez de balcões no serviço de check-in do aeroporto João Paulo II. Isso gera uma enorme desorganização e até ansiedade nos passageiros, além da má imagem que provoca nos utentes.
Com as normas de segurança implementadas a partir do fatídico 11 de Setembro, esperava-se que a ANA criasse instalações adequadas à fiscalização, de passageiros e da sua bagagem de mão. A revista faz-se à vista de todos - passageiros ou não -, sem se acautelar, minimamente, a privacidade e pessoalidade de cada um. Qualquer passageiro é tratado, indiferentemente, como potencial terrorista ou criminoso e é nesse quadro que me sinto, quando o/a segurança me obriga a despir o casaco, a despejar os bolsos, a abrir as malas de mão para vasculhar os meus objectos pessoais e até a retirar o meu PC da respectiva pasta. Ao que chegaram os procedimentos da alegada segurança em viagem, pela qual também pagamos, e não pouco!...Não sei mesmo como é que estas situações se conformam com a certificação de qualidade que o aeroporto ostenta.
O hangar do Aeroporto de Ponta Delgada, necessita, de ser ampliado e melhorado, quanto antes, para responder, adequadamente, às novas exigências e ao crescente tráfego. Compete às autoridades regionais exigirem da ANA E.P. essas benfeitorias, antes que os futuros donos privados as rejeitem, alegando inviabilidade económica.
Ao chegarmos a Lisboa, o impensável aconteceu: fomos informados que teríamos de passar pela Polícia de Fronteira, para fazer prova da nossa nacionalidade, porque aquele era um vôo internacional, com origem em Boston. Um mal estar e uma revolta silenciosa se gerou nos passageiros, pois quem vinha de Boston já passara pelo serviço de estrangeiros e fronteiras do aeroporto de Ponta Delgada. Porquê obrigar todos os passageiros a passarem pelo crivo da polícia? Serão os Açores um país independente?
Manifestei o meu protesto ao agente que me fiscalizou, falei-lhe do Acordo de Schenguen e disse-lhe que aquelas eram atitudes que alimentavam o espírito independentista dos açorianos. Então peçam a liberdade! - respondeu-me o agente, com voz forte e arrogante.
E lá seguimos nós, barafustando contra a prepotência de um serviço que, em vez de zelar pela igualdade de tratamento de todos os portugueses, discrimina os passageiros procedentes das Ilhas, como se eles residissem em país terceiro.
Pobre país este, cujos governantes nacionais ainda não perceberam que, discriminando e segregando cidadãos de um pequeno arquipélago Atlântico, mas maior que o continente português na sua Zona Económica Exclusiva, e arvorando-se em senhores desse território marítimo, cavam, cada vez mais fundo, a distância e a discriminação portugueses de lá e de cá!...
2.- O turismo continua na ordem do dia, como actividade económica de importância crescente na Região.
O tema do Dia Internacional, este ano, tem tudo a ver, com as nossas potencialidades naturais, cuja riqueza é cada vez mais reconhecida e divulgada. Importa, apenas, que saibamos responder aos interesses dos nossos visitantes.
Há uns anos atrás, quando o sol e a praia eram os melhores requisitos de qualquer destino, julgávamos que nunca entraríamos nas rotas dessa actividade económica, hoje, provavelmente, a mais dinâmica a nível mundial. Mas com o avanço da poluição e da camada do ozono, novos valores se dinamizaram: a ecologia, a protecção da natureza e do planeta, a preservação dos ambientes e sítios despoluídos, o aproveitamento das águas termais, etc. Todas estas qualidades possuem os Açores, de tal forma que, o destaque dado pelos grandes meios de comunicação internacionais, tem excedido todas as espectativas dos operadores económicos locais e dos próprios governantes.
Neste contexto, começa a ganhar dimensão o turismo da saúde. Espera-se que esta nova vertente atraia mais e novos investidores e entusiasme clínicos e governantes a oferecerem, em todas as ilhas, melhores cuidados primários e diferenciados de saúde. Ganharíam também os residentes, com estas valências. Afinal, o turismo necessita sempre de um bom serviço de saúde.
Se o turismo nos Açores para além da natureza e do ambiente despoluídos enveredar pelo novo segmento de mercado virado para a prestação de cuidados de saúde, mercado não faltará, concerteza!
Leiria,2 Out 2008
José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536

Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

ADEUS SENHOR PROFESSOR DIAS DE MELO

Visitei-o, pela última vez, há cerca de duas semanas. Quando me abriu a porta, após ter tocado à campanhia por três vezes, encontrei-o já bastante fragilizado. Dias antes, o João Luís Medeiros tinha-me enviado um e-mail, avisando-me do seu debilitado estado de saúde.
Já não era o mesmo Senhor Professor (era assim que o tratava) que encontrara em Julho na sua casa da Calheta de Nesquim, no Alto da Rocha do Canto da Baía. Dias de Melo recebeu-me então, com uma evidente debilidade, mas feliz por estar ali, onde fazia questão de terminar muitos dos os seus livros. Já cortaram as faias, agora já vejo a baía toda, um pouco do porto e o Terreiro da Calheta.
Passados poucos dias soube que partira muito doente para o Hospital de Ponta Delgada, para nunca mais voltar à sua Cabana do Pai Tomás.
O nosso último encontro foi, como era habitual, no seu pequeno escritório que repartia com o quarto de cama, coberta de livros e de jornais. Nas paredes, as suas fotos do Pico, - Dias de Melo era um amante da fotografia e fazia-se acompanhar, habitualmente, pela sua máquina – denotando o seu apego às Pedras Negras.
Sentámo-nos, eu na cadeira de visitas, ele na cadeira da pequena secretária de madeira. Sobre ela o computador portátil, fechado, que tantas arrelias lhe dera quando perdia textos que levara horas e horas a trabalhar.
(Ó José Gabriel, podes vir aqui ver o que se passa com o meu computador? Levantei-me muito cedo e estive a trabalhar até agora, estou muito cansado e agora não encontro o texto. Quando é que vens? ...Obrigado, pá e até logo. E lá ia eu, ciente dos meus poucos conhecimentos de informática, recuperar o que um pequeno clique tinha guardado, sabia-se lá onde. Resolvido o problema – ele tomava nota dos procedimentos que deviam ser feitos em situações semelhantes – vinha mais uma conversa em que ele contava mais um episódio do livro que tinha entre mãos, numa linguagem tão correcta e tão viva que não resistia a ficar mais um pouco. Despedia-me dele sempre com o Adeus Senhor Professor! e ele: até logo, e obrigado!)
Na última visita, perguntei-lhe se tinha algum livro entre mãos, se continuava a escrever, mas DM fez que não ouvira. Percebi que a pergunta atingira a sua evidente incapacidade de continuar a ser o operário da escrita, cuja arte recriou tantas histórias pessoais e colectivas, nomeadamente dos baleeiros da sua terra. Noutra ocasião dissera-me: Gostava de ter ido para a Marinha Mercante porque lá tinha muito tempo para escrever.
Falei-lhe do Manuel d'Angélica, com 82 anos, seu antigo feitor, que diariamente vai ao Curral da Pedra na sua burrinha. Mandei-o embora, mas expliquei-lhe porquê e ficámos amigos. Contei-lhe que o António José Faidoca, antigo baleeiro, me dissera na festa da Piedade que nada sabia do seu estado de saúde. O António José é um bom rapaz. Recordei-lhe que a Festa da Sra das Mercês, era no final do mês e que num dos seus livros contara uma viagem tormentosa, debaixo de mar e de ventos fortes, à Manhenha, mas nem um comentário. Falei-lhe do João Luis de Medeiros: Esteve cá três vezes, e do Rui Guilherme de Morais: Está em casa doente. Tenho que ir visitá-lo.
À nossa volta, estantes de livros e mais livros, alguns gravadores e mini-cassetes, onde guardou estórias, num discurso narrativo tão vivo e tão perfeito que bastava copiá-las para o PC. Decorando prateleiras, estão cachimbos. Foram quase todos oferecidos. Alguns nem cheguei a usar. Levaram alguns para a exposição, mas ela é que tratou disso. Junto à porta do escritório, uma estantezinha de madeira, que ele mandara fazer a um carpinteiro, com CD,s de música clássica, que ele ouvia alto em bom som. Em frente, a impressora que tantas cópias tirou, aguardava um clique para dar à estampa mais uma página da sua criação literária ...
A nossa conversa foi-se enchendo de silêncios... Há uns meses, ter-me-ia dito: Já te vais embora? fica pr'aí mais um bocado!
Despedi-me do escritor/baleeiro. Desculpa, mas não posso ir lá abaixo! Adeus! Fechei a porta, comovido, consciente de que aquela fora a minha última visita.
. . .
Ao longo de mais de 20 anos, convivi muito de perto com Dias de Melo. A sua amizade proporcionou-me um amplo conhecimento da sua personalidade e da sua história pessoal, como se fossemos da mesma idade. Revelou-me as reais pessoas e circunstâncias que recriou em muitas das suas obras, relatou-me casos de injustiças, confidenciou-me vivências e amores juvenís e os ambientes estudantís, da sua muito querida cidade da Horta, falou-me das suas amizades, ambientes sociais e das suas actividades culturais e jornalísticos em Ponta Delgada. Fernando Namora e Fernando Assis Pacheco, foram escritores de relacionamento estreito. Influências literárias teve-as de Ferreira de Castro, de J.Steinbeck, Tolstoy... Lia muito e não raro o ouvi considerar uma ou outra obra como muito boa, independentemente do seu autor.
Seu pai -emigrante e sindicalista em San Francisco, ao tempo de Trotsky- marcou, decisivamente, as suas convicções sociais e políticas e a sua militância comunista; a tia Maria Hermínia, - sempre ela, em todas as conversas - a abertura aos escritores proscritos.
Irmão, por tradição familiar, do Império da Trindade, a Dias de Melo, nunca ouvi qualquer referência ofensiva à religião ou às igrejas. Falou-me, com carinho do seu padrinho padre, homem simples e bom, amigo dos pobres, que nunca mais visitou, desde que fora para a Graciosa.
Dias de Melo foi um denunciador da injustiça estabelecida, um escritor evangélico como lhe disse um dia o Pe Manuel António Pimentel, amigo de verdade.
Figura de referência obrigatória, em todas as conversas sobre baleias, foi Mestre José Faidoca, símbolo maior do baleeiro, grande homem do mar, como ele não havia outro no sul do nosso Pico. Outros mestres conhecia de grande saber nas Lajes, Ribeiras e Calheta, mas Mestre José Faidoca todos superava. E contava-me histórias da “Vida vivida em terra de baleeiros” a comprovar a sua predilecção por ele.
O ciclo da baleação terminou no início da década de oitenta. A extensa obra de DM permitiu, porém, projectar a saga baleeira para além desse tempo, pois o escritor/baleeiro transformou em epopeia a penosa, arriscada e, por vezes, trágica actividade marítima, dos marinheiros do sul do Pico.
Nem todos os seus livros versam a temática baleeira, mas todos eles abordam questões sociais e culturais, reveladoras da identidade de um povo. Importa que investigadores e estudiosos saibam aproveitar o legado que nos deixou.
Com a morte deste grande escritor açoriano e português, paladino da justiça e da verdade, “A montanha cobriu-se de negro”.
Adeus, Senhor Professor!
Leiria, 25 de Setembro de 2008
José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536

Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

AMANHÃ JÁ É TARDE!

Regressei, a São Miguel. Continuo a dizer que esta não é a minha terra. A minha terra é o Pico, apesar de viver há mais tempo nesta ilha de que também gosto e que procurei conhecer a sua rica história e vivências.
Hoje fui a Vila Franca do Campo. Não sei porquê mas acho-a muito parecida com as Lajes; fica virada a sul, tem o cheiro e sabor a mar, e tem gente simples e acolhedora. É uma vila alegre, com grandes tradições e uma cultura popular muito rica.
Fui à procura das autenticas queijadas da vila para, imaginem, fazer uma mesa de productos regionais açorianos, num casamento a realizar no Alentejo. Comprei também morcelas – de quatro produtores diferentes. Os queijos serão adquiridos em Lisboa, que os lá há de todos os tipos, como aqui.
De regresso, entrei na Ribeira Chã - freguesia modelo de actividades artesanais, implementadas pelo dinamismo do saudoso Pe João Flores. Procurei uma boneca de folha de milho, que há uns anos era uma das recordações mais produradas da Ilha do Arcanjo, mas uma simpática octogenária, moradora, junto da Igreja informou-me: Olhe, quem fazia as bonecas era a Conceição Frade, mas ela morreu e isso acabou!
Acabou, como? - pensei eu. Então um producto artesanal tão interessante e tão divulgado acaba assim, com a morte de uma artesã? E ninguém na Ribeira Chã aprendeu aquela arte de moldar a folha seca do milho e de reconstituir trajes antigos de homens e mulheres nas labutas da terra ou nos mais variados passos do quotidiano de outrora?
Será o João da Rita o último oleiro da Vila Franca, pois os filhos não quiseram seguir as pisadas do pai e do avô, que gelaram os ossos com o amassar do barro frio, e penaram com os calores dos fornos em que cozeram as suas peças de cerâmica?
Será que o artesanato, entre nós, é uma actividade em vias de extinção, ao contrário do que sucede noutros países em que é considerada arte nobre porque cada artefacto ou objecto de arte, é único e irrepetível?
Durante anos, as rendas, bordados e os trabalhos em marfim e osso de baleia, eram considerados produtos típicos de grande qualidade e constituíam uma valia e ajuda importantes para os orçamentos familiares.
Na Ilha do Pico, por exemplo, havia um comerciante que distribuía, em volta da ilha, pelas rendeiras, novelos de linha e moldes consoante as encomendas. Quem mais rendas ou naperons fazia, mais ganhava. Como era interessante ver raparigas e mulheres, sentadas ao balcão e sempre dando ao dedo, enquanto conversavam, com quem passava!...
E quantos rapazes, autenticos artistas, não produziram artefactos em marfim e osso de baleia, para exportação?... O Gualter Barreto, o Dimas Soares, o António Manuel Garcia e tantos outros!...
O artesanato de qualidade é uma arte nobre porque apela à criatividade do artesão.
Quando o turismo constitui um sector económico de crescente importância para os Açores, não entendo, por que razão o artesanato não entrou nos curricula das escolas, sobretudo das de formação profissional. É da máxima urgência que tal aconteça. Caso contrário, estaremos a vender ao preço da chuva e sem mais-valia, “souvenirs” das nossas ilhas produzidas, em série, na China.
Há dias descobri numa livraria desta cidade um interessante livro do economista Álvaro Santos Pereira, intitulado: Os mitos da economia portuguesa, (Guerra e paz, 2007). O autor, professor da Universidade de York, afirma que Portugal deve investir mais nos sectores tipicamente portugueses e sita o exemplo do Fado, Futebol e Fátima de quem podem advir mais valias significativas. Se os 3Fs, presentemente é que estão a dar quer a nível nacional como internacional, devido às estrelas Cristiano Ronaldo, Marisa e à devoção à Senhora de Fátima, “porque não investir mais nessas vantagens comparativas?” (op.cit pag.192)
Julgo que esta sugestão se aplica também a nós.
Temos de apostar, em força, investindo na inovação das nossas produções locais e artesanais, das nossas potencialidades naturais, da tipicidade da nossa cultura. Imitando os bons exemplos, “não há mal nenhum nisso, como fizeram a Alemanha nos anos 50, Portugal nos anos 60, a Coreia do Sul, Singapura, Taiwan e agora a China” (op.cit.).
Oxalá não percamos tempo demais a discutir o quem e o porquê, em vez de avançarmos para o como fazer. É que amanhã, já é tarde!
José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536

Sábado, 13 de Setembro de 2008

ESCRITA EM VIAGEM

1.-O barco deixou o porto da Horta e navegou, rumo a São Miguel, ao largo da costa sul da Ilha do Pico.
Esta rota traz-me à memória as viagens dos navios da Insulana.
Quando fui pela primeira vez para São Miguel, há 50 anos, fiz viagem da Horta, no Carvalho Araújo. Só me recordo de embarcar nas Lajes do Pico, no Cedros e recomendado ao Senhor Ferreira.
Esta viagem de hoje, teve para mim a vantagem de poder passar a ilha em revista e de apreciar, do mar, a ocupação do território, sempre à sombra da Montanha.
No princípio, ela cobriu-se de um manto de nuvens, para esconder a sua sumptuosidade mas, ao passar pelas Lajes, ela retirou a cobertura cinzenta como que a dizer: esta imagem que guardas da infância, vai acompanhar-te, até à volta.
No mar tranquilo, um cardume de golfinhos acompanhou-nos cerca de uma milha. Dizem que este lado da ilha é o maior santuário de baleias e golfinhos do Atlântico Norte. Por isso, são muitos os visitantes que procuram a Vila Baleeira para observação de cetáceos. Estes andam por aí, quase adormecidos e quem deles se abeira, extasia-se com as peripécias seja dos golfinhos, seja com a grandeza dos cachalotes, dormindo sobre as águas.
Passada a Ponta do Arrife, vejo, ao longe, a Calheta de Nesquim e, adiante, o farol da Ponta da Ilha virada a São Jorge e à Terceira, que hoje não se vislumbra, devido à claridade.
De repente, ouço o foguete rebentar, trá-pum-trá-pum-trá-pum, os baleeiros saltam para os botes na Lagoa de Cima e, na taberna do Tibério o rádio em altos berros: Alô Rosa Maria, Rosa Maria, 61 chama, escuto...
Já lá vem os vilas e os ribeiras!-grita Mestre José Faidoca. É uma baleia grande, ali pr'à ponta do Topo. Nã vai escapar!
Os calhetas, Levados pela Medina, passam o farol da ponta da Ilha e entram no canal em busca do seu ganha pão. Em terra, todos ligam ao rádio, para saber quem trancou primeiro.
-Ai Sr.Bom Jesus, trazei o meu home são e salvo!
-Nem pròs lepras, nem pròs ribeiras. Essa baleia grande vai vir trancada p'lo bote de Mestre José Faidoca!...
Tantas histórias contadas e outras tantas por contar.
J.Dias de Melo, parece que o vejo ali, no Alto da Rocha do Canto da Baía, à porta da cabana do pai Tomás, chapéu de palha e cachimbo fumegante; ou estará sentado à velha máquina de escrever, e mais recentemente ao seu PC portátil, trabalhando a escrita, mal o sol nasce?...
A baleia, sempre a baleia, o mar, sempre o mar, este mesmo por onde navego, as saudades da minha terra, já distante...
José Dias de Melo foi e ainda não voltou...
Senti a sua falta, pois, com o realismo que só ele e uns poucos têm, não ouvi contar a história do Delegado Marítimo que foi transferido das Lajes, contra sua vontade, para a capitania de Aveiro, por ter protegido os baleeiros da Calheta de um velho e conhecido armador...
Para Dias de Melo, a injustiça é a mãe de todas as guerras e a honra a mãe de todas as virtudes.
2.- A viagem no “Santorini” decorre dentro da normalidade, apesar da ondulação de noroeste baloiçar, constantemente, o navio.
No final de Setembro, a operação chega ao fim, mas aguarda-se que o novo barco faça viagens, durante o ano.
Num inquérito lançado aos passageiros pela Atlanticoline, pergunta-se se se concorda com viagens todo o ano. É claro que sim! Se o turismo de natureza e as actividades subquáticas estão na moda, e estas ilhas são um mundo por descobrir e têm um inverno primaveril, há que apostar neste meio de transporte, em viagens rápidas e frequentes, sobretudo entre os grupos central e oriental.
Discordo das viagens a um euro para jovens, (se bem que o cartão interjovem custe 49 euros) e também do tarifário para idosos a 11 euros. É injusto pois bebés e crianças não tem, incompreensivelmente, qualquer benefício, o que onera as viagens de muitas famílias.
Ainda há dias, um jovem dizia não perceber por que era mais caro viajar de autocarro entre a Lagoa e Ponta Delgada que ir de São Miguel à Terceira, de barco.
Quando são os próprios jovens e idosos que discordam das benesses que recebem é porque consideram-nas injustas e incorrectas.
Barcos, sim, todo ano, mas a preços equilibrados e justos para todos.
José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

DIFICULDADES NA VENDA DO VINHO E NA SAÚDE

1- Vai uma grande azáfama por esta Ponta da Ilha do Pico virada a São Jorge e à Terceira. Antes da Festa da Padroeira, Nossa Senhora da Piedade, que se celebra a 8 de Setembro, a maior parte dos pequenos vitivinicultores da Ponta, vindimam na Engrade, no Calhau, no Cais do Galego, na Baixa e na Manhenha. O ano foi farto em uvas, dizem quase todos em roda da Ilha. Até ao fim de Setembro, há as labutas e o convívio nas adegas, antes que o Outono traga as naturais alterações climatéricas.
A grande dificuldade está no que se vai fazer com o resto do vinho do ano passado. Vender? Não há quem compre a preço que compense as despesas que o amanho da vinha e o fazer do vinho acarretam.
A Cooperativa Vitivinícola ainda não pagou, totalmente, aos sócios as uvas do ano passado. A situação agrava-se, também, para os produtores do vinho verdelho, que apesar de mais duradoiro, é de venda difícil devido ao elevado preço. Os mais idosos, perante a carência e os custos da mão de obra – Já ninguém quer trabalhar! -, decidem abandonar as vinhas, para deixar crescer faias e incensos. Ficam, pr'aí! Ao menos o brejo e o silvado não crescem! - Desabafava há dias o meu vizinho.
O que impressiona é que, nesta Ponta da Ilha, já se faz vinho de cheiro de qualidade reconhecida e apreciada por gente do continente, naturais do Alentejo ou do Norte. Esse produto carece, porém de embalagem adequada à comercialização. Não se pode continuar a vender em restaurantes, vinho do Pico avulso, sem uma imagem comercial que compense os vitivinicultores e os incentive a continuar a produzir. Não basta alegar-se junto das instituições europeias que o vinho de cheiro é um produto típico e artesanal e que faz parte da ementa dos também típicos e ancestrais jantares do Espírito Santo.
Há que encontrar incentivos para a produção das vinhas tradicionais. Caso contrário, a Paisagem da Cultura da Vinha, Património Mundial, corre o risco de passar a ser apenas reserva florestal, e o afamado vinho típico do Pico desaparecer. O imparável envelhecimento da população pode precipitar o fim do tão saboroso vinho de cheiro do Pico.

2. Já aqui trouxe à reflexão questões relacionadas com a saúde da Ilha do Pico. Embora tenha havido melhorias significativas, não são tantas como deveria esperar uma população com uma significativa taxa de envelhecimento, por isso propensa aos achaques naturais da idade.
Contou-me há dias um amigo residente aqui na Piedade, Concelho das Lajes do Pico que, para ir a uma consulta de um especialista de fora, no Centro de Saúde de São Roque, teve de ir primeiro à secretaria do Centro de Saúde das Lajes buscar uma credencial, para apresentá-la ao médico no Hospital do Cais do Pico. Resultado: fez 60 Km, em viatura própria, quando, e se os serviços da Unidade de Saúde de Ilha (???) funcionassem em rede, poderia ter feito apenas 40 Km. Beneficiavam os utentes que não fariam tantas despesas em deslocações, e os próprios serviços simplificariam os procedimentos administrativos. Não foi para isso que abriram as lojas do RIAC e uma aqui na Ponta da Ilha, há um mês? Não foi para facilitar a vida aos cidadãos, nomeadamente aos mais idosos, cujas dificuldades económicas e de deslocação são por demais conhecidas?
No continente há localidades do interior onde os utentes, com a ajuda de monitores preparados, solicitam consultas nos Centros de Saúde, via internet. É um benefício de grande alcance que evita viagens sempre aborrecidas e dispendiosas, para saber: primeiro se há vaga, depois para deixar a documentação porque o médico de família está ausente e não se conhece a agenda dele e, por último, para ir à urgência porque a doença agravou-se e o senhor doutor só assim atende os seus doentes. Esta é uma situação vulgar. Todos a conhecem mas pouco ou nada se faz para alterá-la. Porquê se existem meios tecnológicos que permitem resolvê-la a bem das populações?
Já aqui o afirmei: os açorianos têm direito aos bens da saúde e aos mais elevados níveis de qualidade dos cuidados básicos e diferenciados existentes no país; vivam eles em Lisboa, no Porto, em Coimbra, no Pico ou em São Miguel. É preciso que os responsáveis não o esqueçam, sob pena de estarem cometer uma grande injustiça que muitas vezes se paga com a morte de gente indefesa. E isso é crime grave!

Engrade, Pico 4 de Setembro 2008

José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

VOZES DA ILHA MONTANHA


1.- As instituições sociais e culturais nascem, normalmente, para responder a valores e interesses de pequenos grupos urbanos e rurais. Em razão deste princípio, inerente à actividade humana, surgiram os núcleos familiares, populacionais, as comunidades religiosas, as academias, as escolas, as universidades, os núcleos laborais - empresas, cooperativas, sindicatos, associações profissionais e de classe - ... e também as filarmónicas, grupos corais, orquestras, etc.
A actividade musical foi, desde sempre, a que maior envolvimento teve das pequenas e grandes comunidades, não fosse a arte dos sons comparada à beleza de Deus e aos melhores dons que a inteligência humana possui. Talvez por isso, se diga que cantar é rezar duas vezes.
Nas solenes celebrações litúrgicas, a música sacra coral afirmou-se como suporte imprescindível do culto divino e da transmissão da Palavra de Deus. Primeiro em latim, a língua oficial da Igreja católica; após o Concílio do Vaticano II, na lingua vernácula, como já o faziam outras religiões cristãs.
A mudança provocou o encerramento de quase todas as capelas e o silenciamento dos orgãos das igrejas. Nasceram, entretanto, os grupos corais. Inicialmente, sem preocupações polifónicas, apenas com o intuito pastoral de fazer com que os fiéis participassem no canto litúrgico. Nas últimas décadas, e devido à formação musical dos membros dos grupos corais, a polifonia regressou ao canto litúrgico, com qualidade apreciável!
O Grupo Coral das Lajes do Pico, nasceu nas circunstâncias atrás descritas, para solenizar a liturgia paroqual. Mas não ficou por aí. Expandiu a sua actividade para a música coral de cariz profano, integrando no seu repertório composições clássicas, melodias de autores açorianos e temas do folclore destas ilhas.
25 anos, após uma actividade constante, não só no arquipélago mas no continente português, Espanha e Canadá, o Grupo Coral celebrou, festivamente, esta data, integrada na abertura da Semana dos Baleeiros, onde fizera o seu aparecimento.
O seu Maestro, Manuel Emílio Porto, autor do livro 25 anos a cantar – Grupo Coral das Lajes do Pico, recorda momentos determinantes da vida desta instituição, cuja qualidade e mérito a ele se fica a dever, não só como precursor dos corais açorianos, mas também como divulgador da música folclórica e de temática açoriana que tão bem soube harmonizar.
Manuel Emílio Porto, tem o seu nome ligado a duas composições de grande qualidade: Montanha do meu destino, poema do picoense Prof.Doutor José Enes, título do segundo de três albuns editados pelo Coral e Santa Maria Ilha à roda, poema do também picoense José Carlos, em homenagem à Virgem. Nestas duas composições, MEP revela todos os seus dotes criativos e o profundo conhecimento das técnicas de composição, harmonia e polifonia que o tornam (arrisco em dizê-lo) um dos nossos mais importantes compositores de todos os tempos, ao lado de Francisco de Lacerda, Tomás de Borba, Pe Serrão, entre outros.
Manter um Coral 25 anos a cantar, com a qualidade que lhe é reconhecida, formado por elementos de uma pequena comunidade rural, é, não só mérito da dedicação, persistência e do entusiasmo do seu Maestro, mas também de todos os elementos do grupo, da comunidade em geral e dos responsáveis governamentais que apoiam aquela instituição pelo meritório trabalho desenvolvido.
Oxalá outros grupos lhe sigam as pisadas e as velhas capelas ressuscitem para cantar a beleza da música coral.

2.- A beleza da Montanha do Pico continua a atrair residentes e visitantes. Muitos optam por subi-la para disfrutarem, do ponto mais alto de Portugal, a dimensão das ilhas do grupo central. Para auxiliar os visitantes foi inaugurada, em Junho passado, a Casa da Montanha que já registou mais de 5 mil subidas. Importa, todavia que se dote aquelas instalações com equipamentos de primeiros socorros e com alguns móveis onde, no final da viagem, os quase desfalecidos, possam sentar-se e recuperar forças, em condições minimamente cómodas. E porque o imóvel integra espaço para um bar, seria da máxima utilidade que, ou se concluísse esse equipamento ou se instalasse máquinas automáticas com bebidas e outros bens alimentares de consumo rápido.
À consideração de quem de direito.

José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Domingo, 24 de Agosto de 2008

TANTO PATRIMÓNIO ESCONDIDO E ABANDONADO!...

O Manuel d'Angélica, deve ser o único cidadão da Ponta da Ilha, virada a São Jorge e à Terceira, que diariamente vai fazer as suas compras, ao Curral da Pedra, transportado pela sua burrinha. Ele é a imagem de um passado não muito distante. Também já desapareceram as argolas das entradas das casas e adegas, onde as alimárias, por vezes impacientemente, aguardavam as ordens dos seus donos.
O antigo carro de bois, bem de que só dispunham as famílias abastadas, apodreceu no canto das atafonas. Os seus vestígios, porém, continuam nos sucalcos dos caminhos velhos, pela costa adiante, por onde, antigamente, se transportou o vinho e outros produtos da terra.
Esse património carece, todavia, de sinalização adequadada.
Diariamente, por ali passam, a pé, visitantes estrangeiros. Seguem trilhos pedestres de uma beleza paradisíaca. O da baía da Engrade, ameaça a integridade física dos transeuntes e se não fôr reparado, com a acentuada erosão costeira, pode mesmo provocar uma desgraça e desaparecer.
Os visitantes deparam-se com uma enorme falta de informação. Julgo que as autoridades ainda não entenderam as enormes potencialidades naturais e patrimoniais que têm para oferecer, se devidamente sinalizadas.
O antigo caminho velho do primeiro povoado do Pico – as Lajes – foi construído em calçada romana que ainda lá está, bem conservada. Lá está também um poço de maré. Naquela zona, onde se diz terem desembarcado os primeiros povoadores da Ilha está a primeira Igreja, dedicada a São Pedro. Na Ribeira do Meio, subúrbio da Vila Baleeira, há uma pequena ponte romana muito antiga, sobre a Ribeira do primeiro povoador, Fernão Álvares, por onde passou a antiga estrada em volta da Ilha. É de lamentar que nenhum desses monumentos esteja acautelado e sinalizado; jazem num abandono e desleixo que impressiona os visitantes.
Os turistas estrangeiros que percorrem esta ilha a pé, não contestam o piso em terra das estradas, nem os difíceis acessos ao mar. A tudo se adaptam. Reclamam, sim, mais e melhor informação nos caminhos municipais e estradas regionais. Neste âmbito, julgo que nem as autoridades locais nem as regionais se aperceberam de pequenos/ grandes pormenores fundamentais para quem anda por esses caminhos do Pico, sem encontrar viv'alma e só na companhia da natureza.
Um caso flagrante é a placa indicativa da estrada de acesso ao aeroporto. Tão pequeno é o sinal que muitos condutores por ele passam, sem o notarem e quando dão por si estão no quartel de bombeiros da Madalena. No aeroporto, construíu-se, e bem, currais de vinha, semelhantes aos da paisagem património mundial. Esqueceram-se, no entanto, que sem uma explicação inicial plausível, a vasta área classificada será dificilmente reconhecida e visitada. O mesmo se diga sobre as diversas zonas de reconhecida importância natural espalhadas pela ilha e oficialmente protegidas.
Há um grande trabalho a fazer neste sentido, sem o qual, não é possível uma protecção eficaz da natureza e do património construído. Os residentes na Ilha do Pico, se forem convenientemente informados sobre as potencialidades das reservas e zonas naturais classificadas, serão os melhores garantes da sua protecção e promoção.
Há um bom exemplo de protecção patrimonial que merece referência elogiosa. Refiro-me à recuperação da Fábrica da Baleia da SIBIL, nas Lajes. Adquirida em tempos pela Câmara Municipal por desinteresse do Governo da época, foi, totalmente, reconstruída. Preservou-se o equipamento industrial, instalou-se equipamento multimédia para explicar aos visitantes a caça e a transformação dos cetáceos, dotou-se o Centro de Artes e de Ciências do Mar de loja de venda de livros e artigos temáticos e espaço para exposições e outras actividades culturais. (Por que não se deu idêntico destino à fábrica da baleia das Capelas?)
Espero que o Museu dos Baleeiros e o Centro de Artes em parceria frutuosa, promovam um património de que os picoenses se orgulham e que ainda hoje está bem vivo na realização das regatas de botes baleeiros.
A alma de um povo cimenta-se na sua história e sobre esta alicerça-se um futuro promissor.

Engrade, 21 de Agosto de 2008

José Gabriel Ávila C.P.536

Domingo, 17 de Agosto de 2008

A verdadeira noção de insularidade

Os habitantes de todas as ilhas só terão orgulho em ser açorianos, quando as suas necessidades básicas forem satisfeitas. E há ainda tantas carências na saúde e segurança social, na educação, no emprego, nos transportes, na economia... que merecem respostas mais consistentes e satisfatórias. Para que seja correcto afirmar: “é bom ser açoriano!”
Há dias, dizia-me alguém que veio pela primeira vez à Ilha do Pico:- Aqui sente-se mais o arquipélago. Olhe, ali, São Jorge... além a Terceira... Nós em São Miguel não temos esta noção de arquipélago, como vocês têm aqui!...
De facto, a insularidade açoriana ganha no grupo central a sua significação mais genuína. Aqui, a proximidade da ilha em frente gerou boas vizinhanças e criou laços e raízes tão profundos e antigos que atingiram as relações familiares como a genealogia, facilmente, demonstra.
Nesta Ponta da Ilha, virada a São Jorge e à Terceira, a cidade era Angra, que ficava na rota dos iates que ligavam o sul e o norte do Pico, São Jorge, das Velas ao Topo, e a Graciosa. Para Angra se ia trabalhar, estudar, ia-se para o Castelo, fazer tropa na fortaleza de São João Baptista, no Monte Brasil, que se descortina da Piedade; para a Terceira se foi quando os americanos se instalaram na Base das Lajes.
Os picoenses, da Terceira, fizeram a sua ilha adoptiva e lá as suas qualidades humanas e profissionais permitiram que se tenham destacado em diversos sectores de actividade.
Não admira, pois, que nesta quadra estival, regressem a esta “ilha maior” - feliz designação do poeta Almeida Firmino.
Esta semana, no porto do Cais do Pico, assisti ao desembarque de centenas de passageiros, vindos de São Miguel e Terceira, a bordo do “Express Santorini”. Não fiquei admirado. As estatísticas dos últimos anos revelam que a Ilha do Pico tem um tráfego de passageiros oriundos dos grupos oriental e central, superior ao Faial (não me refiro ao tráfego do Canal Faial/Pico). E todos os dias os navios ferries e os Expressos das Ilhas e do Triângulo rolam por esses mares, transportando gente que do mar faz o parceiro das suas vidas e a estrada que une esta parte do arquipélago.
Não admira, pois, que de há muitos anos para cá, as populações reivindiquem melhores e mais seguros portos para as ilhas do grupo central. Algumas dessas aspirações só foram, minimamente, satisfeitas. Resultado: a operação nos portos comerciais das Velas e de São Roque está condicionada ao espaço destinado a um só navio. Isso provoca que a operação de um navio/ferry, obrigue o navio acostado a sair e interromper a sua operação. Pese embora a dimensão populacional destas ilhas, não se poderá, por muito mais tempo, ignorar estas dificuldades e não fazer o que se impõe.
Ultimamente, o Governo dos Açores tem apostado no turismo de cruzeiros. A construção das Portas do Mar, em Ponta Delgada, foi um passo determinante nesse sector. Já o anunciado projecto de construção, na Horta, de um novo porto de passageiros que sirvirá as ligações inter-ilhas e os navios cruzeiros, me parece uma opção muito discutível e extemporânea.
Enquanto algumas ilhas não tiverem o essencial no domínio dos transportes marítimos, efectuar investimentos noutras de igual dimensão populacional e até económica, é favorecer a desertificação e a concentração, que tão maus resultados tem dado no arquipélago.
Rejeito a tese do crescimento económico a uma mesma velocidade, porque é impossível conter o dinamismo social. Porém, não me parece justo que o governo condicione a construção de infra-estruturas fundamentais, à execução de grandes projectos de questionável actualidade.
Os habitantes de todas as ilhas só terão orgulho em ser açorianos, quando as suas necessidades básicas forem satisfeitas. E há ainda tantas carências na saúde e segurança social, na educação, no emprego, nos transportes, na economia... que merecem respostas mais consistentes e satisfatórias. Para que seja correcto afirmar: “é bom ser açoriano!”

José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536

Domingo, 10 de Agosto de 2008

ABRIR PORTAS A TODOS

1.- Só esta semana tive oportunidade de visitar as Portas do Mar.
O empreendimento que se espera venha trazer novo dinamismo à frente marítima de Ponta Delgada, constitui diariamente, pelo que que me apercebi, destino nocturno para centenas e centenas de visitantes. A zona, neste verão quente e húmido, é aprazível e oferece espaços de convívio amplos e modernos, como outras idênticas construídas em cidades marítimas.
Li ou ouvi alguém defender que um dos maiores erros de Ponta Delgada fora a construção da Avenida Marginal. Discordo, totalmente. Conheço imagens da antiga cidade e parece-me que ganhou imenso com a sua expansão para as águas do Atlântico. Protegeu-se a sua zona costeira e alargou-se a área do primitivo núcleo urbano. Ponta Delgada é hoje uma cidade que se afirmou na costa sul da Ilha de São Miguel. O mesmo aconteceu também com a cidade da Horta e, proximamente, com a Ribeira Grande e a Praia da Vitória (que se cuide Angra do Heroismo!...). As cidades do litoral, sendo, embora, mais vulneráveis às intempéries, têm dinamicas de desenvolvimento que o mar -esse sétimo continente de possibilidades imensas – irá proporcionar.
Ponta Delgada abriu mais uma porta de saída para o mar, com instalações de retaguarda e equipamentos modernos, adequados às exigências de segurança nas salas de embarque e desembarque de passageiros, em tudo semelhantes às dos aeroportos. Tive uma agradável surpresa. A modernidade das instalações e a receptividade dos micaelenses a esta iniciativa, são a prova de que nos estamos a preparar para a nova economia dos tempos livres.
Há, todavia, alguns aspectos complementares que merecem aperfeiçoamento: a iluminação da Avenida que, numa larga faixa, é inexistente. Será que se aguarda a conclusão do parque de estacionamento subterrâneo? Fica a pergunta e o desejo que do entendimento das diversas entidades, resultem benefícios para o desenvolvimento e alindamento da cidade.

2.-O facto de se viver em ilhas, cuja reduzida dimensão populacional dá cada vez mais que pensar, provoca nos seus habitantes sentimentos de insatisfação.
Levam tudo para S.Miguel!”- lamentam uns. “Aqui nunca fazem nada!” - protestam outros. Este sentimento de um certo abandono pelos poderes públicos, gera nos cidadãos das chamadas “ilhas pequenas” atitudes de desconfiança nos governantes, sejam eles do poder local, regional ou nacional. E têm algumas razões, diga-se. Quem sofre na pele as consequências da dimensão das pequenas economias, geradoras de escassos empregos; quem sente no dia-a-dia a falta de produtos que, não sendo essenciais, dão mais qualidade de vida; quem convive, permanentemente, com a falta de resposta satisfatória às necessidades mais basilares da saúde, como sejam ter de se deslocar a outra ilha para tratamentos, cirurgias, consultas de especialidades e exames complementares de diagnóstico; quem tem de ir a outra ilha para efectuar escrituras, registos de propriedades, porque os serviços notariais não respondem; quem reclama energia eléctrica há largos anos ou o arranjo do caminho municipal por onde passa, em permanente mau estado de conservação e tem como resposta que não há dinheiro; quem ouve, vezes sem conta, dizer: estamos à espera duma resposta de São Miguel ou já pedimos, estamos à espera e não sabemos quando vem...etc, revolta-se e desmotiva-se porque sente-se impotente para ultrapassar esse estado de coisas. Por isso é que é voz comum ouvir-se: Vai tudo para S.Miguel...noutros lados fazem tudo, aqui não se faz nada e quando se faz é mal feito.
Este discurso derrotista, por vezes inverdadeiro, diz bem do pensar das pessoas das ilhas mais pequenas.
Só as gerações mais jovens, despidas de preconceitos, e mais confiantes no futuro podem alterar estas mentalidades que corroem o dinamismo das pequenas comunidades rurais.
Este é o problema para que urge encontrar rápida solução com respostas adequadas.
O amor pela terra onde se nasceu e se vive, por vezes não chega para suplantar o desalento de populações envelhecidas, cansadas por não serem nem ouvidas nas suas preocupações mais legítimas.
Este é um trabalho de todos: educadores, agentes sociais, governantes. Esta é a hora. Ou ganhamos as pessoas para o processo de desenvolvimento em todas as Ilhas, ou perdemos a unidade do arquipélago. Não há meio termo!

José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

Este é o melhor lugar do mundo!

1.-Por estas bandas da Ponta, virada a São Jorge e à Terceira, são evidentes os sinais de progresso.
Ainda há dias, duas emigrantes que daqui saíram para a Califórnia, constavavam as diferenças do tempo em que aqui viviam: Agora até temos uma farmácia. No nosso tempo, a escola era velha. Agora dizem que vão fazer uma nova, para essas crianças estudarem. Não há coisa melhor! Quando eu tirei a quarta classe, fui às Lajes fazer exame mas, como os meus pais eram pobres, fiquei por aí. Quando fui para América não fui à escola. Os filhos, o trabalho...então comprava o paper (jornal) e com o dicionário ao lado, lia o jornal. Foi assim que aprendi o inglês. Penou-se muito. A América tanto é dos sonhos como das desgraças. - rematou a mulher que, há 34 anos, não visitava esta terra.
De facto, quem, como eu, para aqui vem, desde que me conheço, houve uma grande evolução. Mas não foram os governos. Foram as pessoas daqui que fizeram estas coisas - comenta o meu vizinho Soares. A Escola nova, sim! vai ser muito importante.
Nos próximos dias, será inaugurado mais um posto do RIAC (rede integrada de apoio ao cidadão). Será o quinto da Ilha que ficará, totalmente, coberta, a distâncias convenientes para servir os cerca de 15 mil habitantes. Um luxo! – dirão alguns. Mas não. Um serviço de proximidade prestado pelo Estado aos cidadãos, que se tornará cada vez mais necessário, com o encerramento de serviços públicos.
Longe vão os tempos, em que as Repartições de Finanças abarrotavam de funcionários que se “escondiam” por detrás de balcões altos e de calhamaços antigos, onde se guardava o nosso património predial. Os utentes ali perdiam horas e horas à procura de um prédio de confrontações incertas, que poderia ou não estar inscrito na fazenda.
Hoje já não é assim. Está tudo informatizado – disse-me o Artur Xavier, funcionário de finanças em Leiria. Por isso, qualquer dia fecham a repartição das Lajes e vai tudo para a Madalena.
Não me repugna o encerramento de repartições públicas, desde que os cidadãos não fiquem prejudicados e possam aceder, mais facilmente e com proveito, aos serviços do estado, das autarquias, de entidades públicas e privadas.
É um caminho que está a ser trilhado, com vantagem para os cidadãos, a que não devem resistir os info-excluídos e muito menos os responsáveis políticos. As novas tecnologias da informação estão a alterar os procedimentos administrativos do Estado e permitem que os cidadãos acedam mais rápida e fácilmente ao chamado “governo electrónico”.
Os postos do RIAC deverão, funcionar como centros prestadores dos serviços das administrações central, regional e local, no âmbito do conceito do e-governement. Para isso é necessário que os serviços do estado, nomeadamente as Finanças, a administração regional e as Câmaras Municipais informatizem os seus procedimentos administrativos e os disponibilizem aos cidadãos.
É o novo conceito de democracia eletrónica que preside a esta autêntica revolução burocrática que aproxima os poderes e serviços públicos dos cidadãos e contribuintes, tornando-os mais transparentes e eficazes.
Daí a importância crescente dos centros da RIAC. Eles deverão ser as repartições públicas electrónicas de maior proximidade às populações. Se assim fôr, o cidadão comum, acreditará que o Estado e as suas instituições, estarão, de facto para servir as pessoas.

2.- António Guterres, Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, passou férias, uma vez mais, na Ilha do Pico. Ouvi, de alguns cidadãos, as melhores referências quer ao seu passado político, quer à sua integra personalidade, o que passados tantos anos, após ter-se livrado do “pântano”, convém salientar.
Os jornais não noticiaram a sua visita, nem os “paparazi” que vendem a privacidade dos “notáveis” dela souberam.
Manuel Alegre, há dias, recomendou a Ilha do Pico como destino ideal para férias.
António Guterres já fez essa opção há alguns anos, mas sem recorrer ao “barulho” dos média. O ano passado, ao tomar banho no porto da Manhenha, Guterres dizia à esposa: Este é o melhor lugar do mundo!

José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536

Domingo, 27 de Julho de 2008

NA ILHA DO PICO, A SAÚDE PRECISA DE TRATAMENTO

As Ilhas do Pico e do Faial são mais vizinhas do que irmãs.
Com populações quase semelhantes, abeirando os 15 mil habitantes, as duas ilhas tiveram sempre desenvolvimentos e destinos diferentes. O Faial, devido às potencialidades da baía do Porto Pim e do porto artificial, situado entre a Espalamaca e o Monte Carneiro, formou a sua cidade em terrenos planos e espaçosos. Implantou-se aí a primeira grande centralidade Faial-Pico, de tal modo que algumas freguesias da fronteira picoense (hoje do concelho da Madalena), chegaram a fazer parte do município da Horta, por serem mais fáceis as comunicações por mar.
Ao longo dos séculos, a cidade da Horta, antiga capital de distrito, foi naturalmente, dotada de infra-estruturas hospitalares, educativas, administrativas, comerciais e comunicacionais. O porto da Horta, estrategicamente situado no Atlântico e protegido pela Ilha Montanha, foi base de navios e de aviões; a Horta, centro de comunicações submarinas. Essas infraestruturas geraram empregos e atraíram mão de obra da Ilha em frente.
Ao Liceu da Horta ia-se tirar o quinto ano, porque só nos anos setenta surgiram os externatos particulares do Pico. Muitos ficaram pelo Faial e lá fizeram suas vidas, no quadro normal da mobilidade humana que procura futuro melhor quer no interior do país, quer no estrangeiro.
O Faial, devido à sua localização favorável, continua na dianteira em relação à Ilha em frente.
Acabou o ex-distrito da Horta e os funcionários dos serviços da Junta Geral e do Governo Civil foram integrados nas novas Secretarias dos Transportes e Turismo e Agricultura e Pescas e respectivas direcções regionais. Nada sobrou para a Ilha em frente. Numa partilha negociada de poderes entre as três ilhas capitais de Distrito, a Horta soube reivindicar a sede do Parlamento.
A estrutura hospitalar manteve-se, modernizou-se e ampliaram as instalações e valências; até a maternidade centralizou todos os nascimentos do ex-distrito. Na Ilha em frente, os hospitais concelhios passaram a centros de saúde com internamentos, servidos por clínicos gerais, mas sem os meios técnicos de diagnóstico de que usufruem doentes internados num hospital central.
Os picoenses, no sector da saúde, são descriminados, como são os corvinos, florentinos, jorgenses, graciosenses e marienses.
É verdade que, de tempos a tempos, há médicos especialistas que aqui se deslocam para consultas, mas a imprevisibilidade da doença, sobretudo da população idosa que forma esta ilha, obriga a que haja, em permanência, respostas adequadas aos direitos à saúde e à vida.
Vem todo este arrazoado a propósito da correria diária de doentes na lancha da manhã para o Faial. Ontem, às 8h15, a Maria da Felizbela foi à Horta fazer quimioterapia. Percorreu quase 60 Kms, desde a Ponta da Ilha à Madalena, mas faltava-lhe ainda passar o canal (30 ') que neste tempo “está c'ma meli” e fazer o trajecto, a pé, entre o cais da Horta e o Hospital (20 minutos, aproximadamente. Após o tratamento que, segundo dizem deixa o doente muito debilitado, houve que fazer o longo percurso ao contrário, regressando a casa à noite, já sem poder, e encontrar uma cama, para recuperar algumas forças.
Que forças, se pede a esta gente da minha Ilha, para resistir aos graves problemas que uma doença maligna infringe! Quantos sacrifícios para retardar a morte! Quanto penar!...Quantos gastos de magras economias, juntas em vidas custosas, precavendo que, no fim, “há-de vir a pior!”...
Dir-me-ão que os bombeiros transportam doentes - é verdade!- mas apenas os dos centros de saúde. Para quantos, diariamente, se deslocam ao Hospital da Horta para exames e tratamentos, não haveria ambulâncias que chegassem!...
Se, ao menos, fossem ressarcidos nos impostos destas despesas, haveria justiça fiscal. Mas nem isso!
Vai-se a São Miguel e à Terceira consultar médico porque na Horta não houve melhoras. Vai-se a Lisboa, por sua conta, porque nos Açores nada se adiantou.
-Gastei mas fiquei satisfeita. O Leandro, foi à Estefânia, à especialista em doenças de pele e melhorou! Em São Miguel não deram com a doença! Mas foi tudo à nossa custa!- desabafou a vizinha da adega em frente.
E o tema da saúde repete-se, vezes sem conta, em cima do cais da Madalena, nas Vilas e nas conversas por esses caminhos e adegas.
É o direito à saúde que se reclama, mais que uma estrada, um porto ou os aumentos da reforma.
Por aqui, não se morre de fome. Todos cultivam batatas, cebolas e legumes e, para além do trabalho na agricultura, pecuária e na construção, ainda há tempo para tratar das vinhas e das figueiras e de ir à costa apanhar um balde de peixe.
Vai, porém, faltando tempo para as entidades responsáveis perceberem que os que por aqui vivem vão-se acabando e que os mais novos, não se vão conformar com o tradicional tem de ser assim... e seja o que Deus quiser!...

José Gabriel Ávila
Jornalista C.P.536

Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

A EDA e os Silvas: LULA e CAVACO

1. Por estas paragens da Ponta da Ilha virada a São Jorge e à Terceira (nos últimos dias tem surgido tão visível que, à noite, até se vêem foguetes e faróis de automóveis), vão chegando os chamados bens do progresso, mas não com a velocidade com que se esperaria. Que o digam a Rosarinha e o João Candelária. Construiram uma adega muito asseada, com um jardim muito cuidado, mastro com a bandeira portuguesa, como que a dizer: aqui também é Portugal! mas, há anos, clamam por energia eléctrica que está a duzentos metros mais acima e continuam à luz da vela. Já falaram com este e aquele - gente ligada ao poder. Pensavam que também eram filhos de Deus, mas a EDA teima em não fechar o anel entre a Engrade e a Ponta da Ilha - umas escassas centenas de metros.
Não pretendo alimentar esperanças à Rosarinho, mas se algum dos Senhores da EDA ler esta crónica, mande fechar o anel. É que ao lado da adega da Rosarinha, um francês construíu uma, com projecto de instalação eléctrica aprovado e candeeiro à porta; mas, creio, que não perceberia a contradição de ter de cumprir as normas vigentes só para constar...
Se este clamor chegar ao céu, que o despacho seja célere e eficaz para que a Rosarinho volte e acreditar nos políticos.

2. Ouvi a entrevista de Mário Soares ao Presidente Brasileiro. Lula da Silva, o sindicalista e o operário fabril, revelou-se-me um governante pragmático, inteligente, portador de uma nova concepção da economia e da política. Lula provou que é possível os países terem relacionamentos saudáveis, preservando e afirmando a sua matriz cultural e independência nacional, no princípio da igualdade entre os povos, recusando a subserviência aos grandes grupos económicos e às nações mais desenvolvidas. De igual para igual.
Lula é o contrário dos políticos aristocratas que conhecemos em Portugal e na Europa - “gente fina”, comentou a minha vizinha Rosinha,- em quem o povo pouco ou nada confia. Puz de parte as minhas utopias, porque tenho apenas quatro anos para construir. E tenho de o fazer bem porque se não, vão dizer que eu não estava preparado para a Presidência.- afirmou o Presidente Brasileiro.
Com a célebre reprimenda “porque não te calas?” dirigida ao Presidente da Venezuela, na Cimeira Ibero-Americana, o Rei de Espanha demonstrou a mentalidade vigente e prepotente de políticos das antigas nações colonizadoras. Mas Hugo Chavez, não se intimidou e o incidente diplomático acabou por provar que há uma nova política emergente na América Latina e em África que vai ditar num futuro próximo o surgimento de uma nova ordem internacional e o fim do neo-liberalismo económico em que assenta a dominação capitalista.

3. Vem, a talho de foice, o recente veto político de Cavaco Silva ao Estatuto Político-Administrativo da Região, aprovado por unanimidade no Parlamento Açoriano e na Assembleia da República.
Não me admira, porque já aqui denunciei a visão centralista do Presidente da República que, alegando inconstitucionalidades em alguns artigos, mandou o Tribunal Constitucional analisar.
Na sua primeira visita à Região como Chefe do Estado, Cavaco expôs, de forma clara, a sua visão restritiva das competências dos orgãos de governo próprio e os representantes eleitos dos açorianos, numa atitude subserviente, acataram as reprimendas.
No continente português, a discussão sobre a regionalização volta, entretanto, à agenda política e a Europa das Regiões ganha novo dinamismo com a afirmação das nacionalidades. Restringir as competências das regiões igualando-os às das municipalidades é de um conservadorismo inaceitável, prejudicial ao desenvolvimento.
Nestes tempos de crise económica, importa que se encontrem formas de governo eficazes e inovadoras. Quem se agarra a arquétipos e figorinos do passado, a modelos económicos antigos e não se abre às utopias e à inovação, castra a evolução política e impede o desenvolvimento.
Há uns anos, afirmava-se que Cavaco Silva não era amigo das autonomias. Aí está mais uma prova.
Falta agora uma resposta lúcida, firme e consequente dos representantes eleitos dos orgãos de governo próprio. Sem subserviências, nem temores. De igual para igual, como dizia Lula da Silva a Mário Soares. Para que o povo acredite nas palavras.
José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Sábado, 12 de Julho de 2008

AS MULHERES E AS NOVAS LIDERANÇAS

As estatísticas dizem que há mais homens que mulheres. A causa, não vem ao caso. O que é certo é que, em terras pequenas, a sua influência começa a notar-se, talvez porque estávamos habituados ao predomínio do homem na família e na sociedade. Esta regra, porém, está a acabar.
Há uns anos, um destacado membro da comunidade portuguesa imigrante, de Fall River, dizia-me que as mulheres tinham um papel fundamental na gestão familiar: eram elas que iam aos bancos, às repartições públicas, às escolas, eram elas quem tomava a dianteira na aquisição do carro, da casa, eram elas quem mais depressa se integrava na sociedade norte-americana devido à aprendizagem do inglês e das relações comerciais. O homem, normalmente, resistia à integração social e passava os tempos livres no café e no clube, em tudo semelhantes aos da terra de origem.
Resultado: a mulher açoriana imigrante evoluiu mais depressa e com ela arrastou o resto da família. O homem, sobretudo pela falta de domínio da língua estrangeira, manteve-se à margem da sociedade que o acolheu, e só a dureza dos trabalhos na construção civil, bem remunerados, lhe proporcionavam alento para permanecer em terra estranha.
Nas zonas rurais e não só, o hábito antigo de que em casa manda o mais forte – o homem, está também a desaparecer.
Para tal estão a contribuir a escolarização da mulher e o emprego, nos serviços: administração pública, ensino, saúde e limpezas.
A mulher está menos sujeita às tarefas domésticas e o automóvel dá-lhe maior liberdade de movimentos e proporciona-lhe contactos interpessoais que, há uns anos, eram impensáveis.
Vem tudo isto a propósito do papel muito activo que um grupo de mulheres, ainda novas, estão a desempenhar na Irmandade do Império de São Pedro das Lajes do Pico. São elas as organizadoras da Festa: angariam irmãos para a oferta e distribuição de rosquilhas no arraial do Império (este ano foram mais de 70 açafates num total de cerca de 3 mil rosquilhas); organizam com requinte, eficácia e abundância o jantar tradicional das sopas do Espírito Santo (mesa posta para cerca de 700 irmãos e seus convidados); promovem marchas populares e verbenas na véspera, para angariação de fundos e suportam os encargos com as filarmónicas convidadas.
É um empreendimento de custos avultados cujo desempenho todos admiram e relevam pela organização, ordem e empenho, que arrasta também a colaboração muitos homens, sempre sob a orientação do grupo de mulheres, algumas delas com formação universitária.
Escrevi, há tempos, que a organização dos impérios do Espírito Santo proporciona a formação e o surgimento de líderes locais que, em meios pequenos, normalmente, falhos de recursos humanos devem ser aproveitados para o poder local, associações recreativas e culturais e organismos religiosos.
Há, todavia, quem pense que essas pessoas têm de enquadrar-se nos protótipos e modelos das instituições vigentes, algumas delas inactivas ou amorfas e sem qualquer influência na vida das populações.
O dinamismo social, não se compadece com modelos antigos e, muitas vezes, ultrapassados de instituições culturais, religiosas e políticas, concebidas e fundadas para fazer face a outros tempos e estruturas sociais diferentes.
O envolvimento de líderes locais emergentes no desenvolvimento das sociedades rurais, é tarefa que incumbe às associações cívicas e políticas e às Igrejas, nomeadamente à Católica, cujo dinamismo carece de novo ânimo.
Com a comprovada criatividade, iniciativa e responsabilidade, é urgente que se encontrem formas mais abrangentes de participação cívica dos novos líderes, de que tanto carecemos.
Tal como nas comunidades imigrantes, a mulher arrastou a família no processo de integração no país de acolhimento, também entre nós está-lhe reservada uma função mais interventiva que ultrapassa as meras funções de dona de casa, de enfeitar os altares ou de visitar os enfermos.
Dê-se à mulher maiores responsabilidades cívicas, políticas e religiosas e a sociedade ganhará, certamente, um novo dinamismo.

José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

ESCOLA B+S DIAS DE MELO, DAS LAJES DO PICO

-Olha uma baleia ali, p’rós lados da Fonte! Tá bem pertinho da costa! - gritou Mestre Eduardo Laranjo. Nã viste?... Pode ser que ela venha outra vez acima d'água!...
Era a primeira vez que eu via uma baleia, tão perto. Parecia que ela se tinha espreguiçado sobre o mar junto à costa da Manhenha, “lugar das cem adegas”, como escreveu E.Avila.
Recordei-me do escritor Dias de Melo, autor da mais extensa obra sobre os baleeiros da Ilha do Pico. Há dias, aqui esteve. Veio, propositadamente, ao Império do Domingo da Trindade, na Calheta, do qual – disse-me um dia – guarda grandes recordações. Participou também na homenagem que lhe prestaram em São Mateus, a propósito do lançamento do seu mais recente livro A Montanha cobria-se de Negro. É outro romance que narra a vida vivida em terra de baleeiros, desta feita, a ida de baleeiros da Calheta para São Mateus, onde balearam com contrato celebrado e cumprido, correctamente, pelo armador Prof. José Inácio de Lemos.
-Foi a homenagem mais bonita que me fizeram. Estava muito povo. Foi muito bom. O Manuel Serpa ensaiou um grupo que dramatizou uma cena do meu livro. Emocionei-me muito... – confessou-me no Hospital de Ponta Delgada, onde esteve em tratamento o mês passado. - Sabes: escrevo os meus livros com o coração. E isto que te vou dizer, disse-o a muito pouca gente: há passagens dos meus livros que escrevi a chorar... – acrescentou, com voz embargada. Seguiu-se um profundo silêncio, como se ele estivesse a reviver histórias dos seus amigos baleeiros.
Queria ter ido para a marinha - disse-me várias vezes. No mar tinha mais tempo para escrever.
Como os demais baleeiros da Calheta de Nesquim, ainda rapaz, cavou terra, semeou, plantou, foi ao mato, andou léguas e léguas por caminhos velhos e veredas, em dias de sol e de chuva, nas noites de breu e de luar, onde só os burros e cavalos transportavam pessoas.
Cedo conheceu a vida difícil dos beleeiros, que ouvia contar junto às casas dos botes, em acesas discussões ou amenas conversas, após arriadas bem ou mal sucedidas; estórias prenhes de maresia, de baleias arpoadas e muitas perdidas, estórias de injustiças, de miséria, de coragem e de medos.
Aos doze anos fiz a primeira tentativa de escrever um romance sobre o desastre do canal. Mais tarde, contei-o no Mar pela Proa.
Já rapazote, foi estudar para o Faial. Da Horta guarda profundas recordações de uma juventude fogosa e de uma intensa vida associativa. Foi Bombeiro e membro preponderante de uma Associação académica onde se discutia os valores da liberdade, da democracia e da justiça, à luz dos acontecimentos da época, juntamente com outros jovens, cuja amizade ainda perdura.
Concluído o Magistério Primário, na Horta, Dias de Melo foi leccionar para São Miguel. Foi redactor de vários jornais, nomeadamente o AÇORES de Mestre Cícero e a ILHA de Mestre José Barbosa. Cidade Cinzenta, livro de crónicas, publicado em Ponta Delgada, é por ele considerado uma das suas melhores obras. Outras se seguiram: Pedras Negras, Mar Rubro, Mar pela Prôa, Vida Vivida em terra de baleeiros, Aquém e Além Canal, Das velas de lona às asas de Alumínio e muitas outras... é uma vida toda dedicada à escrita. Na Memória das Gentes, (obra em 6 vols) Dias de Melo reuniu relatos de histórias do mar e da terra, lendas, dizeres e falares, contados por gente do Pico. Um rico acervo da linguagem oral, o qual será, certamente, objecto de estudo linguístico e etnográfico.
Dias de Melo é um operário da palavra, escultor da personalidade do baleeiro do Pico, que constitui referencia constante das suas conversas. Mestre José Faidoca, o ícone do baleeiro do Sul do Pico, é personagem sempre presente no contar de histórias que também presenciou como homem do mar, pescador, marinheiro, mestre de lancha, sob as ordens desse grande timoneiro.
Na sua casa, do Alto da Rocha do Canto da Baía, Dias de Melo, faz sempre questão de terminar os livros.
Já se vê o mar. Cortaram as faias, ali em baixo e agora está tudo limpo! - dizia-me ele, como se vigiasse os botes e as lanchas da Calheta, baleando contra os Vilas e os Ribeiras. Daquele recanto sossegado, de acesso difícil, o escritor picoense, açoriano, português, de dimensão universal, traduzido em Inglês e Japonês, amigo do peito de Fernando Namora e de Fernando Assis Pacheco, admirador de Ferreira de Castro, de Aquilino Ribeiro, de John Steinbeck, de Unamuno, de Dostoievsky, de Jorge Amado, e de outros, daquele local, dizia, o escritor ganha novo alento para as suas histórias.
Toda a vida foi professor, nos ensinos primário, técnico e secundário. Em Ponta Delgada, na Cova da Piedade, nas Lajes do Pico. Os seus alunos consideram-no pela pedagogia e dedicação.
Ao celebrar 50 anos de vida literária, seria de toda a justiça atribuir o nome do escritor Dias de Melo, à Escola Básica e Secundária das Lajes do Pico.
Ficaria, assim, consagrado o mérito da sua vasta obra literária, que naquele concelho picoense teve as marcas mais fortes da baleação e homenagear-se-ía o Cidadão do concelho e o antigo Professor.
Fica o alvitre aos órgãos representativos da Escola e a minha homenagem ao amigo e escritor Prof. Dias de Melo.

José Gabriel Ávila
jornalista C.P.536

Sábado, 21 de Junho de 2008

DESTRUIÇÃO DA FÁBRICA DA BALEIA DOS POÇOS FOI CRIME DE LESA PATRIMÓNIO

Encontrei, há dias, João Luis Mariano num jantar do Espírito Santo em São Vicente Ferreira e ele manifestou-me o seu repúdio pela destruição da Fábrica da Baleia.
Há anos, junto à rampa dos Poços de São Vicente, ele contara-me, uma série de estórias, quase tragédias, da sua vida de baleeiro, em reportagem transmitida pela RTP-A. Então debati a degradação da Fábrica da Baleia das Capelas, construída por volta de 1940, tentando sensibilizar os responsáveis regionais e autárquicos para a reconstrução e aproveitamento museológico daquele edifício, muito visitado pelos turistas, por influência dos guias que não deixavam de lá entrar, apesar de as instalações se encontrarem em estado muito precário. De nada serviram todos esses apelos, nomeadamente um que lancei a propósito da lancha rebocadora Vedeta, que apodreceu junto à doca de Ponta Delgada, desfalcada do revestimento de cobre que lhe protegia o casco.
O edifício da Fábrica foi-se degradando, o recheio foi delapidado, sem que nada se fizesse para conter essas acções e o inconcebível aconteceu: deitaram ao chão o único exemplar industrial da actividade baleeira na Ilha de São Miguel.
É inexplicável!”- afirmou João Luis Mariano ao semanário Correio do Norte que dedica o seu número desta semana ao património baleeiro da Vila das Capelas.
Não sei como é que não se respeitou o património micaelense.(...)O que é que a nossa Junta e a Câmara fizeram para que não se desmanchasse aquilo?!(...) Todos deviam ficar indignados porque é do nosso património que estamos a falar. Infelizmente em São Miguel não há ninguém que se interesse por ele!”
Tem inteira razão o antigo baleeiro. O que se permitiu fazer na Fábrica de São Vicente, certamente, não aconteceria nas ilhas do Pico, Faial e Flores, onde os imóveis industriais pertenciam também a empresas privadas. Então por que se permitiu que o seu proprietário, deitasse abaixo o imóvel, quando há legislação regional e uma comissão regional de apoio à preservação do património baleeiro, cuja missão é sinalizar, acautelar e restaurar esse património? Que tem feito essa comissão em relação ao património baleeiro de São Miguel?
Infelizmente em São Miguel não há ninguém que se interesse por ele. João Luis Mariano tem razão! Por essa ilha fora, quem sinalizou e preservou as vigias de baleia, as casas que recolhiam os botes, os caldeiros e as pequenas rampas onde se derretia os cachalotes? Quem não cuidou de proteger o bote a motor que há uns anos se acobertava num armazem da fábrica? Onde está o enorme afiador em pedra de lanças e espeiros que jazia ao ar livre junto à Fábrica? Que fizeram dos fornos e das caldeiras que alimentavam de vapôr os guinchos e outros equipamentos da fábrica? Quem permitiu, com o seu desinteresse e inacção, que tudo isso não fosse acautelado e desembocasse no lixo?
A destruição da Fábrica da Baleia das Capelas é um grave crime de lesa-património, porque destrói a memória de um povo que não olhou a meios e a sacrifícios para sobreviver, mostrando, na luta com o monstro marinho, a sua coragem e valentia.
A destruição da Fábrica da Baleia das Capelas, permite concluir que o mesmo se poderá passar com exemplares de outras actividades industriais: a chicória e o linho, por exemplo. A fábrica do linho da Ribeirinha continua ao abandono e os antigos edifícios das várias fábricas de chicória também.
Infelizmente em São Miguel não há ninguém que se interesse...
O Que leva os agentes políticos e culturais desta ilha a não darem importância a antigas actividades económicas que marcaram a vida do POVO desta Ilha?
Desconhecimento? Desinteresse? Ou a causa é mais profunda e revela algum desprezo por actividades cujos agentes eram as classes baixas, camponeses e pescadores que nesta ilha tiveram vida muito difícil?
Nem tudo, porém, está perdido!
Compete aos responsáveis locais, encontrar espaços condignos para expôr todo o acervo baleeiro que se diz existir nas mãos de particulares, adquirindo-o, ou dele fazendo uso precário, para que não se passe uma esponja sobre uma parte da história micaelense. Povo que esquece a sua história ou não a protege é povo sem identidade, sem alma e sem futuro.
Rasgar as imagens do nosso passado é tão grande crime como apagar a história. E se alguma coisa temos de positivo, são os quinhentos anos de lutas e de labutas que nos aconchegaram às ilhas e ao mar.
Isso custou-nos vidas, mas engradeceu a nossa pequena dimensão insular.
José Gabriel Ávila
Jornalista C.P. 536

Sábado, 14 de Junho de 2008

OS DOUTORES DA LEI

1.- ...e chegaram os Santos Populares, com o seu cortejo de folias a que ninguém fica indiferente, porque estão inculcadas na nossa matriz cultural e étnica. Não custa crer que esta tradição veio com os povoadores do continente mas, passados séculos se identifica com a maneira de ser e de estar dos que por aqui ficaram e nasceram.
De criança, tenho memória dos pic-nics que se fazia na costa, junto a um moinho que o mar arrasou nas fúrias dos ciclones que atingiram as Lajes do Pico, agora mais protegidas por uma muralha de defesa. Das iguarias da merenda, a meio da tarde, constavam sempre o arroz doce, os fritos, as favas guisadas, que agora é tempo delas, e um bolinho para adoçar a boca. Cantava-se, tocava-se, bailava-se, até, a chamarrita, numa alegre folia que todos contagiava.
Recordo, também, a festa de Santo António, no largo em frente de casa. Desconhecia, porém, os rasgos da sua inteligência e o seu notável percurso pastoral, de Lisboa a Pádua, que fizeram com que Roma lhe desse o título de Doutor da Igreja.
A religiosidade popular devotou-lhe papel importante na busca dos amores mais fiáveis e duradoiros que os jovens casais buscam, apesar de tudo, nesta sociedade onde o relacionamento humano e amoroso é cada vez mais ameaçado pela instabilidade da vida e pela transitoriedade das relações. Outros invocam-no, também, na busca de objectos perdidos.
Destas situações, o famoso Santo Popular não tem culpa, mas talvez pudesse, na sua sabedoria, dar resposta a estas e outras questões transversais à sociedade e mentalidade de todos os tempos, como o fez há oitocentos anos, quando pregou de terra em terra e ensinou em várias universidades europeias: o amor, o perdão, as relações humanas, o efémero e o eterno. Bastaria que a sua obra fosse mais estudada e divulgada nas Escolas portuguesas, como são o pensamento e obra de Camões, de António Vieira, de A.Herculano, de Eça, de Pessoa e de muitos outros.
2.- Esta semana, a Assembleia da República aprovou por unanimidade e aclamação, a proposta de revisão do Estatuto da Região Autónoma dos Açores. Mais um passo na senda da autodeterminação do povo açoriano em busca das melhores soluções para os problemas novos que se colocam à população destas ilhas. Falta ainda o documento passar pelo crivo muito apertado do Presidente da República que, em recente visita à Região, revelou o seu entendimento restritivo dos poderes regionais. Adivinha-se, igualmente, muito difícil o parecer favorável do Tribunal Constitucional, entidade que, na minha opinião, não deveria poder alcandorar-se em garante da Lei fundamental, competência dos deputados eleitos, democraticamente.
De qualquer modo, importa que os representantes do povo eleitos para o Parlamento Açoriano, cuja eleição decorrerá em Outubro próximo, tenham capacidades e competências técnicas e políticas para exercerem, eficazmente, as atribuições que lhes vierem a ser cometidas, para bem governarem as nove ilhas.
Costuma dizer-se que os deputados, embora eleitos por círculos eleitorais, presentemente, um por ilha, são deputados da Região e não do seu círculo eleitoral. A prática, porém, é outra. Habitualmente, os parlamentares questionam o Governo sobre questões da ilha que os elegeu e, muito raramente, ultrapassam a fronteira da sua ilha. Este condicionamento, aparentemente imposto, é redutor e leva a um afastamento das problemáticas locais sobre as quais um deputado tem o dever de conhecer para se poder pronunciar com justeza e lucidez.
Agora que as forças políticas estão a formar listas de candidatos, importa escolher os que melhor conheçem os dossiers e a realidade de todas e cada uma das ilhas, e aliem essas qualidade à competência e ao dever de bem servir.
Nem todos terão de ser doutores da lei, mas todos devem ser servidores do bem comum.
José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536

Domingo, 8 de Junho de 2008

ENERGIA ELÉCTRICA - É PRECISO INOVAR

Esta semana, altos responsáveis da ONU afirmaram a necessidade de se duplicar a produção mundial de bens alimentares para suster a eminente tragédia da fome, com proporções maiores que as que a humanidade viveu nos anos 60 e 70 do passado século. Acresce a esta situação o aumento desmesurado dos combustíveis e, por incrível que pareça, o aproveitamento de cereais para produção de energias alternativas. Como dizem os especialistas, é uma nova guerra, desta feita, provocada pelos Senhores do petróleo; uma guerra que não recorre nem à indústria de armamento convencional, nem à produção de armas sofisticadas. A luta que se avizinha é entre os países produtores de petróleo onde a riqueza tende a capitalizar-se nos bolsos de uns poucos afortunados, donos de empresas de exploração das jazidas, e a maioria da humanidade, dependente do ouro negro.
Quanto tempo vai durar esta luta desenfreada e desigual? O tempo suficiente para os investigadores e cientistas encontrarem novas alternativas aos combustíveis fósseis. E quem vai financiar essas investigações e projectos? Certamente os empresários e países cuja indústria mais afectada é pela subida constante dos combustíveis. Em última análise, são as classes mais baixas, nomeadamente a classe média que sofrerá e pagará esta crise. Ao longo da história recente, foi aos seus sacrifícios que os estados recorreram para debelar as dificuldades financeiras, obrigando esse estrato social a apertar o cinto.
Os que vivemos aqui nestas Ilhas sofrerão, igualmente, com a crise anunciada pelos aumentos dos combustíveis e dos produtos alimentares.
Se bem que tenhamos os combustíveis mais baratos da Península Ibérica e uma componente apreciável de energias alternativas na produção de electricidade, não podemos embandeirar em arco nem descansar sobre esta situação.
Pelo contrário, temos de fazer muito mais e rapidamente.
Está a demorar demasiado o início da produção geotérmica na Ilha Terceira e no conjunto Faial-Pico. A viabilidade desses projectos foi anunciada há mais de 10 anos e, daí para cá, pouco ou nada se avançou. Por outro lado, enquanto no Continente a energia eólica cresceu a olhos vistos, nos Açores, região pioneira em todo o país neste tipo de produção energética, os responsáveis da EDA alegam que não se pode ampliar os parques porque ainda não foi descoberta maneira de armazenar a energia produzida pelo vento. Será que o que se pretende é continuar a basear a produção eléctrica na energia térmica e considerar as outras energias como recursos alternativos de segunda ordem? E a energia das ondas, que se ficou pelo “bunker” do Cachorro no Pico e não passou daí? E a hídrica, ainda não aproveitada na Ilha do Pico? E a energia solar, cujos equipamentos deveriam ser obrigatórios em novas construções e apoiados por benefícios fiscalmente mais compensadores?
Por que esperamos para investir a sério na busca de novas alternativas ao petróleo, que as há nestas ilhas suficientes para responder às crescentes necessidades energéticas das suas populações? Por que esperamos para apostar, a sério, em projectos inovadores de investigação de energias alternativas? Será que uma fatia importante do próximo quadro comunitário de apoio é destinada a esse objectivo estratégico o qual absorveria muitos jovens licenciados dos Açores e proporcionaria à nossa Universidade a investigação de ponta que lhe daria novo ânimo e a integraria no grupo de outras academias com vertente tecnológica relevante?!
Ainda estamos a tempo de acertar o passo e de optar, definitivamente, pela investigação e inovação tecnológicas. Já demos provas nos ramos da oceanografia e pescas, na geociências, etc.
A crise energética apresenta-nos, agora, novos desafios. Saibamos, com coragem e determinação, responder, rápida e positivamente, para que, a nossa frágil e pequena economia enfrente, nas nove