Visitei-o, pela última vez, há cerca de duas semanas. Quando me abriu a porta, após ter tocado à campanhia por três vezes, encontrei-o já bastante fragilizado. Dias antes, o João Luís Medeiros tinha-me enviado um e-mail, avisando-me do seu debilitado estado de saúde.
Já não era o mesmo Senhor Professor (era assim que o tratava) que encontrara em Julho na sua casa da Calheta de Nesquim, no Alto da Rocha do Canto da Baía. Dias de Melo recebeu-me então, com uma evidente debilidade, mas feliz por estar ali, onde fazia questão de terminar muitos dos os seus livros.
Já cortaram as faias, agora já vejo a baía toda, um pouco do porto e o Terreiro da Calheta.
Passados poucos dias soube que partira muito doente para o Hospital de Ponta Delgada, para nunca mais voltar à sua Cabana do Pai Tomás.
O nosso último encontro foi, como era habitual, no seu pequeno escritório que repartia com o quarto de cama, coberta de livros e de jornais. Nas paredes, as suas fotos do Pico, - Dias de Melo era um amante da fotografia e fazia-se acompanhar, habitualmente, pela sua máquina – denotando o seu apego às Pedras Negras.
Sentámo-nos, eu na cadeira de visitas, ele na cadeira da pequena secretária de madeira. Sobre ela o computador portátil, fechado, que tantas arrelias lhe dera quando perdia textos que levara horas e horas a trabalhar.
(
Ó José Gabriel, podes vir aqui ver o que se passa com o meu computador? Levantei-me muito cedo e estive a trabalhar até agora, estou muito cansado e agora não encontro o texto. Quando é que vens? ...Obrigado, pá e até logo. E lá ia eu, ciente dos meus poucos conhecimentos de informática, recuperar o que um pequeno clique tinha guardado, sabia-se lá onde. Resolvido o problema – ele tomava nota dos procedimentos que deviam ser feitos em situações semelhantes – vinha mais uma conversa em que ele contava mais um episódio do livro que tinha entre mãos, numa linguagem tão correcta e tão viva que não resistia a ficar mais um pouco. Despedia-me dele sempre com o Adeus Senhor Professor! e ele:
até logo, e obrigado!)
Na última visita, perguntei-lhe se tinha algum livro entre mãos, se continuava a escrever, mas DM fez que não ouvira. Percebi que a pergunta atingira a sua evidente incapacidade de continuar a ser o operário da escrita, cuja arte recriou tantas histórias pessoais e colectivas, nomeadamente dos baleeiros da sua terra. Noutra ocasião dissera-me:
Gostava de ter ido para a Marinha Mercante porque lá tinha muito tempo para escrever.
Falei-lhe do Manuel d'Angélica, com 82 anos, seu antigo feitor, que diariamente vai ao Curral da Pedra na sua burrinha.
Mandei-o embora, mas expliquei-lhe porquê e ficámos amigos. Contei-lhe que o António José Faidoca, antigo baleeiro, me dissera na festa da Piedade que nada sabia do seu estado de saúde.
O António José é um bom rapaz. Recordei-lhe que a Festa da Sra das Mercês, era no final do mês e que num dos seus livros contara uma viagem tormentosa, debaixo de mar e de ventos fortes, à Manhenha, mas nem um comentário. Falei-lhe do João Luis de Medeiros:
Esteve cá três vezes, e do Rui Guilherme de Morais:
Está em casa doente. Tenho que ir visitá-lo.
À nossa volta, estantes de livros e mais livros, alguns gravadores e mini-cassetes, onde guardou estórias, num discurso narrativo tão vivo e tão perfeito que bastava copiá-las para o PC. Decorando prateleiras, estão cachimbos.
Foram quase todos oferecidos. Alguns nem cheguei a usar. Levaram alguns para a exposição, mas ela é que tratou disso. Junto à porta do escritório, uma estantezinha de madeira, que ele mandara fazer a um carpinteiro, com CD,s de música clássica, que ele ouvia alto em bom som. Em frente, a impressora que tantas cópias tirou, aguardava um clique para dar à estampa mais uma página da sua criação literária ...
A nossa conversa foi-se enchendo de silêncios... Há uns meses, ter-me-ia dito: Já te vais embora? fica pr'aí mais um bocado!
Despedi-me do escritor/baleeiro.
Desculpa, mas não posso ir lá abaixo! Adeus! Fechei a porta, comovido, consciente de que aquela fora a minha última visita.
. . .

Ao longo de mais de 20 anos, convivi muito de perto com Dias de Melo. A sua amizade proporcionou-me um amplo conhecimento da sua personalidade e da sua história pessoal, como se fossemos da mesma idade. Revelou-me as reais pessoas e circunstâncias que recriou em muitas das suas obras, relatou-me casos de injustiças, confidenciou-me vivências e amores juvenís e os ambientes estudantís, da sua muito querida cidade da Horta, falou-me das suas amizades, ambientes sociais e das suas actividades culturais e jornalísticos em Ponta Delgada. Fernando Namora e Fernando Assis Pacheco, foram escritores de relacionamento estreito. Influências literárias teve-as de Ferreira de Castro, de J.Steinbeck, Tolstoy... Lia muito e não raro o ouvi considerar uma ou outra obra como muito boa, independentemente do seu autor.
Seu pai -emigrante e sindicalista em San Francisco, ao tempo de Trotsky- marcou, decisivamente, as suas convicções sociais e políticas e a sua militância comunista; a tia Maria Hermínia, - sempre ela, em todas as conversas - a abertura aos escritores proscritos.
Irmão, por tradição familiar, do Império da Trindade, a Dias de Melo, nunca ouvi qualquer referência ofensiva à religião ou às igrejas. Falou-me, com carinho do seu padrinho padre,
homem simples e bom, amigo dos pobres, que nunca mais visitou, desde que fora para a Graciosa.
Dias de Melo foi um denunciador da injustiça estabelecida, um escritor evangélico como lhe disse um dia o Pe Manuel António Pimentel, amigo de verdade.
Figura de referência obrigatória, em todas as conversas sobre baleias, foi Mestre José Faidoca, símbolo maior do baleeiro, grande homem do mar,
como ele não havia outro no sul do nosso Pico. Outros mestres conhecia de grande saber nas Lajes, Ribeiras e Calheta, mas Mestre José Faidoca todos superava. E contava-me histórias da “Vida vivida em terra de baleeiros” a comprovar a sua predilecção por ele.
O ciclo da baleação terminou no início da década de oitenta. A extensa obra de DM permitiu, porém, projectar a saga baleeira para além desse tempo, pois o escritor/baleeiro transformou em epopeia a penosa, arriscada e, por vezes, trágica actividade marítima, dos marinheiros do sul do Pico.
Nem todos os seus livros versam a temática baleeira, mas todos eles abordam questões sociais e culturais, reveladoras da identidade de um povo. Importa que investigadores e estudiosos saibam aproveitar o legado que nos deixou.
Com a morte deste grande escritor açoriano e português, paladino da justiça e da verdade, “A montanha cobriu-se de negro”.
Adeus, Senhor Professor!
Leiria, 25 de Setembro de 2008
José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536